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Artigo
O acaso na
ciência
Por
Paulo Lima
Ilustração: Peter Reeve
Nem
sempre um método científico pode levar à comprovação de uma hipótese,
mas às vezes uma descoberta casual pode recompensar
todo um esforço de pesquisa

Serendipidade.
A palavra não consta dos dicionários de língua portuguesa. Mas uma
consulta ao Longman, caudaloso
dicionário de inglês contemporâneo, desfaz o mistério. Trata-se da
“habilidade natural para fazer, por acaso, descobertas
interessantes ou valiosas”. Com esse sentido, o termo foi incorporado ao
léxico da ciência. Em muitas situações, os cientistas abandonam hipóteses
que não se comprovaram através do método científico. Contudo, em
outros momentos, descobertas feitas por acaso se revelam mais
compensadoras do que a busca original. Por meio da serendipidade, a ciência
avança. Muitos são os achados valiosos no campo da ciência atribuídos
a esse fenômeno. Uns, de tão sensacionais, acabaram por ser remetidos ao
fabulário científico. Outros, mais atuais, têm funcionado como uma
comprovação de que uma mão amiga pode às vezes ajudar o cientista.
Não
obstante, é preciso resistir à firme tentação de acreditar que
descobertas científicas importantes que resultam de um acaso podem ser
tomadas como acidente de percurso. O químico francês Louis Pasteur
chamava a atenção para o fato de que “no campo da observação, o
acaso só favorece a mente preparada”. Portanto, a César o que é de César.
O cientista tem de estar apetrechado para reconhecer que tropeçou numa pérola
fenomenal. É com a conhecida fórmula de 90% de transpiração e 10% de
trabalho que o cientista pode atingir, por acaso, um veio rico e
revolucionário. Nada é gratuito.
Serendipidades
Em
1839, Charles Goodyear derrubou sem querer um pedaço de borracha
misturado com enxofre dentro de um forno quente. Ao examinar o material,
se deu conta de que ele ganhara algumas propriedades presentes no couro
– força, elasticidade e resistência contra solventes. Descobria-se
assim o processo de vulcanização para a borracha. A invenção tornou
possível o desenvolvimento de diversas indústrias, incluindo a automobilística.
Não à toa, o nome Goodyear hoje é sinônimo de pneu. Um caso clássico
de serendipidade.
Sorte?
A ciência obviamente não pode depender dela, mas não se pode eliminar a
possibilidade de que, ao estudar um dado problema, o cientista faça uma
descoberta importante. Talvez seja o caso de se afirmar que não é possível
crer em serendipidade, mas, como no caso das bruxas, que existe, existe.
Galileu Galileu, que precisou negar que não era bruxo e, assim, escapar
das fogueiras da Santa Inquisição, também usufruiu os bônus do acaso.
Testava ele o seu novo telescópio construído para observar planetas,
quando viu pela primeira vez na história quatro luas circulando Júpiter.
Não
foi a primeira vez – e certamente não será a última – que a Física
foi agraciada com poções de serendipidade. Diz a história que Becquerel
descobriu a radioatividade ao revelar, por acidente, algumas chapas fotográficas.
Detalhe importante: semanas antes, ele havia depositado sobre as chapas
sulfato de urânio e potássio. Boa estrela? Poção mágica de
pirlimpimpim? Sim, mas tanto Galileu quanto Becquerel souberam reconhecer
o fato de que estavam diante de uma descoberta tão importante quanto
inesperada.
Mas
o acaso não faz distinções em ciência. Direciona sua mão generosa
também para o mundo das espécies vivas. Um estudo realizado na
Universidade da Flórida chegou a uma conclusão surpreendente – e
casual. As borboletas, que imaginamos mais silenciosas do que uma meditação
budista, emitem sons. Ora, se praticamente todos os seres vivos, de um
modo ou de outro, se comunicam, como poderia ser diferente com as anódinas
borboletas? Mirian Hay-Roe, uma entomóloga daquela universidade,
constatou que as borboletas Heliconius cydno, encontradas na América
Central e do Sul, emitem ruídos quando em interação.
