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Artigo
O olhar redentor
Por
Paulo Lima
“Não
sei por que vocês vivem fazendo tantas matérias com esses pobres, índios,
sem-terra, favelados, moradores da periferia, da Amazônia... Essa gente
toda nem lê o nosso jornal...”.
A
frase está no livro de memórias de Ricardo Kotscho, Do golpe ao
planalto – uma vida de repórter, e teria sido dita por Julio Neto, da
família Mesquita, dona do Estadao. Ainda bem que Kotscho nunca deu
ouvidos ao ex-patrão, e jamais desistiu de ir em frente como repórter.
Felizmente, enquanto houver jornalismo, haverá repórteres com um talento
singular para farejar histórias e contá-las, não importa se essas
histórias têm origem nas vidas sofridas dessa “gente que nem lê jornal”.
Pois é a esses repórteres que pertence o Olimpo da reportagem.

Exemplos de repórteres ainda dispostos a sujar o sapato não faltam, ainda
que possam ser enquadrados como espécie em extinção. E um bom exemplo do
que é capaz o poder do olhar e de um bom texto para que se possa tocar o
leitor está no livro A vida que ninguém vê (Arquipélago Editorial,
203 p. R$ 32,00), que acaba de chegar às livrarias.
Eliane Brum, a autora, é o que se pode chamar de repórter com maiúscula. A
rua e seus personagens, suas surpresas diárias, seus anti-heróis, é sua
matéria-prima. No livro, Eliane conta a história de pessoas normalmente
tidas como párias, ou invisíveis, numa linguagem mais moderninha, ou
não-incluídos socialmente, segundo o dicionário do politicamente correto.
É o mendigo que passa o dia inteiro deitado numa rua de Porto Alegre,
vendo a vida do rés-do-chão. Ou um pai que acaba de enterrar o filho
natimorto. Ou um louco da comunidade.
Esses são personagens que vemos no nosso cotidiano, mas fingimos que não
os vemos, ou somos levados a achar que sua condição é natural. No máximo,
estendemos a mão e derrubamos uma pequena esmola, se for o caso de um
mendigo. Mas Eliane é diferente. Ela tem a sensibilidade à flor da pele, e
entende que, para descobrir o tema de uma grande reportagem, basta mudar o
ângulo, o foco – ou, numa palavra, o olhar.

Os
textos de A vida que ninguém vê são crônicas que Eliane produziu e
foram publicadas pelo jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 1999. O
livro acabou valendo à repórter o Prêmio Esso de Jornalismo – Regional
Sul, daquele ano. Os textos são crônicas, mas podem ser lidos como
reportagens. Hoje as fronteiras entre os gêneros se confundem. E a própria
crônica é uma espécie de híbrido entre o jornalismo e a literatura. Mas o
fato é que as histórias que Eliane descobriu e contou com singularidade
jamais seriam narradas se ela tivesse permanecido numa redação, pendurada
num telefone ou observando o mundo por trás da tela de um computador – ou
seja, se não tivesse fugido do convencional.
Com 40 anos, gaúcha da pequena cidade de Ijuí, a própria Eliane fugiu do
convencional ao ser mãe aos 15 anos e deixar tudo para trás, inclusive a
filha pequena, que confiou à guarda dos avós, para conhecer a vida. “Eu
fugi de casa porque não queria casar e ficar em Ijuí. Sempre sonhei em
conhecer o mundo”.
Sempre navegando na contra-mão dos temas oficiais, do jornalismo de pompas
e circunstâncias, em 1993, aos 26 anos Eliane botou na cabeça que refaria
o percurso da Coluna Prestes. O tema já a interessava há muito tempo. Ela
viu, foi e venceu. Acabou contando a anti-história da célebre Coluna, pois
o que viu e narrou contradisse o véu de heroísmo e bravura que sempre
recobriu os feitos de Prestes e companheiros de aventura. A reportagem foi
publicada em 1994 com o título Coluna Prestes – O Avesso da Lenda,
dando a Eliane o prêmio Açorianos de Literatura, como autora revelação.
Essa foi apenas uma das reportagens singulares de Eliane. No texto “O
olhar insubordinado”, que encerra o livro, ela faz a sua profissão de fé,
o seu credo no que acredita ser o essencial para o trabalho de repórter -
ou o que ela prefere classificar como uma “campanha pela volta dos sapatos
sujos”. Algumas dessas pérolas:
“Quem consegue olhar para a própria vida com generosidade torna-se capaz
de alcançar a vida do outro”.
“Olhar é um exercício cotidiano de resistência”.
“Se o telefone e a Internet são invenções geniais, não há tecnologia capaz
de tornar obsoleto o encontro entre um repórter e seu personagem”.
“Esse olhar que olha para ver, que se recusa a ser enganado pela
banalidade e que desconfia do óbvio é o primeiro instrumento do trabalho
do repórter”.
“O
dito é, muitas vezes, tão importante quanto o não-dito, o que o
entrevistado deixa de dizer, o que omite. É preciso calar para ser capaz
de escutar o silêncio”.
“Olhar dá medo porque é risco”.
“Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, mas
com planilhas para preencher aspas predeterminadas”.
“Tudo o que somos de melhor é o resultado do espanto”.
“Por mais que você escolha não viver, a vida te agarra em alguma esquina.
O melhor é logo se lambuzar nela, enfiar o pé na jaca, enlamear os
sapatos”.
“Ser repórter é um dos grandes caminhos para entrar na vida
(principalmente na alheia) com os dois pés e com estilo”.
Um ser humano, qualquer um, é infinitamente mais complexo e fascinante do
que o mais celebrado herói”.
No livro, Eliane
Brum relata que, em janeiro deste ano, partiu para mais uma experiência
radical. Acompanhada do aventureiro brasileiro Toco Lenzi, percorreu a pé
centenas de quilômetros pelo deserto do Saara, tendo como ponto de partida
a Mauritânia. Foram 20 dias explorando uma realidade para a qual não fez
qualquer tipo de preparação, exceto umas caminhadas no Parque do
Ibirapuera, em São Paulo, cidade onde mora desde que foi trabalhar na
revista Época, em 2000. “Fiz o antijornalismo. Não li nada a
respeito da Mauritânia nem do deserto, nem sobre a sobrevivência no
deserto. Não planejei nada”. O objetivo era entregar-se a uma realidade
desconhecida sem pré-julgamentos, um exercício radical do olhar. A
experiência será transformada em livro.
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