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Artigo
Essa tal de
objetividade
Por
Paulo Lima
O equívoco
começa nos bancos da faculdade, quando tudo se espera do aspirante a
jornalista, menos que tenha opinião. Podado dessa função primordial, o
foca é atirado na vertigem do mundo e levado a descrevê-lo com total
isenção de ânimos, como se fosse um ser transparente, destituído de
nervos, cérebro e emoção. Estabelece-se a partir daí um ideal que, a
rigor, raramente será encontrado no mundo real – e isso o noviço vai
aprender a duras penas: a busca da objetividade jornalística.
A discussão é
bizantina e pode soar mais das vezes contraproducente. Basta dar uma
olhada ao redor. No fluxo diário de informações que brota de jornais,
rádio e TV há de tudo – inclusive informação. Mas aqui e ali se insinua –
às escâncaras ou de forma ladina – o viés, a marca do crime: o jornalista
opinou, tomou partido. Pingou no texto sua impressão, sua marca, sua visão
de mundo, sua cor partidária, seu time preferido.
Ora, pois. E
jornalista não é gente? Não está sujeito a injunções, ventos vacilantes,
oscilações de humores, temores, dúvidas? A certeza cartesiana que se lhe
quer impor existirá? Desde o jornalão paulista ao hebdô de Santa
Mariazinha do Passa Quatro, lá está o pitaco, que às vezes se insinua numa
palavrinha. Palavras são palavras são palavras. Perigosas, perigosas,
perigosas.
O tópico continua
derretendo muita massa cinzenta por aí. E novas tendências começam a
surgir no horizonte, pondo por terra velhas concepções. No artigo "O
crepúsculo da objetividade", publicado em 31/3 na revista eletrônica
Slate, ligada ao Washington Post, o editor Michael Kinsley
escreveu a respeito deste assunto. A partir dos exemplos de Lou Dobbs e
Anderson Cooper, âncoras da CNN, Kinsley reflete sobre a objetividade no
jornalismo.
Dobbs e Cooper eram
jornalistas enquadrados nos padrões convencionais, e, de repente,
assumiram atitudes mais agressivas, que repercutiram nos índices de
audiência da emissora. O que teria provocado as mudanças? Segundo Kinsley,
a explicação é a concorrência da internet. Não resta dúvida de que ela
está provocando mudanças profundas na indústria da notícia, e colocando em
pânico as mídias tradicionais. O que se discute é a extensão dessas
transformações. O que profissionais como Dobbs e Cooper têm feito é tentar
segurar o público da TV, ao estabelecer uma atitude mais humana, fato que
tem influenciado outros âncoras. E têm assumido esse comportamento
oferecendo mais "compromisso emocional". Numa palavra: mais opinião.
Essa guinada põe em
cheque o conceito de objetividade. "A objetividade – a fé professada pelo
jornalismo Americano e seus críticos – não passa de uma presunção",
escreve Kinsley. Porém, não se trata do fato de que todos os jornalistas
são preconceituosos e, por isso, a objetividade perfeita é admirável, mas
inatingível. Para Kinsley, o problema é que o conceito em si é confuso. As
pessoas mais inteligentes acreditam que os repórteres não devem pôr
opinião no que escrevem. "Mas essas mesmas pessoas se livrariam mais
facilmente da própria pele do que de suas opiniões", ironiza Kinsley. Ora,
se elas não conseguem, não podem exigir isso dos jornalistas. Kinsley
argumenta, em defesa do opinionismo: "Jornalistas que alegam que não têm
opinião sobre o que escrevem ou são destituídos de curiosidade, ou não
refletem sobre o mundo a sua volta. Num ou noutro caso, poderiam ser mais
felizes noutra profissão".
Para testar os
limites da tal objetividade, Kinsley coloca questões polarizadoras, que
não deixam ninguém ficar em cima do muro: um jornal deve se esforçar para
compreender Osama bin Laden? Tem que revelar sua preferência entre os
Estados Unidos e o Irã? Pode pôr numa reportagem que o Holocausto não
somente aconteceu, mas que foi algo ruim?
Em outras áreas além
do jornalismo, acredita, a idéia de uma realidade objetiva que pode ser
descrita com palavras está fora de moda há décadas. No jornalismo já há
modelos sobre uma imprensa pós-objetiva. Kinsley condena a proposta dos
que defendem a objetividade: "O jornalismo de opinião pode ser mais
honesto do que o jornalismo objetivo, porque não precisa esconder seu
ponto de vista". Além do mais, sendo opinativo, o jornalista não precisa
perseguir as evidências e, no final, por receio, concluir carregando nas
aspas, que é o recurso mais comum utilizado pelos defensores da
objetividade.
Contudo, Kinsley
enfatiza que deixar de lado a pretensão da objetividade não significa
abandonar o que há de mais importante no jornalismo: a precisão factual.
Pelo contrário, "a prática do jornalismo opinativo traz obrigações éticas
adicionais". Tudo pode ser sintetizado em duas palavras, segundo ele:
"Honestidade intelectual". E Kinsley resume o teste da honestidade em
quatro questões fundamentais: a) você está escrevendo ou dizendo aquilo em
que realmente acredita?; b) você sustenta seus argumentos diante de
diferentes situações, mesmo que eles o conduzam a conclusões
desagradáveis?; c) você está aberto a novas evidências ou argumentos que
podem fazê-lo mudar de idéia?; d) você mantém, por mínima que seja, alguma
dúvida sobre os argumentos que escolheu?
Apesar desse libelo,
Kinsley reconhece que a forma como o jornalismo opinativo tem sido
conduzido na TV americana não é uma grande propaganda a seu favor. "As
condições nas quais tem sido praticado tornam a honestidade mais difícil e
praticamente não deixam lugar a dúvida", escreveu. Não é de admirar, com a
política deliberada de seguir as orientações do Pentágono.
Mas se o jornalismo
opinativo se tornou a norma, e não apenas uma exceção desacreditada a essa
norma – acredita Kinsley –, ele poderia deixar de ser reduzido com tanta
freqüência a uma paródia de si mesmo. "A menos que eu esteja totalmente
enganado", especulou. Estaria?
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