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Artigo
O mito sob fogo
cruzado
Por
Paulo Lima
Foto Getty Image

Desde que
revelou em depoimento à Justiça que sabia da identidade secreta da agente
da CIA Valerie Plame, ocultando o fato dos seus editores no Washington
Post, Bob Woodward tem freqüentado o noticiário numa posição bem
distinta daquela que o consagrou como um dos jornalistas mais importantes
dos Estados Unidos, depois de investigar, com Carl Bernstein, o escândalo
Watergate. Por seu enfoque da invasão do Iraque, no livro Plano de
Ataque, tido como simpático a Bush, e por sua proximidade com fontes
do Pentágono, Woodward tem recebido duras críticas dos adversários.
Envolvido em episódios que parecem arranhar sua credibilidade, seria o
caso de perguntar: mudou Bob Woodward, ou mudou o jornalismo?
No longo artigo "The
man with the inside scoop", publicado em 28/11 no Washington Post,
o crítico de mídia do jornal, Howard Kurtz, analisa a relação perigosa de
Bob Woodward com o poder – enquanto destampa a polêmica instalada em sua
própria redação.
Kurtz observa que
"foi uma imagem cinematográfica que atraiu milhares de jovens para o
jornalismo: Robert Redford persuadindo Hal Holbrook a lhe fornecer
informações na garagem de um estacionamento mal iluminado". Contudo, hoje
o enredo é muito diferente daquele de três décadas atrás. As fontes de Bob
Woodward, localizadas nas altas esferas da administração Bush, "estão
moldando a história, em lugar de revelar um modelo de corrupção no estilo
de Watergate". Isso tem gerado críticas aos métodos jornalísticos de
Woodward, já que vêm dessas fontes as informações que suprem as narrativas
dos seus best-sellers.
Mas Kurtz acredita
que as críticas dirigidas ao repórter têm um quê de ressentimento, pelo
status privilegiado que ele conquistou no Post. Enquanto os demais
jornalistas têm a obrigação de produzir matérias a partir das informações
conseguidas com as fontes, Woodward as transforma em livros, escritos na
comodidade de sua casa em Georgetown. E para isso é pago pelo Post.
Ouvido, o editor-executivo Leonard Downie Jr. destaca os méritos do
livre-trânsito de seu repórter mais célebre. O acesso de Woodward a fontes
privilegiadas tem "produzido muitas informações sobre a atividade interna
da Casa Branca, da Casa Branca de Clinton, do primeiro mandato de Bush e
sobre documentos que ninguém mais tem obtido".
Livros extensos
Downie Jr. abriu o
jogo: admitiu que Woodward passa meses sem fazer qualquer contato com o
Post, mas que agora estabeleceu-se um acordo para que se comunique com
mais freqüência. Além disso, visando amenizar as críticas da equipe, disse
que ocasionalmente Woodward concorda em interromper suas pesquisas,
oferecendo-se como voluntário para produzir novas reportagens para o
jornal. Uma dessas empreitadas foi justamente o caso da agente Valerie
Plame, cuja identidade foi revelada há três anos por alto funcionário da
Casa Branca – o escândalo levou à prisão da repórter Judith Miller, depois
demitida do New York Times, e a séria crise no governo [ver
remissão abaixo]. Pois Woodward admitiu que a informação também lhe
fora revelada em 2003.
Naturalmente que Bob
Wooward não é o único jornalista americano a manter proximidade com o
círculo íntimo do poder, comentou Kurtz: Walter Lippmann, Joseph Alsop e
James Reston caminharam sobre o fio da navalha. Todos eles tinham "o
ouvido de presidentes e primeiro-ministros". Kurtz conta um episódio
emblemático da relação do jornalismo com o poder. Em 1961, Kennedy chamou
Walter Lippmann para uma conversa. Queria saber se ele publicaria em sua
coluna no New York Times que os americanos responderiam
militarmente, caso os soviéticos tentassem bloquear o acesso a Berlim. A
coluna seria usada como um instrumento de diplomacia.
