Webjornal - Mensal  - Edição 96 - Aracaju, 10 de dezembro de 2006 a 07 de janeiro de 2007
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Artigo

O maestro e o apagão

Por Paulo Lima

Tom Jobim não foi somente um craque da canção, mas um frasista de mão cheia. Com seu amplo repertório de tiradas espirituosas, refletiu sobre os vícios da sociedade brasileira sem precisar ostentar pose de acadêmico. Atenção, editores: isso dá um livro. Tom Jobim de A a Z, este poderia ser o título. 

 

Tom era, como se diz, um connoisseur. Sobre floresta, bichos, pássaro e palavras ele era capaz de falar de tudo um pouco. Durante horas. Mais das vezes era a típica conversa jogada fora, para ser consumida e se esgotar nos limites de um botequim. Teria se perdido, como tudo o mais da nossa curta memória, não fossem os registros gravados das inúmeras entrevistas que ele concedeu pela vida afora.

 

Nestes tempos de apagão aéreo, lembro de uma frase de Tom Jobim. “A saída para o músico no Brasil é o aeroporto”. Que, por seu teor de crítica, deveria sempre vir junto com esta aqui: “O Brasil não é para iniciantes”.

 

Dá pra imaginar a cara do músico bossanovista diante do caos que se transformaram nossos aeroportos. Se nem por ali a partida, como pensou o compositor, está sendo fácil. Diante do entrevistador, Tom Jobim, charuto entre os dedos, rosto afogueado por generosas doses de uísque, talvez desse uma boa risada disso tudo e sentenciasse: o jeito é ir na braçada, atravessar a Baía de Guanabara no nado, ganhar o Atlântico e sumir no horizonte. Isso se o destino fosse a Europa. O rumo sendo os Estados Unidos, ele poderia sugerir um trajeto andino de bicicleta ou em lombo de burro.

 

Certa vez vi uma entrevista de Tom no Jô Onze e Meia. Bem no começo da conversa, ele reclamou em seu habitual tom jobiniano, sem indignação, mas com boas reservas de ironia: havia ido a São Paulo pro programa num vôo da Vasp. Na hora do lanche, a mesinha de bordo estava quebrada. Uma solícita passageira ao seu lado, talvez uma fã, pediu para segurar a bandeja.

 

As autoridades têm se pronunciado sobre o apagão aéreo. A mais recente intervenção partiu do presidente Lula. A crise acabou, disse ele. Mas as imagens dos aeroportos superlotados por causa dos atrasos o desmentem. A ministra Dilma Roussef disse que a crise é uma coisinha “assim”. Enquanto isso, a culpa é dos controladores de vôo. Os mordomos da história.

 

Que talento temos para empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Para adiar decisões. O apagão da aviação comercial é apenas um dos problemas que veio à tona por absoluta falta de investimento, de desorganização no setor. Foi preciso uma tragédia como a do Gol 1907 para revelar a verdadeira extensão do iceberg.

 

Tem uma foto famosa de Tom Jobim que mostra o maestro felicíssimo desembarcando no Rio de Janeiro, depois de uma temporada nos Estados Unidos. Tom gostava de dizer: viver nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom. Que maior declaração de amor um sujeito poderia fazer ao próprio país? “Minha alma canta, braços abertos sobre a Guanabara”, cantou ele. Se esse espírito pudesse impregnar os homens públicos deste país, estaríamos livres de tantos problemas.  

 

Tragam de volta o maestro.

                                

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