Webjornal - Quinzenal  - Edição 79 - Aracaju,  19 de junho a 17 de julho  de 2005
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Artigo

O mau exemplo inglês

Por Paulo Lima

Biblioteca de universidade se desfaz de livros raros. A notícia parece deslocada no tempo e espaço, já que se refere a uma heresia que está acontecendo na Inglaterra, pátria de Shakespeare, Virginia Woolf, Evelyn Waugh e outros pesos pesados da literatura. Mas é tudo verdade. Em processo de renovação, a biblioteca da Universidade de Londres está se livrando de seu acervo de livros raros. A informação está na edição de 18 de junho do The Guardian.

Jogar livros fora, queimá-los ou deixá-los simplesmente perecer não seria parte de um mesmo processo? O de desprezar a cultura e a herança do conhecimento humano?

No Brasil, o processo ocorreria talvez em silêncio, uma vez que abandonar acervos de livros à sanha roedora das traças e ratos já faz parte da história de nossas bibliotecas e arquivos públicos. Lógico, exceções há, mas que só confirmam a regra.

"Há livros que datam do século 18”, protestou um empregado da biblioteca. “Há livros em sua primeira edição, cópias de Voltaire”, disse. Um professor, observando os livros jogados desprezados, registrou um protesto: “Isto é um sacrilégio. Olhem só para todos estes livros sendo jogados fora, sem qualquer consciência. É um escândalo”. Um outro, que preferiu ficar anônimo, disse que achou um exemplar estimado em 80 libras – algo aí como 240 reais. “Isto é um horror”, disse ele. “Eles ao menos deveriam avisar às pessoas o que planejam fazer”.

A administração da biblioteca se defende argumentando que são livros que, nos últimos 30 anos, jamais foram levados por um leitor. Pobres livros. Seu processo de ostracismo não difere muito do que ocorre com as pessoas. Depois de um vão de tempo sem demonstrar utilidade, são descartadas, como trastes velhos.

Enquanto isso, os livros vão se decompondo sob a ação da natureza, do lado de fora da biblioteca. Com um mínimo de bom senso – dizem alguns críticos do bota-fora –, centenas de sebos poderiam ter sido procurados para comprar o acervo rejeitado.

Não faltam comparações ao ato de desatenção da administração da biblioteca. Gente como Tim Coates, editor e autor, acredita que “jogar livros fora só porque está havendo uma renovação, é como mudar de casa e não levar junto a própria família”.

Boa comparação. Livros, para quem lhes tem apreço, não deixam de ser filhos adorados. Mas esse é um zelo, infelizmente, em declínio. Segundo Tim Coates, se desfazer de livros raros não é privilégio da Universidade de Londres. Semelhante ação tem sido praticada em bibliotecas públicas de Brighton, Liverpool e Hampshire. Com cerca de 300 bibliotecas públicas em Londres, a solução bem que poderia ser um intercâmbio entre elas, para ver quem teria condições de abrigar o excedente.

Descartar, contudo, parece ser o caminho mais fácil. Jonhatan Swift, Shakeaspeare e toda uma rara confraria de escritores que aquela velha ilha foi capaz de produzir deve estar dando voltas no túmulo.

                                

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