Webjornal - Quinzenal  - Edição 77 - Aracaju,  24 de abril a 22 de maio de 2005
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Artigo

No tempo dos festivais

Por Paulo Lima

Arrematei por uma ninharia um CD com uma coletânea de músicas de festivais. Trata-se de um tesouro, se você não levar em conta os modismos e as imposturas do Deus mercado fonográfico.

Mais do que o retrato de uma época, o disquinho traz verdadeiras gemas que você não vai - definitivamente - ouvir na FM da esquina. O mix de estilos e peformances é irretocável, se você não foi definitivamente acometido de surdez causada pelo bate-estaca do hit parade.

Começo a minha observação das faixas ao acaso, deixo o shuffle da memória  buscar o que ouvi e gostaria de comentar.

Let me sing, let me sing é um irreverente rock-baião que só a porralouquice de Raul Seixas poderia conceber. Mandando às favas a questão do pertencimento, da raiz e da identidade ("raíz só conheço de macaxeira", disse Raulzito certa feita), ele brinca com as possibilidades sonoras gestadas numa América eternamente marcada pelo wop-bop-a-lula de Elvis Presley. Mas, como um alquimista, não resiste e mete sanfona e triângulo na história. Dançante, pulsante, meditativo, suingante e o escambáu.

O bíblico, apostólico, doutrinário, ideológico, messiânico Geraldo Vandré não poderia ficar de fora. A gravação de Pra não dizer que não falei das flores foi pinçada da apresentação ao vivo que o pastor da estudantada-68 fez no festival da canção do Rio em 69. Ouve-se a reprimenda moralista que Vandré passa na estridente platéia. Uuuuuuuuuuuuuuuuu. O maracanazinho estremece sob a resposta das vaias apoteóticas. Mas que no final se rendem aos acordes paralisantes do "caminhando e cantando e aprendendo a lição...".

Ponteio, Disparada, A estrada e o violeiro: meto na mesma cumbuca as músicas cantadas por, respectivamente, Edu Lobo, Jair Rodrigues e Nara Leão & Sidney Miller porque me parecem simbolizar a tal da busca da identidade nacional, quélas coisas que a tal da esquerda engajada se pautava por.

Mas os ecos de Woodstock também estão lá: lá em Caminhante noturno, dos Mutantes, Flor lilás, de Luli & Lucinha e em Divino maravilhoso, cantada por Gal Costa. Riffs de guitarras, tonalidades lisérgicas, paz & amor, cabelos longos, desrepressão, Reich & Marcuse contidos no mesmo acorde.

Elis Regina, dramática sempre, canta o Arrastão, mas nada a ver com o espetáculo de terra-arrasada que a marginália carioca passou a promover dos 80 para cá. Um pouco mais acima no menu das faixas do CD, o MPB-4 enaltece Gabriela em ritmo de frevo-levanta-defunto. Belezura de peça com fraseados sincopados, quase atonais: Ricife, Capiba e o dodecafonismo no mesmo passo, no mesmo compasso.

Caetano & Gil, novos velhos baianos, fermatas (sorry para quem não conhece os símbolos musicais) da cena cultural brasileira, percevejos grudados no sangue de reiteradas gerações, dizem presente - ou amém, ou axé - no CD com Alegria, alegria e Domingo no parque. Ê, José.  

E tem mais, muito mais espalhado pelas vinte faixas do CD. Biscoito fino, coisa pra paladar que ainda não se contaminou pelos fast-grudes das bill-boards tupiniquins. Melhor, mil vezes melhor, um milhão de vezes melhor e mais educativo musicalmente do que se deixar empanturrar com o praticumbum da sanha pagodeira, do lamento-jeca dos sertanejos, do angú-sem-caroço da música pra pular baiana. Esconjuro. 

                                 

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