Webjornal - Quinzenal  - Edição 75 - Aracaju,  27 de fevereiro a 20 de março  de 2005
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Artigo

Coisas da Bahia e do Brasil

Por Paulo Lima

Três situações vividas por este escrivinhador em Salvador, durante visita recente, mostram que alguns problemas do País, de tão candentes, estão presentes até mesmo numa simples conversa. O taxista que me leva até o hotel fala sem parar no celular. Terminada a conversa, ele desliga e me conta o enredo do problema que tanto o estava aborrecendo.

Um dia, altas horas da noite, pegou uma cliente na estação rodoviária de Salvador. A moça vinha do interior e só podia pagar a corrida com cheque. O taxista concordou. O cheque voltou sem fundos.

O meu interlocutor, o que fez? Trocou o cheque com um amigo. E agora a moça que o emitiu queria resolver a parada. Era ela quem conversava com o taxista, enquanto ele me conduzia para o centro de Salvador.

A moça havia feito uma proposta, digamos, indecente para o taxista. Ele pegaria o cheque com o amigo e o levaria para a emitente. Ela pagaria então a dívida. Pela intermediação, o taxista receberia R$ 1. Numa cidade com distâncias consideráveis como Salvador, a oferta sequer pagaria a despesa do combustível.

O taxista jogou a toalha e pediu que ela mesma fosse resolver a questão com o atual dono do cheque. Terminada a história, o taxista me explica que receber pagamento de corridas com cheque é proibido, mas quis ajudar a moça. Agora, recebia o troco imerecido. Confidenciou-me que o amigo, que detinha o cheque da moça, havia sugerido: 

- Cobre dela R$ 50 para entregar de volta o cheque.

Uma proposta indecorosa, é claro, já que o valor do cheque é de R$ 14,00. Eu mal pude acreditar. Toda essa confusão por causa de uma ninharia. E a moça, disse-me o taxista, é funcionária pública, da Polícia.

Nesse imbróglio do cheque, o senhor do táxi ainda informa: postos de gasolina costumam fazer as vezes de banco e descontam cheques, mas aí cobram uma taxa. E só o fazem para taxistas conhecidos. 

Vida dura, seu José!

Violência e TV

Estou almoçando no shopping Piedade, centro de Salvador. Um músico executa alguns hits suaves ao saxofone. Nenhuma mesa vazia. Peço licença e sento ao lado de uma senhora. Traçamos nossas refeições em silêncio. A horas tantas uma mulher, sentada ao lado, puxa conversa com a minha acompanhante. São amigas. Discutem a onda de violência em Salvador e garantem: vai ficar pior do que no Rio. 

Ouço a conversa. Curiosidade despertada, quero saber porque em Salvador a barra vai pesar mais.

A amiga da minha companheira de mesa explica. No Rio as pessoas têm mais educação, estudam mais, lêem mais... Em Salvador, não. Ninguém quer estudar, aprender. O menino cresce vendo as coisas violentas da TV.

Está vendo só, Willian Bonner?

Viver é perigoso

Saio à noite de um compromisso na Cidade Baixa. Chamo um táxi, digo o itinerário. O condutor me pergunta se tenho preferência por algum trajeto. Como não conheço a cidade, respondo: 

- O mais curto.

Seguimos viagem. O carro atravessa umas vielas esquisitas. Lembro-me dumas matérias que havia lido em A Tarde chamando a atenção para o crescente número de roubos de turistas nos pontos mais visitados, como o Pelourinho. O jornal estaria certo? Tiro a dúvida com o taxista. O homem fica em silêncio por alguns minutos. Deduzo que, por causa do barulho do carro, não ouviu a minha pergunta.

Subitamente ele se volta e, apontando um caroço na testa, indaga, com uma ponta de exasperação:

- Está vendo isso aqui!

Sim, eu via. Um sinal que fazia lembrar a protuberância que o guru Thomas Green Morton costuma carregar no mesmo local do corpo. 

- Foi um acidente doméstico. Eu precisei pegar uma pasta com documentos, que estava no alto de um guarda-roupa. A pasta veio direto na minha testa. O sangue jorrou. Fui pro hospital.

O incidente ensinou ao taxista-filósofo que qualquer lugar é perigoso, até mesmo a nossa casa, aparentemente tão segura. Era o que ele queria que eu soubesse.

Lembrei-me que um caso fortuito impôs o mesmo aprendizado a Guimarães Rosa. Assaltado numa rua do Rio do Janeiro, ele sentenciou: - Viver é perigoso.

Anotei a lição. Prometo estudá-la.   

                              

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