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Artigo
Moral em linha
reta
Por
Paulo Lima
Coube ao Brasil provocar em Jean Paul Sartre um momento de absurdo
digno das elucubrações do filósofo existencialista. Flanava Sartre em
Brasília ao lado da sua inseparável Simone Beauvoir, nos anos 60, quando
precisou tomar um táxi. O motorista era um policial que usava o táxi como
bico para engrossar o soldo familiar. Lá pelas tantas, pára o carro e
avisa que vai fazer uma entrega rápida, deixando o casal ilustre
esperando. E boquiaberto. A encomenda não passava de contrabando.
Taxista, policial e contrabandista. Mais do que uma tríplice maneira de
ganhar a vida, uma tríplice moral. A cabeça de Sartre, treinada para lidar
com o contraditório e os enigmas do pensamento, não compreendeu patavina.
Como alguém poderia servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo? Ao Bem e ao
Mal? Alguma coisa devemos ter ensinado ao pai do Existencialismo, ele que
tanto nos ensinou sobre o livre arbítrio e sobre a liberdade.
Essa história tinha que acontecer em Brasília, palco de memoráveis
pugilatos morais, como esses que estamos a ver nos dias que correm. Sartre
precisava saber que no Brasil esse negócio de moral não funciona em linha
reta: aqui não temos o Bem de um lado e o Mal do outro. Aqui as fronteiras
se tangenciam, se entrecruzam e podem ou não se afastar no horizonte
distante. Tudo depende dos ventos, das circunstâncias e das recompen$as.
Sobretudo na política. Nunca Comissões Parlamentares de Inquéritos
revelaram tanto sobre a cara de pau de políticos e personagens do
establishment quanto a dos Correios e, pari passu, a do Mensalão. Morais
dúbias, sibilinas, escorregadias, camaleônicas.
No
seu depoimento à CPI dos Correios, Duda Mendonça incorreu nesse tipo de
moral ambivalente. Primeiro admitiu ter errado. Caiu, sim, em tentação.
Mas notem bem: foi um deslize "fiscal". Na dúvida se seria pago algum dia
por seus serviços, abocanhou a primeira oportunidade que apareceu. Por ter
utilizado o expediente da sinceridade a uma platéia de parlamentares
cansada de tergiversações, Duda conquistou pontos a seu favor. Mas no
fundo incorporou o velho ditado das ruas: se a farinha está pouca, vou
tratar de salvar o meu primeiro.
Afirma Duda que a decisão foi dolorosa. Mas ao fim ele sucumbiu ao poder
do vil metal. Haverá neste caso como separar as duas morais, como se
fossem dois pesos e duas medidas a pesar em diferentes balanças? De um
lado, o Duda "fiscal", culpado até prova em contrário por ter posto a mão
numa grana indevida. De outro, o Duda moral, limpo, imaculado. Mas estas
coisas não vêm imbricadas? Se o publicitário foi pego pelo dinheiro, não
estaria em jogo toda uma hierarquia de valores? Se prevalecer o estilo
Duda Mendonça de separar o joio do trigo, estará aberto o precedente
da relativização moral. Haverá a culpa "fiscal", "monetária", "orçamentária",
instituída como uma modalidade autônoma, independente, girando em sua
órbita própria e isolada de tudo o mais.
O
Bem e o Mal? O Céu e o Inferno? O Certo e o Errado? Ora, danem-se todas as
categorias, deletem-se todas as regras. Em termos de questões morais,
serei eu e as minhas circunstâncias, como advertiu outro filósofo. E
dentre elas as tentações fiscais.
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