|
Artigo
Coisas da Bahia e
do Brasil
Por
Paulo Lima
Três
situações vividas por este escrivinhador em Salvador, durante visita
recente,
mostram que alguns problemas do País, de tão candentes, estão presentes
até mesmo numa simples conversa. O taxista que me leva até o hotel fala
sem parar no celular. Terminada a conversa, ele desliga e me conta o enredo do
problema que tanto o estava aborrecendo.
Um
dia, altas horas da noite, pegou uma cliente na estação rodoviária de
Salvador. A moça vinha do interior e só podia pagar a corrida com
cheque. O taxista concordou. O cheque voltou sem fundos.
O
meu interlocutor, o que fez? Trocou o cheque com um amigo. E agora a moça
que o emitiu queria resolver a parada. Era ela quem conversava com o
taxista, enquanto ele me conduzia para o centro de Salvador.
A
moça havia feito uma proposta, digamos, indecente para o taxista. Ele
pegaria o cheque com o amigo e o levaria para a emitente. Ela pagaria
então a dívida. Pela intermediação, o taxista receberia R$ 1. Numa
cidade com distâncias consideráveis como Salvador, a oferta sequer
pagaria a despesa do combustível.
O
taxista jogou a toalha e pediu que ela mesma fosse resolver a questão com
o atual dono do cheque. Terminada a história, o taxista me explica que
receber pagamento de corridas com cheque é proibido, mas quis ajudar a
moça. Agora, recebia o troco imerecido. Confidenciou-me que o amigo, que
detinha o cheque da moça, havia sugerido:
-
Cobre dela R$ 50 para entregar de volta o cheque.
Uma
proposta indecorosa, é claro, já que o valor do cheque é de R$ 14,00.
Eu mal pude acreditar. Toda essa confusão por causa de uma ninharia. E a moça,
disse-me o taxista, é funcionária pública, da Polícia.
Nesse
imbróglio do cheque, o senhor do táxi ainda informa: postos de gasolina
costumam fazer as vezes de banco e descontam cheques, mas aí cobram uma
taxa. E só o fazem para taxistas conhecidos.
Vida
dura, seu José!
Violência
e TV
Estou
almoçando no shopping Piedade, centro de Salvador. Um músico executa
alguns hits suaves ao saxofone. Nenhuma mesa vazia. Peço licença e sento ao lado de uma
senhora. Traçamos nossas refeições em silêncio. A horas tantas uma
mulher,
sentada ao lado, puxa conversa com a minha acompanhante. São amigas. Discutem a onda
de violência em Salvador e garantem: vai ficar pior do que no Rio.
Ouço
a conversa. Curiosidade despertada, quero saber porque em Salvador a barra
vai pesar mais.
A
amiga da minha companheira de mesa explica. No Rio as pessoas têm mais
educação, estudam mais, lêem mais... Em Salvador, não. Ninguém quer
estudar, aprender. O menino cresce vendo as coisas violentas da TV.
Está
vendo só, Willian Bonner?
Viver
é perigoso
Saio
à noite de um compromisso na Cidade Baixa. Chamo um táxi, digo o
itinerário. O condutor me pergunta se tenho preferência por algum
trajeto. Como não conheço a cidade, respondo:
-
O mais curto.
Seguimos
viagem. O
carro atravessa umas vielas esquisitas. Lembro-me dumas
matérias que havia lido em A Tarde chamando a atenção para o
crescente número de roubos de turistas nos pontos mais visitados, como o
Pelourinho. O jornal estaria certo? Tiro a dúvida com o taxista. O homem
fica em silêncio por alguns minutos. Deduzo que, por causa do barulho do
carro, não ouviu a minha pergunta.
Subitamente
ele se volta e, apontando um caroço na testa, indaga, com uma ponta de
exasperação:
-
Está vendo isso aqui!
Sim,
eu via. Um sinal que fazia lembrar a protuberância que o guru Thomas
Green Morton costuma carregar no mesmo local do corpo.
-
Foi um acidente doméstico. Eu precisei pegar uma pasta com documentos,
que estava no alto de um guarda-roupa. A pasta veio direto na minha testa.
O sangue jorrou. Fui pro hospital.
O
incidente ensinou ao taxista-filósofo que qualquer lugar é perigoso,
até mesmo a nossa casa, aparentemente tão segura. Era o que ele queria
que eu soubesse.
Lembrei-me
que um caso fortuito impôs o mesmo aprendizado a Guimarães Rosa.
Assaltado numa rua do Rio do Janeiro, ele sentenciou: - Viver é perigoso.
Anotei
a lição. Prometo estudá-la.
|