Webjornal - Quinzenal  - Edição 80 - Aracaju,  17 de julho a 14 de agosto  de 2005
_________________________________________________________________________________________

Artigo

O PT e a sombra

Por Paulo Lima

Agora que a nau petista está fazendo água por todos os lados, procura-se o culpado pelo iminente naufrágio. Tarefa árdua para um partido que jamais abriu um parêntese, por mínimo que fosse, para admitir um mea-culpa, um desvio de rota, um tropeço, um “erramos”. Pode-se imaginar, então, o esforço olímpico que aguarda  Tarso Genro, após o acelerado desmonte imposto ao PT pelas denúncias de corrupção.

A esta altura do campeonato, quando as denúncias de Roberto Jefferson começam a se materializar em registros bancários, há uma tendência do partido em admitir a sua impureza, porém atribuindo os males do organismo partidário somente aos componentes de um núcleo desonesto que teria usurpado os sagrados mandamentos da agremiação – José Dirceu, Delúbio Soares e Silvio Pereira -, embora sem serem formalmente punidos pelo mau passo.

Se a doença, de tão letal, atingiu outras partes do corpo petista, ainda se saberá, mas não é tentando extirpar o seu lado necrosado que o partido reconquistará o imaginário da sua apaixonada militância.

Em sua análise da alma humana, o psicanalista suíço Carl Jung reivindicava a existência de um lado sombra da personalidade, que todos teríamos. Segundo Jung, a saúde psíquica consistia em, uma vez identificado esse lado obscuro, aceitá-lo como parte da nossa totalidade. Seríamos mais fortes à medida que fôssemos capazes de levar em conta esses movimentos pendulares, compreendendo-os e deles sairmos mais fortalecidos num ser integrado. Sem maniqueísmos, sem ideais de pureza, sem racionalizações.

Pois essa negação que o PT faz das suas sombras só fortalece as suas fraquezas enquanto instituição partidária, a mesma que um dia teve um sentido revolucionário num país secularmente dominado pela sanha das elites, dos interesses corporativos, cartoriais, familiares, de grupos, grupelhos, igrejas, corporações e tudo o mais que conspira contra a democracia como verdadeiro valor universal.

Quem sabe os esboços de autocrítica que Tarso Genro tem procurado vender à sociedade sejam o início de uma guinada em direção a uma mudança radical (sem trocadilhos) e salutar do PT.  Afinal, como acredita a psicanálise, admitir a doença já é um primeiro passo para a cura.

                                

(c) Todos os Direitos Reservados