Webjornal - Quinzenal  - Edição 70 - Aracaju,  05 a 19 de dezembro  de 2004
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Artigo

O suor das letras

Por Paulo Lima

A entrega do prêmio Portugal Telecom de Literatura bateu o Jabuti em pelo menos dois pontos. Pagou R$ 100 mil ao poeta carioca Paulo Henriques Britto, o menos conhecido dos dez finalistas, contra irrisórios R$ 15 mil pagos pelo Jabuti a Chico Buarque. Embora concorresse com pesos pesados como Sérgio Sant'anna, Britto não teve sua vitória contestada pelos pares de profissão. Já a vitória de Buarque foi vista como um ato de lesa-literatura, e o autor de A Banda foi considerado um bicão na festa que reuniu escritores de verdade. Foi a vitória da visibilidade e da fama contra a verdadeira literatura.

Na destinação que os ganhadores do Telecom afirmaram que dariam à grana polpuda, aparece uma revelação do tratamento a que estão submetidos aqueles que insistem em ganhar o pão com o suor das letras no Brasil. Paulo Henriques Britto disse que, com parte do dinheiro, pagaria despesas de hospital. Idem para Sérgio Sant'anna, com um pequeno adendo: trocaria de carro, já que o dele tinha 12 anos. Sérgio, segundo colocado, levou R$ 30 mil.

Escritor brasileiro, se não ceder às tentações do Fausto das editoras, de produzirem coisa fácil e palatável, termina os dias pobre e doente. João Antônio, autor de Malagueta, perus e bacanaço, é um emblema dessa condição. Morreu pobre e esquecido. Fazia literatura com L maiúsculo.

E escritor brasileiro, se não ceder às maquinações do Fausto e topar uma sinecura no governo, morre igualmente pobre e esquecido. Sérgio Micelli escreveu o tratado definitivo sobre a condição promíscua do intelectual brasileiro, Intelectuais e classe dirigente no Brasil. No livro, originalmente tese de mestrado, Sérgio faz uma radiografia pouco alentadora dos intelectuais à brasileira. Salvo poucas e honrosas exceções, todos ostentam ou ostentaram em seus currículos um holerite expedido por uma repartição pública.

A pindaíba é parte incontornável da história da nossa literatura. E os mimos e salamaleques ao poder também. Parece restar aos escritores ou a rendição ao mofo burocrático, ou o oblívio. Há, contudo, a sedução do mercado: escrever obras de consumo fácil, de estrutura televisiva, com apelos maniqueístas e boa dose de infantilização, bem a gosto dos novos cânones da cultura ocidental. Condenada à danação está a obra que faça estremecer o bem estar do leitor, que não contribua para a sua beatitude, como se arte fosse elixir ou ungüento para todos os males, como se fosse garantia de felicidade. E não é.

Na entrega do Telecom, o gaúcho Luís Antonio de Assis Brasil, terceiro colocado, R$ 20 mil, dedicou o prêmio a todos os autores marginalizados do Sul. Deveria ter estendido a dedicatória a todos os marginalizados do País, que são muitos, que vivem à margem dos esquemas promocionais e recusam concessões fáceis para obter sucesso. 

                         

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