Webjornal - Quinzenal  - Edição 67 - Aracaju,   24 de outubro a  07 de novembro  de 2004
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Artigo

O acaso na ciência

Por Paulo Lima
Ilustração: Peter Reeve

Nem sempre um método científico pode levar à comprovação de uma hipótese, mas às vezes uma descoberta casual pode recompensar  todo um esforço de pesquisa

Serendipidade. A palavra não consta dos dicionários de língua portuguesa. Mas uma consulta ao Longman,  caudaloso dicionário de inglês contemporâneo, desfaz o mistério. Trata-se da  “habilidade natural para fazer, por acaso, descobertas interessantes ou valiosas”. Com esse sentido, o termo foi incorporado ao léxico da ciência. Em muitas situações, os cientistas abandonam hipóteses que não se comprovaram através do método científico. Contudo, em outros momentos, descobertas feitas por acaso se revelam mais compensadoras do que a busca original. Por meio da serendipidade, a ciência avança. Muitos são os achados valiosos no campo da ciência atribuídos a esse fenômeno. Uns, de tão sensacionais, acabaram por ser remetidos ao fabulário científico. Outros, mais atuais, têm funcionado como uma comprovação de que uma mão amiga pode às vezes ajudar o cientista.

Não obstante, é preciso resistir à firme tentação de acreditar que descobertas científicas importantes que resultam de um acaso podem ser tomadas como acidente de percurso. O químico francês Louis Pasteur chamava a atenção para o fato de que “no campo da observação, o acaso só favorece a mente preparada”. Portanto, a César o que é de César. O cientista tem de estar apetrechado para reconhecer que tropeçou numa pérola fenomenal. É com a conhecida fórmula de 90% de transpiração e 10% de trabalho que o cientista pode atingir, por acaso, um veio rico e revolucionário. Nada é gratuito.

Serendipidades

Em 1839, Charles Goodyear derrubou sem querer um pedaço de borracha misturado com enxofre dentro de um forno quente. Ao examinar o material, se deu conta de que ele ganhara algumas propriedades presentes no couro – força, elasticidade e resistência contra solventes. Descobria-se assim o processo de vulcanização para a borracha. A invenção tornou possível o desenvolvimento de diversas indústrias, incluindo a automobilística. Não à toa, o nome Goodyear hoje é sinônimo de pneu. Um caso clássico de serendipidade.

Sorte? A ciência obviamente não pode depender dela, mas não se pode eliminar a possibilidade de que, ao estudar um dado problema, o cientista faça uma descoberta importante. Talvez seja o caso de se afirmar que não é possível crer em serendipidade, mas, como no caso das bruxas, que existe, existe. Galileu Galileu, que precisou negar que não era bruxo e, assim, escapar das fogueiras da Santa Inquisição, também usufruiu os bônus do acaso. Testava ele o seu novo telescópio construído para observar planetas, quando viu pela primeira vez na história quatro luas circulando Júpiter.

Não foi a primeira vez – e certamente não será a última – que a Física foi agraciada com poções de serendipidade. Diz a história que Becquerel descobriu a radioatividade ao revelar, por acidente, algumas chapas fotográficas. Detalhe importante: semanas antes, ele havia depositado sobre as chapas sulfato de urânio e potássio. Boa estrela? Poção mágica de pirlimpimpim? Sim, mas tanto Galileu quanto Becquerel souberam reconhecer o fato de que estavam diante de uma descoberta tão importante quanto inesperada.

Mas o acaso não faz distinções em ciência. Direciona sua mão generosa também para o mundo das espécies vivas. Um estudo realizado na Universidade da Flórida chegou a uma conclusão surpreendente – e casual. As borboletas, que imaginamos mais silenciosas do que uma meditação budista, emitem sons. Ora, se praticamente todos os seres vivos, de um modo ou de outro, se comunicam, como poderia ser diferente com as anódinas borboletas? Mirian Hay-Roe, uma entomóloga daquela universidade, constatou que as borboletas Heliconius cydno, encontradas na América Central e do Sul, emitem ruídos quando em interação.

