Javier Darío Restrepo é um dos
mais notáveis expoentes da ética jornalística na América Latina.
Colombiano, autor de El zumbido y el moscardón, ainda inédito no
Brasil, Restrepo atua há mais de 45 anos na profissão. De passagem pela
Bolívia para participar de um seminário sobre o tema "mídia, poder e
democracia" naquele país, Restrepo concedeu breve entrevista ao jornal
La Razón, de La Paz, publicada na edição de 23/5.
Breve, porém fundamental. Nela, Restrepo
enfileira opiniões vitais sobre a defesa da ética no jornalismo. O ponto
de partida da conversa foi sobre o uso da primeira pessoa no texto
jornalístico. Para Restrepo, esse recurso deve ser restrito às situações
em que o jornalista necessita dar um testemunho. Ele cita dois exemplos:
"Eu estava no momento em que a bomba explodiu", ou "eu estava no momento
em que o presidente morreu".
A temperatura da entrevista aumenta na
segunda pergunta, com a discussão de um assunto que, segundo La Razón,
é comum na Bolívia: o caso de jornalistas que ingressam na política e
depois retornam ao jornalismo como se nada tivesse acontecido. Restrepo
põe o assunto em pratos limpos: "Aqueles que voltam ao jornalismo depois
de passar pela política, o fazem mancando, pois sua credibilidade se
enfraquece como jornalistas, já que adiante não se saberá se falam em nome
de seus interesses pessoais, de um partido ou se estão reunindo novamente
desejo de pular para a política". Restrepo compara a situação desses
jornalistas à infidelidade conjugal. Quando ela ocorre "é sempre muito
difícil acreditar nas vozes do arrependimento daquele que foi infiel".
A conversa segue de vento em popa. O
terceiro tópico abordado não poderia ser mais crucial, e foi posto nestes
termos: a independência financeira de um veículo garante sua independência
jornalística? A relação parece lógica, mas Restrepo observa que é
"parcialmente correta". Sem recursos, um jornal vive à beira do suborno.
Se necessita de dinheiro, pode consegui-lo em troca de uma "retribuição",
o que afeta sua independência. O raciocínio, diz Restrepo, vale para os
jornalistas individualmente. "Um jornalista que não tenha resolvido seu
problema de comida, de vestir-se, não pode fazer um jornalismo
independente. Poderia até fazê-lo se adotasse atitudes heróicas e, mesmo
com fome, cumprisse sua função. Mas isso não é o normal. Isso se faz um ou
dois dias, mas não todos os dias", analisou.
La Razón
indaga como deve agir um jornalista ético ao perceber que o veículo no
qual atua não é ético. Renuncia? Parece que dessa vez Restrepo foi atirado
contra as cordas, mas seu argumento é vigoroso. Não faz sentido renunciar,
por uma razão prática: o jornalista será substituído por um outro com
menos sensibilidade ética. E nesse caso o prejuízo não recairá tanto sobre
o meio de comunicação, mas sobre os leitores. "O jornalista ético é sempre
uma garantia para os leitores, pois lutará para que seus direitos sejam
respeitados", reflete Restrepo.
A pergunta seguinte é tão ou mais
desafiadora. Até que ponto um jornalista deve arriscar-se para fazer
reluzir a luz da verdade? A resposta podia render caudalosos testemunhos
de fé, mas Restrepo é sábio. "A linha de risco tem que ser traçada pela
própria consciência, e pode ser que a sua linha de risco não seja a
minha", pondera. Ele cita um caso que o tem feito refletir bastante, o do
jornalista colombiano Guillermo Cano, assassinado por tornar público, pela
primeira vez, os delitos de Pablo Escobar. Mesmo constantemente ameaçado,
o jornalista seguiu em frente. "Ele havia posto uma linha de risco, e era
muito alta", disse Restrepo. A maioria dos jornalistas pensaria na esposa
e nos filhos e concluiria que esta seria indispensável para ele. Sua linha
de risco seria certamente mais baixa.
A questão seguinte é no mínimo curiosa,
pois considera dois tipos de jornalista: o que trabalha direto na redação
e o que sai para a rua. Essa cisma implica éticas diferentes? São
distintos os conflitos enfrentados? Restrepo acredita que sim. Porque a
partir da redação é muito difícil ver a verdade. Para os que estão na rua,
a verdade são os fatos. Vale dizer, o jornalista estaria cara a cara com
ela. Além disso, o jornalista que fica na redação tem que se perguntar por
que está ali. Seria por facilidade? Porque teme o contato direto com as
pessoas? Embora em menor grau, o jornalista que sai em campo também tem
seus dilemas. Por estar em contato mais direto com o atrito das ruas, é
possível que se questione: "Estarei permitindo que minhas emoções sejam
mais fortes do que meu compromisso com a verdade?" Ou: "A direção que
estou dando à informação resulta em interesse para a sociedade?
Restrepo deixa claro que acredita na
supremacia de um tipo de atuação sobre a outra. Por isso o entrevistador
não perdeu a oportunidade de explorar melhor o assunto na pergunta
seguinte: "Até que ponto o contato com as pessoas é importante?" Restrepo
evocou a experiência do celebrado jornalista polonês Ryszard Kapuscinsky
(de quem a Companhia das Letras publicou recentemente O imperador)
para responder. Segundo Restrepo, Kapuscinsky costuma admitir que não sabe
fazer entrevistas. E questionado como é que se vira a respeito, responde:
"Eu simplesmente converso com as pessoas, e conversar com as pessoas
primeiro significa conviver com elas até o ponto em que elas quase não nos
notem". E é assim – diz Restrepo –, sem a influência de elementos alheios
e contaminadores, que se chega à realidade. E é dessa forma que a natureza
humana se revela.
A crença num jornalismo mais humanizado é
a profissão de fé de Restrepo. E não poderia ser diferente. Inquirido
sobre a qualidade do jornalismo praticado atualmente, ele reafirma sua
posição. Vale a pena transcrever a íntegra de sua resposta:
"Em geral, o jornalismo de hoje pensa
que, com um desdobramento dos elementos técnicos, pode ser bem feito.
No entanto, isso deveria ser secundário, pois o jornalismo é feito
pelo ser humano, que apela ao mais espiritual do ser humano, que é a
sua capacidade de saber. Além disso, está utilizando o mais nobre
instrumento que existe: as palavras. Por conseguinte, a aptidão de um
jornalista tem que ser basicamente em qualidade humana. Depois é que
vem a qualidade técnica".
Na pergunta final, a respeito da
influência dos receptores na informação, Restrepro não tem dúvida: existe
a necessidade da intervenção destes como elemento de crítica, como um
"espelho" do jornalista. "Se há uma necessidade neste momento, é
justamente a de converter os receptores passivos em ativos", respondeu. De
que maneira, não explicou. Mas nada disso vai se efetivar sem uma aposta
firme na ética. Aí estão as lições de um velho mestre.