|
Artigo
História virtual
Por
Paulo Lima
Hitler
se refaz em seu bunker em Berlim, cercado por asseclas do partido nazista.
Jura vingança pelo atentado que acabara de sofrer, no apagar das luzes da
Segunda Guerra Mundial. Winston Churchill mastiga um inseparável
charuto, enquanto decide sobre mais uma ofensiva contra a força aérea
alemã, nos bombardeios a Londres. Stalin assiste a um filme no interior
do Kremlim, em Moscou. Cercado por generais, sorri. Franklin Delano
Roosevelt tomba vitimado por uma doença que quase lhe tirou a vida.
Recebe a ajuda tempestiva de um auxiliar.
O
quê?! Então havia imagens desses bastidores? Como não foram
exibidas antes? Tão sensacionais e jamais reveladas? As cenas, exibidas
num documentário pelo canal da "National Geographic", na TV
paga, não passavam de
encenações produzidas com recursos de computador. Esse era exatamente o
tema do documentário: a história virtual.
Os
truques que deram tanta verossimilhança a alguns dos principais
protagonistas da Segunda Guerra foram aos poucos revelados por técnicos
britânicos, criadores desses recursos. Homens com semelhança com Hitler,
Stalin, Churchill e Roosevelt foram selecionados e fotografados, de frente
e de perfil. Suas imagens foram, depois, trabalhadas em programas de
computador. Uma vez "compostos" os personagens, suas
máscaras virtuais foram sobrepostas a imagens verdadeiras de atores
interpretando os quatro líderes.
O
resultado é impressionante. Segundo os inventores do processo, é possível visitar o passado, como se ele estivesse acontecendo no
presente. Já dá para imaginar as várias possibilidades dessa diabrura
tecnológica. O
consumidor fanático por eventos históricos terá a chance de escolher
um episódio que melhor lhe convir e pedir a
sua reprodução para consumo rápido. Fantástico!
Antes
que algum candidato tome a dianteira, ergo o braço e reservo o primeiro
acontecimento que gostaria de ver em DVD, uma
das mais rumorosas tragédias do século 20: o assassinato de
Kennedy numa rua mixuruca de Dallas, Texas. No filme que eu escolhesse,
não ia querer perder a imagem de um Lee Oswald subindo, degrau por degrau,
a escadaria que o conduziu ao último andar do depósito de livros, de
onde ele disparou pelo menos um dos tiros que matou o membro mais famoso do
reino de Camelot.
Queria
também imagens de uma câmera exclusiva acompanhando o personagem misterioso
escondido atrás dos arbustos que, segundo teorias conspiratórias, teria
alvejado Kennedy pela frente. Queria vê-lo fugindo na ponta dos pés,
até sumir na imensidão de Dallas, bem diante das barbas da polícia
texana.
Escolheria
outras passagens históricas ainda envoltas na névoa da indefinição.
Por exemplo, os crimes cometidos por Jack, o estripador. No filme sobre
esse brutal assassino, eu faria questão de imagens bônus. Jack saindo de
casa. Jack passando num pub para aquecer a garganta. Jack se aproximando
da sua vítima. Jack abordando a indefesa prostituta londrina, próxima presa daquela
noite. No final, um big close na cara dele, para não deixar dúvida
quanto à identidade do assassino.
Com
o recurso da história virtual, eu queria seguir Mata Hari numa de suas
rondas como espiã dupla. Queria ver o papo que ela jogaria para o oficial,
a ponto de seduzi-lo e fazê-lo contar segredos militares importantes. Eu
testaria na minha imaginação a força do seu apelo, do seu charme,
dos seus dotes fatais. Eu testaria a minha capacidade de resistir a uma
das mais famosas espiãs da Primeira Guerra Mundial.
Eu
selecionaria tantos episódios que correria o risco de virar um consumidor
blockbuster de história virtual, infinitas são as possibilidades,
emaranhados e fatos ainda inescrutáveis do nosso passado.
Mas
isso não seria nada se comparado à revolução que esses ingleses vão
conseguir, no dia em que inventarem a história virtual do futuro. Você
comprando o direito de visualizar, sem restrições, as suas ações,
podendo modificá-las antes que aconteçam. Claro, você correria o
risco de descobrir que não está lá, sinal de que seu filme, em algum
momento, foi interrompido e que você, então, passou desta para melhor.
|