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Artigo
Chuteiras
redentoras
Por
Paulo Lima
O
seqüestro do empregado da Odebrecht João José de Vasconcellos Júnior insere o
Brasil num rol indesejado de países que já conta com o Japão, a França,
a Inglaterra, a Itália e a Turquia. Todos tiveram cidadãos seqüestrados
no Iraque. O refém inglês foi executado, apesar do pedido de clemência
de Tony Blair. O mesmo ocorreu com o caminhoneiro turco. Mas os
jornalistas franceses e as ativistas italianas foram liberados. Que lógica
rege as decisões do grupo de etnia sunita responsável pela ação do seqüestro?
O que acontecerá com o brasileiro?
As
etapas de negociação pela via diplomática têm sido mantidas sob
sigilo, mas já se sabe que a salvação do brasileiro pode vir pelo prestígio
do nosso futebol. Uma vez mais, as chuteiras poderão ser a glória e a
redenção do Brasil. As chuteiras de Ronaldo Fenômeno.
Não
se tem conhecimento de que a Inglaterra requisitou a popularidade de
Beckham para pedir pela vida do cidadão inglês. Nem que Zidane tenha saído
em auxílio dos jornalistas franceses. Ou que algum outro craque da azurra
tenha dirigido um apelo aos seqüestradores.
OK.
Nenhum desses países tem um futebol com a galeria de craques tão
populares mundo afora como o Brasil. Sabe-se que Pelé já salvou a vida
de muitos brasileiros em apuros por aí. A simples menção de que a vítima
era da pátria do Rei foi suficiente para um sursis de última hora.
Claro,
vale tudo para salvar a vida de João. Isso é inquestionável. A sua família
precisa de toda a solidariedade neste momento. Mas no Brasil o futebol é
sempre eleito como o trunfo que temos na manga para causar impressão lá
fora. Seja em situações de tragédia, como essa do Iraque, seja em
momentos de inflado ufanismo.
Já
não deveríamos ter dado um passo adiante? Terra do futebol, do sol e do
Carnaval. Como uma maldição faraônica, o rótulo nos persegue.
Dos
três jogadores consultados, Ronaldo Fenômeno foi o único a aceitar
imediatamente o envio de mensagem aos terroristas. Será um ótimo negócio
para o seu marketing pessoal. Ronaldinho Gaúcho não respondeu. E Pelé
foi objetivo: não quer se envolver no assunto, pois acredita que a solução
deve ser tentada pela via diplomática. Corre o risco de ser apedrejado,
caso a cabeça de João role em solo iraquiano.
Curiosamente,
Pelé e o tri-campeonato de futebol no México foram usados pelos
militares, para propaganda do regime. Pelé deve ter aprendido a lição.
Futebol
é um negócio irracional e sem importância. Aponte um único benefício
desse esporte para a civilização, nas últimas décadas. Além de ter
criado algumas fortunas pessoais, tem servido de instrumento para o exercício
dos baixos instintos de hordas inteiras de torcedores, aqui e em outros países.
Os hooligans são o exemplo mais acabado desse fanatismo.
Cheguei
na palavra. Fanatismo. Combater o fanatismo do terror com o fanatismo do
futebol é como chegar a um jogo de soma zero. Mas, para o governo Lula,
apostar nos estereótipos da cultura é acreditar que residem aí os
nossos termos favoráveis de intercâmbio. Apostar naquilo que temos e
sabemos fazer melhor.
Nesse capítulo em
que uma vez mais política e futebol se entrelaçam, o apelo da pátria de
chuteiras salvará a vida de João? Salvará também o Brasil da corrupção,
da sanha do grande capital internacional? Ou será João salvo pela
negociação diplomática? Aguarde os próximos capítulos.
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