Webjornal - Quinzenal  - Edição 72 - Aracaju, 02 a 30 de janeiro de 2005
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Artigo

O intelectual como metáfora

Por Paulo Lima

Saber é poder. Essa máxima saiu da boca de Michel Foucault, o celebrado filósofo francês dos anos 80. Muita gente acreditou nela. Palpite infeliz. O século 20 foi o século de teorias e idéias revolucionárias, mas nenhuma conquistou exatamente o poder. Donde, o saber e o poder andaram sempre por vias diferentes, influenciando-se mutuamente, com pontos de tangência, mas sem estabelecer uma união duradoura. Em última hipótese, os regimes políticos espezinharam o saber e a cultura. 

Argumentos há a mancheia. O poder nazista na Alemanha esteve em mãos de meia dúzia de loucos genocidas que acreditaram estar criando uma nova civilização. Intelectuais viviam em torno do poder, vendendo-lhe a alma. Heidegger talvez tenha sido o exemplo máximo dessa simpatia àquela Alemanha. Mas o filósofo nunca ostentou exatamente o cetro do poder. O que disse Goebbels, o todo-poderoso ministro da propaganda? "Quando ouço falar de cultura, saco o meu revólver".  

Stalin fez e desfez absoluto na velha Rússia, rodeado por assassinos como Béria, seu lugar-tenente. Matou milhões de concidadãos, incluindo artistas e intelectuais de gênio, quando não os mandava para uma temporada no inferno, na Sibéria. 

Pol Pot, no Cambodja, exterminou todos os intelectuais em que consegui pôr as mãos. Esforços de toda uma vida acabavam com um balaço na nuca e enterrados como indigentes, em valas comuns.

Mesmo experiências consideradas libertárias, como Maio de 68, na França, jamais estiveram exatamente no poder. A "imaginação no poder" foi um belo slogan – mas não passou  disso, uma palavra de ordem.

A América de Susan Sontag, recém-falecida, está nas mãos de Bush. Intelectuais  incomodam, mas não tomam o poder. Talvez sequer possam influenciar as mentes, como acreditava-se que o faziam em décadas passadas. O espírito crítico nos Estados Unidos é hoje ocupado pela mente mediana, que o ensaísta Curtis White (A mente mediana, aqui lançado pela W11) denominou como verdadeiras armas de destruição em massa. Hoje a América, segundo Curtis, é ameaçada por três inimigos: o mundo do entretenimento, a ortodoxia acadêmica e o mundo político. (As observações sobre Curtis White foram baseadas no ótimo artigo de Sergio Augusto, “Marias-vão-com-as-outras”, originalmente publicado no Estadao).

Ao lado de pesos pesados como Noam Chomsky e Norman Mailer, Susan Sontag foi a voz dissidente dos valores americanos estabelecidos no pós-11 de setembro. Foi a primeira intelectual a se rebelar em público contra a cruzada anti-terror de Bush. Mas sua militância não se resume a isso. Da fotografia (Sobre fotografia e Diante da dor dos outros) à Aids (A doença como metáfora), meteu o bedelho em quase todos os assuntos. Repetiu a façanha de alguns intelectuais do século passado, saindo do casulo para ir direto pro front. Sartre conversava com operários na porta das fábricas, em Paris. Simone Weil levou anos trabalhando nas linhas de montagem da Renault, para mergulhar no universo do operário francês. Susan Sontag, apesar da admiração por pensadores europeus (ajudou a revelar alguns deles nos Estados Unidos, como Walter Benjamin), não chegou a extremos. Mas passou décadas em Sarajevo, onde chegou a montar a peça "Esperando Godot", do dramaturgo irlandês Samuel Beckett.

A saraivada de adjetivos a ela atribuídos ao longo da vida, segundo o longo necrológio do New York Times publicado no dia seguinte à sua morte, mostra que Susan Sontag contrariou gregos e troianos, honrando, portanto, o que há de mais caro num intelectual: a capacidade crítica e a coragem de contrariar interesses. 

Mas numa era dominada pelo pensamento único, pelo politicamente correto, a força dos intelectuais (do saber, como queria Foucault) talvez não passe de uma simples metáfora. Mas talvez possam fazer ainda muito barulho.

                              

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