|
Artigo
O suor das letras
Por
Paulo Lima
A
entrega do prêmio Portugal Telecom de Literatura bateu o Jabuti em pelo
menos dois pontos. Pagou R$ 100 mil ao poeta carioca Paulo Henriques
Britto, o menos conhecido dos dez finalistas, contra irrisórios R$ 15 mil
pagos pelo Jabuti a Chico Buarque. Embora concorresse com pesos pesados
como Sérgio Sant'anna, Britto não teve sua vitória contestada pelos
pares de profissão. Já a vitória de Buarque foi vista como um ato de
lesa-literatura, e o autor de A Banda foi considerado um bicão na
festa que reuniu escritores de verdade. Foi a vitória da visibilidade e
da fama contra a verdadeira literatura.
Na
destinação que os ganhadores do Telecom afirmaram que dariam à grana
polpuda, aparece uma revelação do tratamento a que estão submetidos aqueles que
insistem em ganhar o pão com o suor das letras no Brasil. Paulo Henriques
Britto disse que, com parte do dinheiro, pagaria despesas de hospital.
Idem para Sérgio Sant'anna, com um pequeno adendo: trocaria de carro, já
que o dele tinha 12 anos. Sérgio, segundo colocado, levou R$ 30 mil.
Escritor
brasileiro, se não ceder às tentações do Fausto das editoras, de
produzirem coisa fácil e palatável, termina os dias pobre e doente.
João Antônio, autor de Malagueta, perus e bacanaço, é um
emblema dessa condição. Morreu pobre
e esquecido. Fazia literatura com L maiúsculo.
E
escritor brasileiro, se não ceder às maquinações do Fausto e topar uma sinecura no governo, morre igualmente pobre e esquecido. Sérgio Micelli
escreveu o tratado definitivo sobre a condição promíscua do intelectual brasileiro, Intelectuais
e classe dirigente no Brasil. No livro, originalmente tese de
mestrado, Sérgio faz uma radiografia pouco alentadora dos intelectuais à
brasileira. Salvo poucas e honrosas exceções, todos ostentam ou
ostentaram em seus currículos um holerite expedido por uma repartição
pública.
A
pindaíba é parte incontornável da história da nossa literatura. E os
mimos e salamaleques ao poder também. Parece restar aos escritores ou a rendição ao mofo
burocrático, ou o oblívio. Há, contudo, a sedução do mercado:
escrever obras de consumo fácil, de estrutura televisiva, com apelos
maniqueístas e boa dose de infantilização, bem a gosto dos novos
cânones da cultura ocidental. Condenada à danação está a obra que
faça estremecer o bem estar do leitor, que não contribua para a sua
beatitude, como se arte fosse elixir ou ungüento para todos os males,
como se fosse garantia de felicidade. E não é.
Na
entrega do Telecom, o gaúcho Luís Antonio de Assis Brasil, terceiro
colocado, R$ 20 mil, dedicou o prêmio a todos os autores marginalizados
do Sul. Deveria ter estendido a dedicatória a todos os marginalizados do
País, que são muitos, que vivem à margem dos esquemas promocionais e
recusam concessões fáceis para obter sucesso.
|