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Artigo
Que rolem as
pedras
Por
Paulo Lima
Não gosto dos Rolling Stones. Nem desgosto. Fui agorinha espiar na
minha prateleira, para me certificar: não tenho um mísero disco deles.
Nunca tive curiosidade pela história da banda, como tive pela música de
Bob Dylan, ou mesmo dos Beatles. Eles foram os primeiros caras brancos
ingleses a pôr no mesmo liquidificador rock e blues, não? Bem, se foram os
primeiros, depois virou lugar-comum. Cantar como os negãos
americanos passou a ser a aspiração de todo roqueiro que se preze, a
partir dos anos 60. E até hoje, se não estiver enganado.
E
tudo começou com Elvis Presley, nos 50. Mas peralá. Elvis é outra
história. Requebrou à beça, ganhou dinheiro a rodo e entronizou, com seus
cento e tantos quilos, a pior decadência a que pode estar sujeito um astro
do rock. Porém ainda havia um quê de pureza primal no som que fazia, nos
primeiros anos. Era o roquenrou em fase de gestação, mesmo com tolices
como “Blue Suede Shoes”. Mas mesmo naquelas entrelinhas podia-se ler a
solidão e caretice da América de Eisenhower.
Que os Stones tenham detonado uma revolução comportamental, nos
tresloucados anos 60, com os requebros obscenos de Mick Jagger e outras
porralouquices de Keith Richards, não é grande coisa. Nos anos 60, todos
os mais ou menos inconformados com o stablishment faziam algum tipo de
presepada, ora pombas.
Reconheço: “Satisfaction” tem uma pulsação legal, e, vá lá,
traduziu o niilismo da moçada na época. A turma não havia ainda caído no
conto do vigário do consumismo. E por isso forçava outras portas, outras
percepções.
Mas, claro como o dia, o roquenrou se encaretou. Virou big business.
Negócio grande. De rebeldes sem causa, os Stones passaram a simbolizar
esse tubarão faminto do show business.
Domingo 11/02, o Estadão publicou matéria falando da passagem dos
Stones pelo Brasil em 1969. Num bar do Rio de Janeiro, Mick Jagger foi
alvo de zombaria de um bando de rapazes. Tiraram-lhe o chapéu e o passaram
de mesa em mesa. Bem feito.
Hoje o “roqueiro bocudo” (crédito para Claudio Tognolli) é vedetíssima,
junto com os outros membros da banda. Provocam faniquitos nos fãs por onde
passam e atraem nuvens de repórteres deslumbrados. Vale ouro uma foto, por
mais ridícula que seja, de um desses popstars refestelados em suíte de
luxo num hotel do Rio. Os jornais não cansam de publicar entre ontem e
hoje flagras dos imperadores acenando para os súditos da sacada do hotel.
Sinto-me mordido pelo diabinho da curiosidade: o que pensariam os
dinostones desse paparico todo em torno de si?
Paulo Francis chamou o roquenrou de “porcaria grossa”. Francis sabia das
coisas. Acho que essa turma ganhou dinheiro demais com essa música de dois
acordes. Foi um deles que fez a crítica definitiva do gênero: “Toda a
música pop cabe numa caixa de fósforos”. Dito por Sir Elton John.
Mas parece que a idade da razão enfim chegou aos sessentões stonianos. A
turnê da qual o show em Copacabana faz parte deve ser a última da banda.
Sorry, Stones. As pedras continuaram rolando sem vocês.
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