|
Artigo
Um arquiteto dos
sentidos
Por
Paulo Lima
Foto Divulgação

Juhani Pallasmaa
é um arquiteto finlandês especializado em casas e museus. Mas não é isso
que o faz tão famoso, e sim suas posições humanistas. Em entrevista ao “Babelia”,
suplemento literário do jornal espanhol El País, Pallasmaa afirmou:
“A arquitetura de hoje não é para as pessoas”.
Alguma dúvida? Basta
olhar para os espigões que roçam os céus nas principais megalópoles do
planeta. Pallasmaa acaba de escrever o livro Los ojos de la piel em
que critica a arquitetura moderna por tentar impressionar apenas pelo
visual. Ele afirmou na entrevista: “A arquitetura atual tende a ser
retiniana, se dirige ao olho. É narcisista porque enfatiza o arquiteto, o
indivíduo. E é niilista porque não reforça as estruturas culturais, as
aniquila. Hoje os mesmos arquitetos constroem por todo o mundo, e os
mesmos edifícios estão por toda parte. Assim é difícil que a arquitetura
possa reforçar alguma cultura”.
Na prática, que
diferença faz se você está numa larga avenida de Tóquio, Nova York, Berlim
ou São Paulo? Tirando o apelo dos néons cintilando em cada idioma
particular (e talvez nem isso, já que em muitos lugares o que predomina
mesmo é o apelo das grandes corporações americanas), nada.
Para Pallasmaa, o fato
de que os edifícios sejam hoje produtos visuais se deve a uma
comercialização do mundo. “Tudo é negócio”, disse. E é também “resultado
da velocidade do mundo. E entra aí o excesso de informação. “Se você quer
conseguir atenção, tem que falar alto”, ironiza. Isso explicaria, para
Pallasmaa, o tipo de arquitetura que temos hoje, em contraposição às
catedrais, que também eram grandiosas. Elas “contrastavam com o mundo, mas
o convidavam a um encontro íntimo”.
O abandono dessa
“arquitetura dos sentidos”, que está na base das idéias de Pallasamaa, se
traduz no fato de que antigamente essa habilidade estava nas mãos dos
artesãos. Hoje, segundo Pallasamaa, está na mão imaginária do arquiteto. A
forma de recuperar essa intimidade perdida, acredita ele, é reduzindo as
escalas dos edifícios. “Até os maiores imóveis podem ter escala pequena”,
avalia.
Ante a observação de
que soa como um nostálgico, Pallasamaa se defende de uma forma primorosa.
“Não creio que admitir o lado melancólico e nostálgico da vida seja
regressivo. Hoje ser melancólico é ser radical. Permitir que a morte
esteja presente em nosso pensamento e em nossa cultura seria considerado
radical, e não nostálgico”.
Não resta dúvida. A
cultura globalizada institucionalizou o ideal de bem-estar e felicidade
como fins únicos da vida. Mas quem está de todo satisfeito com seu estado
atual não se move. Portanto, a melancolia é uma forma de ver as coisas sob
outro ângulo, que não apenas o império da imagem, do “falar mais alto”,
como disse Pallasmaa, e tentar mudá-las.
Num mundo em que tudo
que é sólido se desmancha no ar, nada como um arquiteto com alma de poeta
como Pallasmaa para nos mostrar a possibilidade de uma nova ética do
lugar, dos espaços públicos, a possibilidade de uma vida menos asfixiante
nas grandes cidades.
|