Webjornal - Quinzenal  - Edição 81 - Aracaju, 14 de agosto a 11 de setembro  de 2005
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Artigo

Moral em linha reta

Por Paulo Lima

Coube ao Brasil provocar em Jean Paul Sartre um momento de absurdo digno das elucubrações do filósofo existencialista. Flanava Sartre em Brasília ao lado da sua inseparável Simone Beauvoir, nos anos 60, quando precisou tomar um táxi. O motorista era um policial que usava o táxi como bico para engrossar o soldo familiar. Lá pelas tantas, pára o carro e avisa que vai fazer uma entrega rápida, deixando o casal ilustre esperando. E boquiaberto. A encomenda não passava de contrabando.

Taxista, policial e contrabandista. Mais do que uma tríplice maneira de ganhar a vida, uma tríplice moral. A cabeça de Sartre, treinada para lidar com o contraditório e os enigmas do pensamento, não compreendeu patavina. Como alguém poderia servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo? Ao Bem e ao Mal? Alguma coisa devemos ter ensinado ao pai do Existencialismo, ele que tanto nos ensinou sobre o livre arbítrio e sobre a liberdade.

Essa história tinha que acontecer em Brasília, palco de memoráveis pugilatos morais, como esses que estamos a ver nos dias que correm. Sartre precisava saber que no Brasil esse negócio de moral não funciona em linha reta: aqui não temos o Bem de um lado e o Mal do outro. Aqui as fronteiras se tangenciam, se entrecruzam e podem ou não se afastar no horizonte distante. Tudo depende dos ventos, das circunstâncias e das recompen$as. Sobretudo na política. Nunca Comissões Parlamentares de Inquéritos revelaram tanto sobre a cara de pau de políticos e personagens do establishment quanto a dos Correios e, pari passu, a do Mensalão. Morais dúbias, sibilinas, escorregadias, camaleônicas.

No seu depoimento à CPI dos Correios, Duda Mendonça incorreu nesse tipo de moral ambivalente. Primeiro admitiu ter errado. Caiu, sim, em tentação. Mas notem bem: foi um deslize "fiscal". Na dúvida se seria pago algum dia por seus serviços, abocanhou a primeira oportunidade que apareceu. Por ter utilizado o expediente da sinceridade a uma platéia de parlamentares cansada de tergiversações, Duda conquistou pontos a seu favor. Mas no fundo incorporou o velho ditado das ruas: se a farinha está pouca, vou tratar de salvar o meu primeiro.

Afirma Duda que a decisão foi dolorosa. Mas ao fim ele sucumbiu ao poder do vil metal. Haverá neste caso como separar as duas morais, como se fossem dois pesos e duas medidas a pesar em diferentes balanças? De um lado, o Duda "fiscal", culpado até prova em contrário por ter posto a mão numa grana indevida. De outro, o Duda moral, limpo, imaculado. Mas estas coisas não vêm imbricadas? Se o publicitário foi pego pelo dinheiro, não estaria em jogo toda uma hierarquia de valores? Se prevalecer o estilo Duda Mendonça de separar o joio do trigo, estará aberto o precedente da relativização moral. Haverá a culpa "fiscal", "monetária", "orçamentária", instituída como uma modalidade autônoma, independente, girando em sua órbita própria e isolada de tudo o mais.

O Bem e o Mal? O Céu e o Inferno? O Certo e o Errado? Ora, danem-se todas as categorias, deletem-se todas as regras. Em termos de questões morais, serei eu e as minhas circunstâncias, como advertiu outro filósofo. E dentre elas as tentações fiscais.      

                                

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