Tentações faustianas
ocorrem com freqüência para atrair jornalistas aos braços do poder, o que
infringe um dos princípios do jornalismo: a necessidade de fiscalizar o
poder. No caso de Woodward, o diferencial, segundo Kurtz, são os
predicados em torno do seu nome. Bob Woodward transforma o material
garimpado nessas fontes em livros extensos. Diferentemente da maioria dos
repórteres, ele não tira licença para produzir seus livros, editados pela
Simon & Schuster: continua recebendo o salário do Post. Seu nome é
uma marca: ele pode se dar o luxo de procurar os mesmos personagens
diversas vezes, algo permitido a poucos autores de não-ficção cujos livros
estão sempre no topo da lista dos mais vendidos. Bob Woodward é famoso,
mais famoso do que a maioria das pessoas que ele entrevista.
Jornalista de
acesso
Sua liberdade para
trabalhar no que deseja é uma de suas regalias no Post. Ele não é
obrigado a produzir regularmente para o patrão, ao contrário da maioria
dos repórteres. "Desde a invasão do Iraque, em 2003", diz Kurtz, "ele
escreveu uma reportagem, um ponto de vista e uma resenha de livro". A base
de seu trabalho são, sem dúvida, fontes sigilosas, que Bob revela a pelo
menos um editor. Ou revelava, até o affair Valerie Plame...
A relação com as
fontes foi explicada pelo próprio Woodward em entrevista à CNN (em nenhum
momento aceitou ser entrevistado pelo Post a respeito do caso Plame).
"Para conseguir o que está no fundo do barril", disse Bob, "você tem que
estabelecer relações de confiança com pessoas em todos os níveis do
governo".
Mas se há todo um ar
de cerimônia com as fontes, onde fica o leitor nessa história? Mantém a
mesma confiança no trabalho de Bob Woodward, depois de todo esse
imbróglio? Se o termômetro for a opinião do leitor, ele está em apuros. Em
chat recente ancorado por Downie Jr., o tom das intervenções era
francamente hostil. "Eu considerava Mr. Woodward um herói", disse um
leitor que participou do chat. "Mr. Woodward parece mais interessado em
proteger seu livro do que em cobrir as notícias", disse outro.
A relação de
Woodward com as fontes tem provocado críticas em diversos quadrantes,
inclusive no meio acadêmico. Jay Rosen, professor de Jornalismo da
Universidade de Nova York, não poupou o mito: "Ele se transformou num
jornalista de acesso, um insider". Segundo Kurtz, as críticas mais duras,
porém, vêm dos liberais "que admiravam o papel de Woodward por ter
derrubado Richard Nixon, mas que detestam sua relação com o presidente
Bush". Manchete da revista Mother Jones resumiu tudo: "Repórter que
um dia pôs abaixo uma administração corrupta agora protege outra".
Visão
"distorcida"
Downie Jr. tem mais
farpas. "Woodward cometeu um erro sério ao não informar sobre Plame",
disse. Woodward é admirado no Post, "mas uma série de incidentes
tem feito a equipe questionar sua lealdade ao jornal", continuou Kurtz. Um
dos pecados capitais cometidos por Bob Woodard foi furar o próprio jornal,
ao oferecer em primeira mão à Associated Press um exemplar de seu livro
Plano de Ataque. E não foi o Post o primeiro a revelar que a
identidade do Garganta Profunda era Mark Felt, e sim a Vanity Fair.
Para completar, Woodward divulgou declaração em que afirmava que não
responderia às perguntas do pessoal do Post, após depoimento ao
procurador que investiga o caso Plame. A desculpa de Woodward? "O
princípio da confiança", o mesmo que norteou Judith Miller, do NYT,
a ficar de bico calado alegando sigilo de fonte. Os críticos puseram a
dupla na mesma vala: eles teriam tido pouca consideração com seus jornais.
David Gergen,
professor de Harvard e editor do U.S. News & World Report,
ex-assessor de Nixon, também alfineta Woodward. "Acredito que a política
de Bob mudou um pouco nos últimos anos. Ele está mais solidário com o
poder, especialmente com os republicanos". Porém, Gergen faz uma ressalva:
"Depois de 30 anos como um pioneiro, Woodward não merece o nível das
críticas que lhe têm feito".