Segundo a pesquisadora, foi uma descoberta acidental, que mirava noutra hipótese quando descobriu a algaravia desses seres coloridos. Como uma descoberta leva a outra, Hay-Roe tenta agora entender o processo de emissão de ruídos por parte dessa espécie, conhecida pelas grandes asas azuis e brancas.

A serendipidade com que Hay-Roe foi agraciada tem uma história interessante. Hay-Roe dividia uma estufa com outra colega que estudava as borboletas azuis, quando notou algo estranho. As Heliconius cydno incomodavam as outras espécies de borboleta. Na disputa pelo território, as Heliconius cydno emitiam um som fraco. Os sons foram registrados em gravador, que agora são investigados. A descoberta de Hay-Roe talvez confirme uma velha suspeita da ciência. Em 1874, Charles Darwin presumiu que havia comunicação entre borboletas. A espécie Hamadryas, segundo o pai da teoria evolucionista, usava sons para atrair pares em potencial.

Newton e a maçã

No entanto, o caso mais notório de serendipidade de que se tem notícia é mesmo o de Isaac Newton. Poderíamos afirmar que Sir Newton foi uma situação típica de serendipidade na cabeça, literalmente. Reza o anedotário científico que Newton lia um livro sentado tranqüilamente no jardim de sua casa de campo, quando uma maçã caiu sobre a sua cabeça. Aos que associam a imagem de Newton a um misantropo devotado integralmente a desvendar os mistérios do universo, acertou. Mas honre-se a sua inigualável trajetória acrescentando que ele foi também um bem sucedido financista da sua época (chegou a diretor da Casa da Moeda da Inglaterra). Dinheiro não era problema para o fidalgo inglês.

A partir da experiência com a maçã, Newton teve um insight. Seria a força que fez a maçã cair a mesma que segura a lua gravitando em torno da terra? A pergunta viria a ser a base da sua teria da gravitação universal. 

Newton inaugura uma nova ciência, que rompe com os paradigmas de importantes físicos que o antecederam, como Nicolau Copérnico,  Galileu Galilei e Johannes Kepler.  “Durante muito tempo”, diz James Gleick em Isaac Newton, uma biografia, “a Terra parecia ser o centro de todas as coisas”.  Era um mundo em que “apenas uns poucos objetos brilhantes causavam perplexidade – os planetas, errantes, como deuses ou mensageiros, movendo-se irregularmente contra o pano de fundo fixo  das estrelas”. É  a esse cenário fixo, ainda fortemente influenciado pela teologia, que a física de Newton vai se contrapor e instaurar as bases da Física moderna.

Ciência com açúcar

Um dos medicamentos mais importantes para o combate à diabetes nasceu de uma observação casual. Em 1889, em Estrasburgo – que por aquela época ainda pertencia ao território alemão-,  os pesquisadores Joseph von Mering e Oscar Minkowski retiraram o pâncreas de um cão para estudar a função desse órgão na digestão. No dia seguinte, um assistente de laboratório observou um grande número de moscas voando ao redor da urina do cão. Movidos pela curiosidade, analisaram a urina e descobriram que ela apresentava um excesso de açúcar, sinal comum de diabetes.

Posteriormente outros pesquisadores, como Banting e MacLeod, se envolveram no estudo, que culminou com o uso clínico da insulina contra a diabetes, em 1921. No ano seguinte, a dupla ganhou o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. A descoberta da insulina foi, por assim dizer, o episódio mais doce de serendipidade de que se tem notícia nos anais da ciência.

Porém o exemplo de Isaac Newton firma-se como o mais espetacular, ao delinear um estágio fundamental da ciência a partir de um episódio prosaico do cotidiano. É bastante conhecida a frase com a qual ele faz uma espécie de balanço final de uma vida dedicada a desvendar as leis da natureza.”Não sei o que pareço aos olhos do mundo, mas, para mim, fui apenas um garoto brincando na praia, entretido em descobrir de vez em quando um pedregulho mais liso ou uma concha mais bonita que o normal”. No fundo, uma prova de humildade ante o grandioso oceano da ciência, feito também de emocionantes lances do acaso.

                         

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