Webjornal - Mensal  - Edição 92 - Aracaju, 13 de agosto a 17 de setembro  de 2006
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Artigo

Um arquiteto dos sentidos

Por Paulo Lima
Foto Divulgação

Juhani Pallasmaa é um arquiteto finlandês especializado em casas e museus. Mas não é isso que o faz tão famoso, e sim suas posições humanistas. Em entrevista ao “Babelia”, suplemento literário do jornal espanhol El País, Pallasmaa afirmou: “A arquitetura de hoje não é para as pessoas”.

Alguma dúvida? Basta olhar para os espigões que roçam os céus nas principais megalópoles do planeta. Pallasmaa acaba de escrever o livro Los ojos de la piel em que critica a arquitetura moderna por tentar impressionar apenas pelo visual. Ele afirmou na entrevista: “A arquitetura atual tende a ser retiniana, se dirige ao olho. É narcisista porque enfatiza o arquiteto, o indivíduo. E é niilista porque não reforça as estruturas culturais, as aniquila. Hoje os mesmos arquitetos constroem por todo o mundo, e os mesmos edifícios estão por toda parte. Assim é difícil que a arquitetura possa reforçar alguma cultura”.

Na prática, que diferença faz se você está numa larga avenida de Tóquio, Nova York, Berlim ou São Paulo? Tirando o apelo dos néons cintilando em cada idioma particular (e talvez nem isso, já que em muitos lugares o que predomina mesmo é o apelo das grandes corporações americanas), nada.

Para Pallasmaa, o fato de que os edifícios sejam hoje produtos visuais se deve a uma comercialização do mundo. “Tudo é negócio”, disse. E é também “resultado da velocidade do mundo. E entra aí o excesso de informação. “Se você quer conseguir atenção, tem que falar alto”, ironiza. Isso explicaria, para Pallasmaa, o tipo de arquitetura que temos hoje, em contraposição às catedrais, que também eram grandiosas. Elas “contrastavam com o mundo, mas o convidavam a um encontro íntimo”.

O abandono dessa “arquitetura dos sentidos”, que está na base das idéias de Pallasamaa, se traduz no fato de que antigamente essa habilidade estava nas mãos dos artesãos. Hoje, segundo Pallasamaa, está na mão imaginária do arquiteto. A forma de recuperar essa intimidade perdida, acredita ele, é reduzindo as escalas dos edifícios. “Até os maiores imóveis podem ter escala pequena”, avalia.

Ante a observação de que soa como um nostálgico, Pallasamaa se defende de uma forma primorosa. “Não creio que admitir o lado melancólico e nostálgico da vida seja regressivo. Hoje ser melancólico é ser radical. Permitir que a morte esteja presente em nosso pensamento e em nossa cultura seria considerado radical, e não nostálgico”.

Não resta dúvida. A cultura globalizada institucionalizou o ideal de bem-estar e felicidade como fins únicos da vida. Mas quem está de todo satisfeito com seu estado atual não se move. Portanto, a melancolia é uma forma de ver as coisas sob outro ângulo, que não apenas o império da imagem, do “falar mais alto”, como disse Pallasmaa, e tentar mudá-las.

Num mundo em que tudo que é sólido se desmancha no ar, nada como um arquiteto com alma de poeta como Pallasmaa para nos mostrar a possibilidade de uma nova ética do lugar, dos espaços públicos, a possibilidade de uma vida menos asfixiante nas grandes cidades.

                                

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