É preciso
acrescentar que os livros de Bob Woodward sempre foram alvo de
controvérsia. Isto inclui uma entrevista com um ex-chefe da CIA, William
Casey, realizada no hospital, pouco antes de sua morte. A mulher de Casey
se queixou, ao ler a entrevista, de que as condições do marido não
permitiriam que ele desse as respostas que deu ao entrevistador. Os livros
de Bob Woodward sobre a administração Clinton também lhe renderam
polêmica. O ex-assessor de imprensa de Clinton Mike McCurry disse que nem
todos se dispuseram a colaborar com Woodward à época. Por isso, o repórter
teria tido uma visão "defeituosa e distorcida" dos fatos.
"Fatos sobre
fatos"
No entanto, nada se
compara à acidez das críticas que têm sido impostas ao trabalho de Bob
Woodward no governo Bush. O acesso irrestrito a fontes como Dick Cheney,
Colin Powell, Andrew Card, Donald Rumsfeld e outros, somado à "atmosfera
polarizada" da América nestes dias, tem assegurado a Woodward a pecha de
insider, alguém que obtém o furo por estar do lado de dentro da
informação, pegando-a diretamente das mãos da fonte interessada no assunto
(daí o título do artigo, "The man with the inside scoop").
O que dizem os
republicanos dessa proximidade de Woodward com os seus falcões? Segundo
Mary Matalin, ex-assessora do vice-presidente Dick Cheney, "há interesse
da Casa Branca em ter uma fonte neutra escrevendo sobre as decisões de
Bush". Isso explicaria o livre acesso de Woodward. Mary acrescenta que há
um "profundo respeito pelo trabalho do repórter do Post".
Para Bob Woodward,
seu trânsito pelos corredores da Casa Branca não modificou seu método de
trabalho. Trata-se do mesmo caminho que seguiu para chegar a Nixon e
Watergate. Ou seja, é uma questão de empilhar fatos sobre fatos a partir
de uma fileira de fontes, com a diferença de que hoje ele tem acesso ao
poder. Na visão de Woodward, "Bush é apenas uma voz numa narrativa
complexa que não lança necessariamente o presidente numa luz favorável".
Nódoa na
biografia
É tudo assim tão
simples? "O que explica então a recente tempestade de críticas?", pergunta
Howard Kurtz. Segundo Jeff Leen, editor-assistente do Post para
investigações, "há um enorme fator de inveja desse cara". Segundo ele, as
pessoas gostam de ver a queda do rei. "Há muitos críticos que não
conseguiriam carregar os sapatos de Woodward, mas estão ponderando se ele
deve manter o emprego". Sobre o trabalho do repórter no 11 de setembro,
disse: "O homem era um dínamo. Tudo estava um inferno, e ele saiu e voltou
com uma matéria. Ele faz reportagem em triangulação. Ele retorna às
pessoas, e retorna, e retorna". Mas, como é de se supor, não é fácil lidar
com uma estrela. No ambiente da redação, tudo muda de figura. "As pessoas
são obviamente intimidadas por ele. Você não se aproxima de Bob Woodward e
lhe dá uma ordem como daria a outros repórteres".
Entre os
historiadores, há ressalvas e elogios ao trabalho de Woodward, que costuma
reconstruir cenas sem identificar as fontes. Essa prática lhe valeu
crítica de Robert Dallek: "Se não se sabe de onde vem a informação, isso
diminui o valor do livro". Mas o que parece defeito para Dallek soa como
virtude para o historiador Rick Shenkman, da George Mason University. Ele
reconhece que os livros de Woodward são muito importantes, numa era em que
presidentes e seus assessores não mantêm mais cartas ou diários, com
receio de intimações. "Ele está servindo de meio para essas pessoas".
Levando-se em conta
os prós e contras das críticas ao mito, somente o passado de Bob Woodward
deve chegar à posteridade. Seu acesso ao círculo do poder, analisado à luz
da América fundamentalista, tem soado como uma espécie de rendição aos
princípios de Bush, uma nódoa na biografia de um dos maiores repórteres
investigativos de todos os tempos. "Pela sua fama e fortuna, Woodward será
para sempre comparado ao pobre repórter de sapatos baratos que investigou
um presidente três décadas atrás, e não por ter se sentado com um
presidente para longas conversas em seu rancho do Texas", concluiu Howard
Kurtz.
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