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Artigo
No tempo dos
festivais
Por
Paulo Lima
Arrematei por uma ninharia um CD com uma coletânea de
músicas de festivais. Trata-se de um tesouro, se você não levar em conta
os modismos e as imposturas do Deus mercado fonográfico.
Mais do que o retrato de
uma época, o disquinho traz verdadeiras gemas que
você não vai - definitivamente - ouvir na FM da esquina. O mix de estilos
e peformances é irretocável, se você não foi definitivamente acometido de
surdez causada pelo bate-estaca do hit parade.
Começo a minha
observação das faixas ao acaso, deixo o shuffle da memória
buscar o que ouvi e gostaria de comentar.
Let me sing,
let me sing é um irreverente rock-baião que só a porralouquice de Raul
Seixas poderia conceber. Mandando às favas a questão do pertencimento, da
raiz e da identidade ("raíz só conheço de macaxeira", disse Raulzito certa
feita), ele brinca com as possibilidades sonoras gestadas numa América
eternamente marcada pelo wop-bop-a-lula de Elvis Presley. Mas, como um
alquimista, não resiste e mete sanfona e triângulo na história. Dançante,
pulsante, meditativo, suingante e o escambáu.
O bíblico, apostólico,
doutrinário, ideológico, messiânico Geraldo Vandré não poderia ficar de
fora. A gravação de Pra não dizer que não falei das flores foi
pinçada da apresentação ao vivo que o pastor da estudantada-68 fez no
festival da canção do Rio em 69. Ouve-se a reprimenda moralista que Vandré
passa na estridente platéia. Uuuuuuuuuuuuuuuuu. O maracanazinho estremece sob
a resposta das vaias apoteóticas. Mas que no final se rendem aos acordes
paralisantes do "caminhando e cantando e aprendendo a lição...".
Ponteio,
Disparada, A estrada e o violeiro: meto na mesma cumbuca as
músicas cantadas por, respectivamente, Edu Lobo, Jair Rodrigues e Nara
Leão & Sidney Miller porque me parecem simbolizar a tal da busca da
identidade nacional, quélas coisas que a tal da esquerda engajada se pautava
por.
Mas os ecos de Woodstock
também estão lá: lá em Caminhante noturno, dos Mutantes, Flor
lilás, de Luli & Lucinha e em Divino maravilhoso, cantada por
Gal Costa. Riffs de guitarras, tonalidades lisérgicas, paz & amor,
cabelos longos, desrepressão, Reich & Marcuse contidos no mesmo acorde.
Elis Regina, dramática
sempre, canta o Arrastão, mas nada a ver com o espetáculo de
terra-arrasada que a marginália carioca passou a promover dos 80 para cá.
Um pouco mais acima no menu das faixas do CD, o MPB-4 enaltece Gabriela
em ritmo de frevo-levanta-defunto. Belezura de peça com fraseados
sincopados, quase atonais: Ricife, Capiba e o dodecafonismo no mesmo
passo, no mesmo compasso.
Caetano & Gil, novos
velhos baianos, fermatas (sorry para quem não conhece os símbolos musicais)
da cena cultural brasileira, percevejos grudados no sangue de reiteradas
gerações, dizem presente - ou amém, ou axé - no CD com Alegria, alegria
e Domingo no parque. Ê, José.
E tem mais, muito mais
espalhado pelas vinte faixas do CD. Biscoito fino, coisa pra paladar que
ainda não se contaminou pelos fast-grudes das bill-boards tupiniquins.
Melhor, mil vezes melhor, um milhão de vezes melhor e mais educativo
musicalmente do que se deixar empanturrar com o praticumbum da sanha
pagodeira, do lamento-jeca dos sertanejos, do angú-sem-caroço da música
pra pular baiana. Esconjuro.
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