Webjornal - Quinzenal  - Edição 68 - Aracaju,  07 a 21 de novembro  de 2004
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Artigo

Filme B

Por Paulo Lima

Agora que a fatura das eleições americanas está liquidada e a vaca foi para o brejo, ou the cow went to the swamp, como inventou com galhofa Millôr Fernandes, talvez nem valha a pena falar mais nesse assunto. Que os analistas de plantão, pagos para  esse fim, cuidem de dar as devidas explicações para a derrota de John Kerry - ou a vitória de George Bush, o que dá no mesmo. Mas é inevitável tentar arrancar ainda algum efeito, ainda que cômico,  da postura dos dois candidatos.

Salta aos olhos o fato de que o traço mais expressivo do democrata Kerry é exatamente a sua inexpressividade. A imagem de um pluto de orelhas caídas, o personagem de Disney, poderia ser o comparativo mais próximo do oponente de Bush. Mas o próprio cinema americano, com o seu infinito arsenal de mitos e modelos, há de oferecer outras opções. Observando a cara melancólica  de Kerry, é impossível não associá-lo a Humphrey Bogart, o astro taciturno de Casablanca. Com uma diferença. De Bogart, eterno cigarro pendendo do canto da boca, jamais se viu um escasso sorriso. Kerry, a seu modo, ensaiou sorrisos, mas o resultado ficou mais próximo de um cavernoso esgar.

Passe um holofote rápido na história recente dos Estados Unidos. Analise a performance cênica de alguns ex-presidentes. No frontispício de cada um, de Nixon a Carter, de Reagan a Clinton, lá estava o sorriso ladino, disfarçado em máscara de bom-mocismo. Um provocador como Jean Baudrillard chegou a cogitar, em seu livro America,  que Reagan levou a eleição no bico, ou seja, às custas de um sorriso que ele ampliava de orelha a orelha.  

Já W. Bush é o perfeito antípoda de John Kerry. Vindo do Texas, nada mais natural do que compará-lo a um cowboy como John Wayne, o modelo mais elaborado desse tipo made in USA. John Wayne exterminava os índios, matava os fora-da-lei e, assim, afastava qualquer ameaça à continuidade do sonho americano.  

Cabe, porém, atribuir a Bush outra persona hollywoodiana. Com as orelhas sempre alertas para prováveis sinais de ataques terroristas, mais acertado seria compará-lo a Mickey Mouse, o rato orelhudo, sempre de bem com a vida, consigo próprio e com seus parceiros. Há, contudo, uma substancial diferença. O bem-estar de Mickey Mouse está plenamente de acordo com o seu universo de faz de conta. A bem-aventurança que Bush prometeu aos americanos, calcada no fundamentalismo religioso, nas tábuas dos princípios morais, está fundada no mais puro embuste, a começar pelas justificativas que levaram os EUA à invasão do Iraque. Ponto pacífico.

A campanha ainda transcorria numa espécie de banho-maria quando a TV americana levou ao ar um episódio dos Simpsons satirizando os dois candidatos. O ponto de vista de John Kerry era representado por uma entusiasmada banda de rock. O discurso de Bush foi colocado na boca de um cantor country. Por coincidência, veio de alguns astros do pop-rock daquele país o apoio para Kerry. Rock stars como Bruce Spreengsteen hipotecaram solidariedade a Kerry Bogart.

Numa análise que empreendeu sobre o imaginário do cinema americano, o sociólogo italiano Massimo Canevacci notou que os filmes de Hollywood dividem o mundo entre o bem e o mal. Maniqueísmo puro. Essa divisão básica preenche o universo simbólico dos norte-americanos. Por lá, você é winner (vencedor) ou loser (perdedor). Não há meio termo. Ou Bush, e a representação do Bem e do mocinho, ou os bandidos, as trevas, o Mal. 

O presidente reeleito é um alien perto da grande tradição americana de contestação, rebeldia e luta pelos direitos civis. Porém foi martelando o que há de mais enraizado na mentalidade americana que W. Bush logrou êxito na campanha: a expiação dos próprios males através da escolha de um inimigo externo para combater, o terror fundamentalista islâmico, tática tão comum aos regimes totalitários.  

Os milhões de americanos que votaram em Bush julgam ter escolhido o xerife perfeito para protegê-los da ameaça dos bandidos, mas, se fosse para determinar um happy end para esse filme B em que se tornou os Estados Unidos, o cowboy texano aliado aos grandes interesses corporativos da América faria por merecer um cartaz de wanted (procura-se) espalhado por todos os fóruns de paz do planeta.

                         

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