Webjornal - Quinzenal  - Edição 73 - Aracaju,  30 de janeiro a 13 de fevereiro de 2005
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Artigo

Chuteiras redentoras

Por Paulo Lima

O seqüestro do empregado da Odebrecht João José de Vasconcellos Júnior insere o Brasil num rol indesejado de países que já conta com o Japão, a França, a Inglaterra, a Itália e a Turquia. Todos tiveram cidadãos seqüestrados no Iraque. O refém inglês foi executado, apesar do pedido de clemência de Tony Blair. O mesmo ocorreu com o caminhoneiro turco. Mas os jornalistas franceses e as ativistas italianas foram liberados. Que lógica rege as decisões do grupo de etnia sunita responsável pela ação do seqüestro? O que acontecerá com o brasileiro?

As etapas de negociação pela via diplomática têm sido mantidas sob sigilo, mas já se sabe que a salvação do brasileiro pode vir pelo prestígio do nosso futebol. Uma vez mais, as chuteiras poderão ser a glória e a redenção do Brasil. As chuteiras de Ronaldo Fenômeno.

Não se tem conhecimento de que a Inglaterra requisitou a popularidade de Beckham para pedir pela vida do cidadão inglês. Nem que Zidane tenha saído em auxílio dos jornalistas franceses. Ou que algum outro craque da azurra tenha dirigido um apelo aos seqüestradores.

OK. Nenhum desses países tem um futebol com a galeria de craques tão populares mundo afora como o Brasil. Sabe-se que Pelé já salvou a vida de muitos brasileiros em apuros por aí. A simples menção de que a vítima era da pátria do Rei foi suficiente para um sursis de última hora.

Claro, vale tudo para salvar a vida de João. Isso é inquestionável. A sua família precisa de toda a solidariedade neste momento. Mas no Brasil o futebol é sempre eleito como o trunfo que temos na manga para causar impressão lá fora. Seja em situações de tragédia, como essa do Iraque, seja em momentos de inflado ufanismo.

Já não deveríamos ter dado um passo adiante? Terra do futebol, do sol e do Carnaval. Como uma maldição faraônica, o rótulo nos persegue.

Dos três jogadores consultados, Ronaldo Fenômeno foi o único a aceitar imediatamente o envio de mensagem aos terroristas. Será um ótimo negócio para o seu marketing pessoal. Ronaldinho Gaúcho não respondeu. E Pelé foi objetivo: não quer se envolver no assunto, pois acredita que a solução deve ser tentada pela via diplomática. Corre o risco de ser apedrejado, caso a cabeça de João role em solo iraquiano.

Curiosamente, Pelé e o tri-campeonato de futebol no México foram usados pelos militares, para propaganda do regime. Pelé deve ter aprendido a lição.

Futebol é um negócio irracional e sem importância. Aponte um único benefício desse esporte para a civilização, nas últimas décadas. Além de ter criado algumas fortunas pessoais, tem servido de instrumento para o exercício dos baixos instintos de hordas inteiras de torcedores, aqui e em outros países. Os hooligans são o exemplo mais acabado desse fanatismo.

Cheguei na palavra. Fanatismo. Combater o fanatismo do terror com o fanatismo do futebol é como chegar a um jogo de soma zero. Mas, para o governo Lula, apostar nos estereótipos da cultura é acreditar que residem aí os nossos termos favoráveis de intercâmbio. Apostar naquilo que temos e sabemos fazer melhor.

Nesse capítulo em que uma vez mais política e futebol se entrelaçam, o apelo da pátria de chuteiras salvará a vida de João? Salvará também o Brasil da corrupção, da sanha do grande capital internacional? Ou será João salvo pela negociação diplomática? Aguarde os próximos capítulos.

                              

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