Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Artigo

A locomotiva do mundo

Por Paulo Lima

Na década de 80, o dramaturgo americano Arthur Miller caiu, literalmente, da cadeira num restaurante em Pequim. A cadeira estava quebrada. Sem perder a pose, Arthur protestou com humor: - gangue dos quatro! As pessoas ao redor caíram na gargalhada. Mao Tsé-Tung morrera em 1976, e com sua morte chegara ao fim a Revolução Cultural chinesa. O núcleo do poder era liderado pela "gangue dos quatro", formada por Mao, a mulher e mais dois membros do partido comunista chinês.

Durante a Revolução Cultural, a China fechou-se para o mundo. Um grande expurgo teve início, com perseguição a intelectuais, estudantes e todos os oponentes supostamente defensores dos valores burgueses. 

A realidade chinesa começou a mudar a partir de 1978, com a chegada ao poder de Deng Xiaoping, considerado um moderado e sobrevivente dos expurgos promovidos pela Revolução Cultural.

Hoje a China é considerada a locomotiva do mundo. O livro O mundo tem medo da China? Nós também (Editoras Terceiro Nome e Mostarda), escrito pela jornalista Patrícia Campos Mello, traz um breve perfil dessa economia que cresce em ritmo vertiginoso.

“O país que abriga 1,3 bilhão de pessoas – um quinto da população mundial – e cresce a estonteantes 9,5% ao ano não pára de assombrar o Ocidente”, informa Patrícia. A magnitude da produção chinesa é assustadora. O país “produz dois terços de todos os fornos de microondas, aparelhos de DVD, copiadoras e sapatos do mundo” e “fabrica mais de metade das câmeras digitais e dois quintos dos computadores”.

Para suprir esse gigantismo, o dragão vai buscar em outras economias as matérias-primas de que necessita para fazer girar a sua roda da fortuna. As estatísticas reveladas no livro dão uma idéia da força dessa performance econômica. “Em 2003, o país consumiu 40% da produção mundial de cimento, 21% da alumina vendida no mundo, 24% do zinco, 28% do minério de ferro, 17% do cobre e 23% do aço inoxidável”.

A comparação com alguns indicadores da economia brasileira ajuda o leitor a entender melhor a dianteira chinesa. O PIB chinês (a medida de toda a riqueza produzida num país, em um ano) é de 1,6 trilhão de dólares, o equivalente a três vezes o produzido pelo Brasil. Lá o crescimento tem atingido os 9,5%, ao passo que por aqui pífios 3% são anunciados com fogos de artifício pelo governo.

Mais dois números permitem situar a volúpia chinesa de crescimento. O investimento chinês atinge 47% do PIB. No Brasil, se situa nos 19%. “Ter um alto índice de investimentos significa, na prática, centenas de fábricas novas, produtos novos, funcionários contratados, todos os anos”, explica Patrícia.

Se persistir nesse ritmo, a China, hoje considerado um país emergente (nesse rol se incluem o Brasil, a Rússia e a Índia), logo ultrapassará as economias mais poderosas do planeta. Segundo estudo da Goldman Sachs, revelado no livro, o dragão vai ultrapassar os Estados Unidos em 2040, o Japão em 2016 e a Alemanha em 2010.

Qual é o segredo de tanto crescimento? Baseado num sistema misto, denominado de “economia socialista de mercado”, o modelo chinês apostou numa forte intervenção do estado. Os bancos, estatais, oferecem crédito ilimitado às empresas. E o país tem à sua disposição um colossal contingente de trabalhadores mal remunerados. Trata-se de uma economia “intensiva em mão-de-obra”, no jargão dos economistas. Outro ponto é a taxa de câmbio mantida em níveis artificiais durante anos, como forma de estimular a exportação dos produtos chineses.

Até onde vai a expansão chinesa? O mundo inteiro teme uma freada do crescimento na China. Especialistas defendem uma aterrissagem brusca, como forma de impedir uma bolha de crescimento, semelhante à que pôs abaixo os sonhos mirabolantes da Internet, ou a que afetou a economia japonesa. Contudo, há quem acredite que a China ainda tem muito espaço para continuar crescendo.

Além do evidente medo das outras nações, o país enfrenta críticas da opinião pública internacional pelo desrespeito aos direitos humanos (em 2003, foram executadas 726 pessoas na China), degradação do meio ambiente, cerceamento da liberdade de expressão e desrespeito à propriedade intelectual. Apesar de caminhar a passos largos para a modernidade, o país mantém um sistema político fechado, de partido único. A despeito do enorme atrativo do seu gigantesco mercado consumidor, a China não é para principiantes.

Todos essas nuances têm levado os críticos do modelo chinês a ponderar se o que existe por lá é de fato capitalismo, tal qual o conhecemos. Talvez se justifique a grita dos empresários brasileiros a esse respeito, assustados com a invasão dos produtos chineses, que podem levar à bancarrota num curto espaço de tempo as indústrias têxteis e de sapatos nacionais.

Mas com todos os aspectos negativos, a China segue em frente. Huawei, Gree, ZTE, SVA: estas são algumas das grandes multinacionais chinesas que já começam a conquistar o mercado internacional. Ainda vamos ouvir falar delas por muito tempo. Hoje o inglês é o idioma dominante nas relações internacionais, graças à força da economia americana. A cultura chinesa esteve fechada para o Ocidente durante séculos, mas não será surpresa se nas próximas décadas tivermos de aprender o chinês mandarim para entender melhor o que estará se passando à nossa volta.  

                                

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