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Artigo
O PT e a sombra
Por
Paulo Lima
Agora
que a nau petista está fazendo água por todos os lados, procura-se o culpado pelo iminente naufrágio. Tarefa árdua para um partido que jamais
abriu um parêntese, por mínimo que fosse, para admitir um mea-culpa, um
desvio de rota, um tropeço, um “erramos”. Pode-se imaginar, então, o
esforço olímpico que aguarda Tarso Genro, após o acelerado desmonte
imposto ao PT pelas denúncias de corrupção.
A
esta altura do campeonato, quando as denúncias de Roberto Jefferson
começam a se materializar em registros bancários, há uma tendência do
partido em admitir a sua impureza, porém atribuindo os males do organismo
partidário somente aos componentes de um núcleo desonesto que teria
usurpado os sagrados mandamentos da agremiação – José Dirceu, Delúbio
Soares e Silvio Pereira -, embora sem serem formalmente punidos pelo
mau passo.
Se
a doença, de tão letal, atingiu outras partes do corpo petista, ainda se
saberá, mas não é tentando extirpar o seu lado necrosado que o partido
reconquistará o imaginário da sua apaixonada militância.
Em
sua análise da alma humana, o psicanalista suíço Carl Jung reivindicava a
existência de um lado sombra da personalidade, que todos teríamos. Segundo
Jung, a saúde psíquica consistia em, uma vez identificado esse lado
obscuro, aceitá-lo como parte da nossa totalidade. Seríamos mais fortes à
medida que fôssemos capazes de levar em conta esses movimentos pendulares,
compreendendo-os e deles sairmos mais fortalecidos num ser integrado. Sem
maniqueísmos, sem ideais de pureza, sem racionalizações.
Pois essa negação que o PT faz das suas sombras só fortalece as suas
fraquezas enquanto instituição partidária, a mesma que um dia teve um
sentido revolucionário num país secularmente dominado pela sanha das
elites, dos interesses corporativos, cartoriais, familiares, de grupos,
grupelhos, igrejas, corporações e tudo o mais que conspira contra a
democracia como verdadeiro valor universal.
Quem sabe os esboços de autocrítica que Tarso Genro tem procurado vender
à sociedade sejam o início de uma guinada em direção a uma mudança radical
(sem trocadilhos) e salutar do PT. Afinal, como acredita a psicanálise,
admitir a doença já é um primeiro passo para a cura.
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