Webjornal - Mensal  - Edição 83 - Aracaju,  09 de outubro a 06 de novembro  de 2005
_________________________________________________________________________________________

Artigo

Bit generation

Por Paulo Lima

Ela poderia ser chamada de bit generation. Mas nem altas viagens, nem jazz, nem a revolução de costumes, nem o libelo contra o Sistema, como quis a outra beat generation, mais ilustrada, mais libertária, pró-estágios alterados de consciência, pró-orientalismo, flower power, vida natureba, outros valores, enfim. Essa nasceu e morreu nos anos 60. A bit generation dos anos 2000 tem como missão aquilo que o jornal The Guardian denominou de “publishing revolution”, em matéria de 07/10 (“Young blog their way to a publishing revolution”), com o resultado de uma pesquisa realizada na Inglaterra com 580 jovens entre 14 e 21 anos.

Segundo os números obtidos, um terço deles mantém algum blog ou website, que têm sido criados pelo mundo na razão de um a cada segundo. Perseguir algum tipo de conteúdo online é o “must” dessa nova geração.

“Milhões de jovens que cresceram com a internet e os celulares não estão mais contentes com o tráfego de mão única da mídia tradicional; estão agregando seus próprios conteúdos”, informou o Guardian.

Esse universo teen passa em média quase oito horas plugado na internet, mas isso está longe de parecer uma atividade solitária para obter informações, como fazer compras ou ler jornais online. “A maior parte dos jovens está usando a internet para se comunicar”, noticiou o Guardian. O que revelaria um “hiato de gerações”: ficar conectado em busca de informações é uma tarefa “out” – ah, coisa para os pais desses adolescentes.

 E como é que essas oito horas passadas na frente do écran são distribuídas? Metade desse tempo é usada em chats de comunidades online, ou em serviços de mensagens. A outra metade é para mandar e-mails. “Trata-se de um janela para o “reino” pessoal desses adolescentes, mas não uma janela para o mundo”, anotou o Guardian. Somente um em cada dez pesquisados afirmou que usa a internet para se manter informado.

Essa tendência tem exercido impacto em fãs de música, segundo o Guardian. Eles acabam formando comunidades em torno de bandas, antes mesmo de elas lançarem um single ou serem ouvidas no rádio. A pesquisa apontou que os jovens entre 14 e 21 anos baixam da internet uma média de 34 músicas por mês, e compram uma média de dois CDs. Conforme a pesquisa divulgada pelo Guardian, 6 entre 10 jovens possuem acesso doméstico à internet. Oito entre 10 o fazem através de banda larga. Detalhe: uma quarta parte deles tem computador no próprio quarto de dormir.

Todo esse caldo de mudanças só poderia alterar a relação entre esse público mais jovem e os tradicionais produtos de mídia. Para eles, dar um pulo até a banca mais próxima para comprar um jornal impresso, por exemplo, soa tão despropositado ou irreal como mandar uma carta pelo correio caracol ou ouvir um elepê. Isso aumenta o desafio enfrentado por editores e redes de rádio e TV para se tornarem seus produtos relevantes.

Um grande tubarão da mídia como Rupert Murdoch já deu o primeiro passo para abocanhar essas novas fatias de mercado. Além de investir em sites como o MySpace.com, segundo o Guardian, ele já deu o aviso para uma platéia de editores nos Estados Unidos: se não mudarem, morrerão. Criticando a complacência da mídia, Murdoch chamou a atenção para “uma revolução na maneira como os mais jovens estão acessando as notícias”.

O recado dado por Murdoch foi duro: “Eles (os jovens) não querem confiar no jornal matinal para obter informações atualizadas. Eles não querem confiar numa espécie de Deus acima deles para lhes dizer o que é importante. E, para manter a analogia com a religião, eles certamente não querem que as notícias sejam apresentadas como se fossem um evangelho”.

Por força das novas tendências, a publicidade tem debandado para o online de uma forma crescente: em 2010, o mercado atingirá cerca de $ 18 bilhões, contra $ 9,3 bilhões gastos em 2004 com a mídia tradicional.

Apesar da discrepância entre as duas realidades sociais, seria no mínimo instigante conhecer os números brasileiros sobre esse assunto. Somado ao alerta de Rupert Murdoch, o resultado constituiria um alerta a mais para os editores brasileiros. Afinal, também em termos de modelo jornalístico, é dos Estados Unidos que vêm as orientações.    

                                

(c) Todos os Direitos Reservados