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Artigo
Filme B
Por
Paulo Lima
Agora
que a fatura das eleições americanas está liquidada e a vaca foi para o
brejo, ou the cow went to the swamp, como inventou com galhofa Millôr Fernandes, talvez nem valha a pena falar mais nesse assunto. Que
os analistas de plantão, pagos para esse fim, cuidem de dar as
devidas explicações para a derrota de John Kerry - ou a vitória de
George Bush, o que dá no mesmo. Mas é inevitável tentar arrancar ainda
algum efeito, ainda que cômico, da postura dos dois candidatos.
Salta
aos olhos o fato de que o traço mais expressivo do democrata Kerry é
exatamente a sua inexpressividade. A imagem de um pluto de orelhas
caídas, o personagem de Disney, poderia ser o comparativo mais próximo
do oponente de Bush. Mas o próprio cinema americano, com o seu infinito
arsenal de mitos e modelos, há de oferecer outras opções. Observando a
cara melancólica de Kerry, é impossível não associá-lo a
Humphrey Bogart, o astro taciturno de Casablanca. Com uma diferença. De
Bogart, eterno cigarro pendendo do canto da boca, jamais se viu um escasso
sorriso. Kerry, a seu modo, ensaiou sorrisos, mas o resultado ficou mais
próximo de um cavernoso esgar.
Passe
um holofote rápido na história recente dos Estados Unidos. Analise a
performance cênica de alguns ex-presidentes. No frontispício de cada um,
de Nixon a Carter, de Reagan a Clinton, lá estava o sorriso ladino,
disfarçado em máscara de bom-mocismo.
Um provocador como Jean Baudrillard chegou a cogitar, em seu livro America,
que Reagan levou a eleição no bico, ou seja, às custas de um sorriso
que ele ampliava de orelha a orelha.
Já
W. Bush é o perfeito antípoda de John Kerry. Vindo do Texas, nada mais
natural do que compará-lo a um cowboy como John Wayne, o modelo mais
elaborado desse tipo made in USA. John Wayne exterminava os
índios, matava os fora-da-lei e, assim, afastava qualquer ameaça à
continuidade do sonho americano.
Cabe,
porém, atribuir a Bush outra persona hollywoodiana. Com as orelhas sempre
alertas para prováveis sinais de ataques terroristas, mais acertado seria
compará-lo a Mickey Mouse, o rato orelhudo, sempre de bem com a vida,
consigo próprio e com seus parceiros. Há, contudo, uma substancial diferença. O bem-estar de
Mickey Mouse está plenamente de acordo com o seu universo de faz de
conta. A bem-aventurança que Bush prometeu aos americanos, calcada no fundamentalismo religioso,
nas tábuas dos princípios morais, está fundada no mais puro embuste, a
começar pelas justificativas que levaram os EUA à invasão do Iraque.
Ponto pacífico.
A
campanha ainda transcorria numa espécie de banho-maria quando a TV
americana levou ao ar um episódio dos Simpsons satirizando os dois
candidatos. O ponto de vista de John Kerry era representado por uma
entusiasmada banda de rock. O discurso de Bush foi colocado na boca de um
cantor country. Por coincidência, veio de alguns astros do pop-rock
daquele país o apoio para Kerry. Rock stars como Bruce
Spreengsteen hipotecaram solidariedade a Kerry Bogart.
Numa
análise que empreendeu sobre o imaginário do cinema americano, o
sociólogo italiano Massimo Canevacci notou que os filmes de Hollywood
dividem o mundo entre o bem e o mal. Maniqueísmo puro. Essa divisão
básica preenche o universo simbólico dos norte-americanos. Por lá,
você é winner (vencedor) ou loser (perdedor). Não há
meio termo. Ou Bush, e a representação do Bem e do mocinho, ou os
bandidos, as trevas, o Mal.
O
presidente reeleito é um alien perto da grande tradição americana de
contestação, rebeldia e luta pelos direitos civis. Porém foi martelando
o que há de mais enraizado na mentalidade americana que W. Bush logrou
êxito na campanha: a expiação dos próprios males através da escolha
de um inimigo externo para combater, o terror fundamentalista islâmico,
tática tão comum aos regimes totalitários.
Os
milhões de americanos que votaram em Bush julgam ter escolhido o xerife
perfeito para protegê-los da ameaça dos bandidos, mas, se fosse para
determinar um happy end para esse filme B em que se tornou os
Estados Unidos, o cowboy texano aliado aos grandes interesses corporativos
da América faria por merecer um cartaz de wanted (procura-se)
espalhado por todos os
fóruns de paz do planeta.
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