Segundo
a pesquisadora, foi uma descoberta acidental, que mirava noutra hipótese
quando descobriu a algaravia desses seres coloridos. Como uma descoberta
leva a outra, Hay-Roe tenta agora entender o processo de emissão de ruídos
por parte dessa espécie, conhecida pelas grandes asas azuis e brancas.
A
serendipidade com que Hay-Roe foi agraciada tem uma história
interessante. Hay-Roe dividia uma estufa com outra colega que estudava as
borboletas azuis, quando notou algo estranho. As Heliconius cydno
incomodavam as outras espécies de borboleta. Na disputa pelo território,
as Heliconius cydno emitiam um som fraco. Os sons foram registrados
em gravador, que agora são investigados. A descoberta de Hay-Roe talvez
confirme uma velha suspeita da ciência. Em 1874, Charles Darwin presumiu
que havia comunicação entre borboletas. A espécie Hamadryas, segundo o
pai da teoria evolucionista, usava sons para atrair pares em potencial.
Newton e a maçã
No
entanto, o caso mais notório de serendipidade de que se tem notícia é
mesmo o de Isaac Newton. Poderíamos afirmar que Sir Newton foi uma situação
típica de serendipidade na cabeça, literalmente. Reza o anedotário
científico que Newton lia um livro sentado tranqüilamente no jardim de
sua casa de campo, quando uma maçã caiu sobre a sua cabeça. Aos que
associam a imagem de Newton a um misantropo devotado integralmente a
desvendar os mistérios do universo, acertou. Mas honre-se a sua inigualável
trajetória acrescentando que ele foi também um bem sucedido financista
da sua época (chegou a diretor da Casa da Moeda da Inglaterra). Dinheiro
não era problema para o fidalgo inglês.
A
partir da experiência com a maçã, Newton teve um insight. Seria
a força que fez a maçã cair a mesma que segura a lua gravitando em
torno da terra? A pergunta viria a ser a base da sua teria da gravitação
universal.
Newton
inaugura uma nova ciência, que rompe com os paradigmas de importantes físicos
que o antecederam, como Nicolau Copérnico,
Galileu Galilei e Johannes Kepler.
“Durante muito tempo”, diz James Gleick em Isaac Newton, uma
biografia, “a Terra parecia ser o centro de todas as coisas”.
Era um mundo em que “apenas uns poucos objetos brilhantes
causavam perplexidade – os planetas, errantes, como deuses ou
mensageiros, movendo-se irregularmente contra o pano de fundo fixo
das estrelas”. É a esse cenário fixo, ainda fortemente influenciado pela
teologia, que a física de Newton vai se contrapor e instaurar as bases da
Física moderna.
Ciência
com açúcar
Um
dos medicamentos mais importantes para o combate à diabetes nasceu de uma
observação casual. Em 1889, em Estrasburgo – que por aquela época
ainda pertencia ao território alemão-,
os pesquisadores Joseph von Mering e Oscar Minkowski retiraram o pâncreas
de um cão para estudar a função desse órgão na digestão. No dia
seguinte, um assistente de laboratório observou um grande número de
moscas voando ao redor da urina do cão. Movidos pela curiosidade,
analisaram a urina e descobriram que ela apresentava um excesso de açúcar,
sinal comum de diabetes.
Posteriormente
outros pesquisadores, como Banting e MacLeod, se envolveram no estudo, que
culminou com o uso clínico da insulina contra a diabetes, em 1921. No ano
seguinte, a dupla ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. A
descoberta da insulina foi, por assim dizer, o episódio mais doce de
serendipidade de que se tem notícia nos anais da ciência.
Porém
o exemplo de Isaac Newton firma-se como o mais espetacular, ao delinear um
estágio fundamental da ciência a partir de um episódio prosaico do
cotidiano. É bastante conhecida a frase com a qual ele faz uma espécie
de balanço final de uma vida dedicada a desvendar as leis da
natureza.”Não sei o que pareço aos olhos do mundo, mas, para mim, fui
apenas um garoto brincando na praia, entretido em descobrir de vez em
quando um pedregulho mais liso ou uma concha mais bonita que o normal”.
No fundo, uma prova de humildade ante o grandioso oceano da ciência,
feito também de emocionantes lances do acaso.
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