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Artigo
O intelectual como
metáfora
Por
Paulo Lima
Saber é poder. Essa
máxima saiu da boca de Michel Foucault, o celebrado filósofo francês
dos anos 80. Muita gente acreditou nela. Palpite infeliz. O século 20 foi
o século de teorias e idéias revolucionárias, mas nenhuma conquistou
exatamente o
poder. Donde, o saber e o poder andaram sempre por vias diferentes,
influenciando-se mutuamente, com pontos de tangência, mas sem estabelecer
uma união duradoura. Em última hipótese, os regimes políticos espezinharam o saber e a cultura.
Argumentos
há a mancheia. O poder nazista na Alemanha esteve em mãos de meia dúzia
de loucos genocidas que acreditaram estar criando uma nova civilização.
Intelectuais viviam em torno do poder, vendendo-lhe a alma. Heidegger
talvez tenha sido o exemplo máximo dessa simpatia àquela Alemanha. Mas o filósofo
nunca ostentou exatamente o cetro do poder. O que disse Goebbels, o
todo-poderoso ministro da propaganda? "Quando ouço falar de cultura,
saco o meu revólver".
Stalin
fez e desfez absoluto na velha Rússia, rodeado por assassinos como Béria,
seu lugar-tenente. Matou milhões de concidadãos, incluindo artistas e
intelectuais de gênio, quando não os mandava para uma temporada no
inferno, na Sibéria.
Pol
Pot, no Cambodja, exterminou todos os intelectuais em que consegui pôr as
mãos. Esforços de toda uma vida acabavam com um balaço na nuca e
enterrados como indigentes, em valas comuns.
Mesmo
experiências consideradas libertárias, como Maio de 68, na França,
jamais estiveram exatamente no poder. A "imaginação no poder" foi um belo
slogan – mas não passou disso, uma palavra de ordem.
A
América de Susan Sontag, recém-falecida, está nas mãos de Bush.
Intelectuais incomodam, mas não tomam o poder.
Talvez sequer possam influenciar as mentes, como acreditava-se que o faziam
em décadas passadas. O espírito crítico nos Estados Unidos é hoje
ocupado pela mente mediana, que o ensaísta Curtis White (A mente
mediana, aqui lançado pela W11) denominou como verdadeiras armas de
destruição em massa. Hoje a América, segundo Curtis, é ameaçada por
três inimigos: o mundo do entretenimento, a ortodoxia acadêmica e o
mundo político. (As observações sobre Curtis White foram baseadas no ótimo
artigo de Sergio Augusto, “Marias-vão-com-as-outras”, originalmente
publicado no Estadao).
Ao lado de pesos
pesados como Noam Chomsky e Norman Mailer, Susan Sontag foi a voz
dissidente dos valores americanos estabelecidos no pós-11 de setembro.
Foi a primeira intelectual a se rebelar em público contra a cruzada
anti-terror de Bush. Mas sua militância não se resume a isso. Da fotografia
(Sobre fotografia e Diante da dor dos outros) à Aids (A
doença como metáfora), meteu o bedelho em quase
todos os assuntos. Repetiu a façanha de alguns intelectuais do século
passado, saindo do casulo para ir direto pro front. Sartre conversava
com operários na porta das fábricas, em Paris. Simone Weil levou anos
trabalhando nas linhas de montagem da Renault, para mergulhar no universo
do operário francês. Susan Sontag, apesar da admiração por pensadores
europeus (ajudou a revelar alguns deles nos Estados Unidos, como Walter
Benjamin), não chegou a extremos. Mas passou décadas em Sarajevo, onde
chegou a montar a peça "Esperando Godot", do dramaturgo
irlandês Samuel Beckett.
A
saraivada de adjetivos a ela atribuídos ao longo da vida, segundo o
longo necrológio do New York Times publicado no dia seguinte à
sua morte,
mostra que Susan Sontag contrariou gregos e troianos, honrando, portanto,
o que há de mais caro num intelectual: a capacidade crítica
e a coragem de contrariar interesses.
Mas numa era dominada
pelo pensamento único, pelo politicamente correto, a força dos
intelectuais (do saber, como queria Foucault) talvez não passe de uma
simples metáfora. Mas talvez possam fazer ainda muito barulho.
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