|
Artigo
Um cronista em
Paris
Por
Paulo Lima
Fotos divulgação
O Brasil é o país do futebol, da caipirinha, do carnaval, da
corrupção... e da crônica. Somos ou não somos o único país do mundo a ter
um príncipe nesta área? Escolhido hors concurs por seus pares mais
exigentes, o capixaba-com-alma-carioca Rubem Braga assim foi aclamado:
príncipe. Mas se o nosso príncipe e sabiá da crônica deixou atrás de si
uma legião de fãs, não legou, contudo, um discípulo com a mesma força
lírica. Rubem era único.
Ainda bem, pois novos caminhos tiveram que ser abertos a ferro e fogo por cronistas
que apostaram em novos estilos, novas dicções, novas propostas.
E
não seria esta uma tarefa das mais amenas, levando-se em conta que os
primeiros cultores do gênero tipicamente verde e amarelo, aqueles que
contribuíram para dar-lhe um contorno genuinamente nacional, formavam uma
espécie de “time dos sonhos” da crônica. Vejamos: além do próprio Braga,
vêm de priscas eras João do Rio e Lima Barreto, e, no século XX, Paulo
Mendes Campos, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Carlos Drummond de
Andrade. A crônica nunca perdeu a verve e o viço entre nós. Seguiu-se
àquele elenco uma nova legião de jovens cronistas tão aguerridos quanto
inovadores.

Um
desses nomes é José Carlos Oliveira, de quem a Civilização Brasileira
acaba de lançar Flanando em Paris e O homem na varanda do
Antonio´s. Em sua definição clássica, a crônica é apontada como um
híbrido entre o jornalismo e a literatura. Carlinhos Oliveira, como era
conhecido no círculo boêmio e literário carioca, distende ao máximo esses
dois limites.
Vivendo no Rio de Janeiro dos anos 60 e 70, Carlinhos Oliveira foi um
polemista. “Na linguagem, ele introduziu uma sofisticação literária
inigualável, misturada com gírias e expressões populares; no conteúdo,
injetou uma densidade psicológico-existencial, com muita ironia,
indignação, lirismo e deboche. Seus fragmentos soluçantes, às vezes
desesperados, não poupavam nada. Muito menos a si próprio”, escreveu o
jornalista Jason Tércio, organizador dos dois livros.

Todas as crônicas de Flanando em Paris foram originalmente
publicadas no Jornal do Brasil. Nelas Carlinhos Oliveira descreve
em fragmentos nem sempre soluçantes suas duas passagens pela Cidade Luz,
revelando o seu múltiplo de escritor, poeta, filósofo, crítico e xereta
categorizado do cotidiano parisiense. Em uma palavra, como o título
indica: um flaneur.
Onde mais se poderia flanar, explorar ao máximo pernadas
lírico-existenciais senão em Paris? Por suas ruas perambulou Baudelaire,
flaneur de carteirinha, observando e anotando a explosão da
modernidade nos bulevares, nas praças de Paris.
Pois Carlinhos Oliveira, boêmio incurável e riponga, traçou e foi traçado
por Paris, realizando um sonho da infância. Fez amizades ao léu, foi a
festas, freqüentou inúmeros cafés – como antes havia feito Sartre &
Beauvoir, Hemingway, Scott Fitzgerald, Lênin e todos aqueles que foram tomados de amor por
Paris.
“Quanto a mim, depois de muito andar, aqui estou na cidade com que
sonhava desde menino. Tenho apreciado esses monumentos, esses pássaros que
adejam o Sena, em cujas margens os barcos grisalhos estão ancorados! Gosto
de andar debaixo deste céu inóspito, perdido na multidão formada por todas
as nacionalidades”, escreveu.
Aliás, em Paris, dentre tantos encontros casuais, Carlinhos encontra
Samuel Beckett: “Eu já havia bebido bastante no La Coupole e me sentei no
Rose Bud, pensando em passar da cerveja para um penúltimo uísque, antes de
me deitar. Mas, quando prestei atenção, estava batendo papo com Samuel
Beckett e um outro irlandês chamado Lowenthal, ou coisa que o valha.
Batendo papo é força de expressão, porque Beckett não disse uma palavra
durante toda a madrugada. Ele apenas sorria na minha direção, com seus
olhos azuis muito doces num rosto lavrado de rugas. É um homem alto,
ossudo e quieto. Eu lhe falava sobre sua maior admiradora brasileira, que
é Vera Pedrosa Martins, e ele se mostrava surpreendido ao saber que tinha
leitores no Brasil”.
Mas ao passo em que se deslumbra com a realização de um sonho, o cronista
não se olvida de suas raízes, e trava um diálogo certamente reconhecido
por todos aqueles exilados ou auto-exilados de sua condição pátria. No
fundo, como bom brazuca que era, ele anotou: “É inútil fingir: a palavra
saudade está atrás de cada gemido que não ouso articular. O céu da minha
terra, e um sorriso, eis o que me falta. A paisagem familiar, e o sorriso
de um ser amado”.
Essa quase canção do exílio, no entanto, não tolhe o espírito livre de
Monsieur Oliveirrá. Ele desfruta cada instante em Paris, cada minuto, num
itinerário quase proustiano em que a teia de sua própria memória alimenta
suas andanças presentes, suas reflexões, seus lamentos.
Carlinhos Oliveira deixou o Brasil para sua segunda viagem a Paris – a
primeira acontecera em 1963 – num momento de barra pesada por aqui.
Vivia-se sob os coturnos do AI-5. Censura total, violência e tortura. A
viagem à França foi também um exílio auto-imposto, por causa das desgraças
da política, da mesquinhez da vida cotidiana dominada pelos militares. Num
arroubo que em muito faz lembrar esses tempos de caixa 2 e mensalões, ele
desabafou: “Não quero mais falar, nunca mais quero falar de política
brasileira. Os personagens que nela se movimentam são toscos, mesquinhos,
incapazes de discernir o futuro da pátria acima de suas pequenas cobiças,
seus nojentos rancores, sua vaidade de travesti em baile de carnaval.
Trabalhando esse material vil, sujei minhas mãos e meu espírito. Tratarei
agora de tomar um banho de arte imortal, e de idéias olímpicas”.
Et voilà.
Paris foi o bálsamo esperado para Carlinhos Oliveira, um
enfant-terrible da crônica.
|