Webjornal - Quinzenal  - Edição 71 - Aracaju, 19 de dezembro  de 2004 a 02 de janeiro de 2005
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Artigo

História virtual

Por Paulo Lima

Hitler se refaz em seu bunker em Berlim, cercado por asseclas do partido nazista. Jura vingança pelo atentado que acabara de sofrer, no apagar das luzes da Segunda Guerra Mundial.  Winston Churchill mastiga um inseparável charuto, enquanto decide sobre mais uma ofensiva contra a força aérea alemã, nos bombardeios a Londres. Stalin assiste a um filme no interior do Kremlim, em Moscou. Cercado por generais, sorri. Franklin Delano Roosevelt tomba vitimado por uma doença que quase lhe tirou a vida. Recebe a ajuda tempestiva de um auxiliar.

O quê?! Então havia imagens desses bastidores? Como não foram exibidas antes? Tão sensacionais e jamais reveladas? As cenas, exibidas num documentário pelo canal da "National Geographic", na TV paga, não passavam de encenações produzidas com recursos de computador. Esse era exatamente o tema do documentário: a história virtual.

Os truques que deram tanta verossimilhança a alguns dos principais protagonistas da Segunda Guerra foram aos poucos revelados por técnicos britânicos, criadores desses recursos. Homens com semelhança com Hitler, Stalin, Churchill e Roosevelt foram selecionados e fotografados, de frente e de perfil. Suas imagens foram, depois, trabalhadas em programas de computador. Uma vez "compostos" os personagens,  suas máscaras virtuais foram sobrepostas a imagens verdadeiras de atores interpretando os quatro líderes.

O resultado é impressionante. Segundo os inventores do processo, é possível visitar o passado, como se ele estivesse acontecendo no presente. Já dá para imaginar as várias possibilidades dessa diabrura tecnológica. O consumidor fanático por eventos históricos terá a chance de escolher um episódio  que melhor lhe convir e pedir a sua reprodução para consumo rápido. Fantástico!

Antes que algum candidato tome a dianteira, ergo o braço e reservo o primeiro acontecimento que gostaria de ver em DVD, uma das mais rumorosas tragédias do século 20: o assassinato de Kennedy numa rua mixuruca de Dallas, Texas. No filme que eu escolhesse, não ia querer perder a imagem de um Lee Oswald subindo, degrau por degrau, a escadaria que o conduziu ao último andar do depósito de livros, de onde ele disparou pelo menos um dos tiros que matou o membro mais famoso do reino de Camelot.

Queria também imagens de uma câmera exclusiva acompanhando o personagem misterioso escondido atrás dos arbustos que, segundo teorias conspiratórias, teria alvejado Kennedy pela frente. Queria vê-lo fugindo na ponta dos pés, até sumir na imensidão de Dallas, bem diante das barbas da polícia texana.

Escolheria outras passagens históricas ainda envoltas na névoa da indefinição. Por exemplo, os crimes cometidos por Jack, o estripador. No filme sobre esse brutal assassino, eu faria questão de imagens bônus. Jack saindo de casa. Jack passando num pub para aquecer a garganta. Jack se aproximando da sua vítima. Jack abordando a indefesa prostituta londrina, próxima presa daquela noite. No final, um big close na cara dele, para não deixar dúvida quanto à identidade do assassino.

Com o recurso da história virtual, eu queria seguir Mata Hari numa de suas rondas como espiã dupla. Queria ver o papo que ela jogaria para o oficial, a ponto de seduzi-lo e fazê-lo contar segredos militares importantes. Eu testaria na minha imaginação a força do seu apelo, do seu charme, dos seus dotes fatais. Eu testaria a minha capacidade de resistir a uma das mais famosas espiãs da Primeira Guerra Mundial.

Eu selecionaria tantos episódios que correria o risco de virar um consumidor blockbuster de história virtual, infinitas são as possibilidades, emaranhados e fatos ainda inescrutáveis do nosso passado.

Mas isso não seria nada se comparado à revolução que esses ingleses vão conseguir, no dia em que inventarem a história virtual do futuro. Você comprando o direito de visualizar, sem restrições, as suas ações, podendo modificá-las antes que aconteçam. Claro, você correria o risco de descobrir que não está lá, sinal de que seu filme, em algum momento, foi interrompido e que você, então, passou desta para melhor.     

                         

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