
Webjornal - Mensal - Edição
96 - Aracaju, 10 de dezembro de
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Artigo Por Paulo Lima Tom Jobim não foi somente um
craque da canção, mas um frasista de mão cheia. Com seu amplo repertório de
tiradas espirituosas, refletiu sobre os vícios da sociedade brasileira sem precisar
ostentar pose de acadêmico. Atenção, editores: isso dá um livro. Tom Jobim de A a Z, este poderia ser o
título. Tom
era, como se diz, um connoisseur.
Sobre floresta, bichos, pássaro e palavras ele era capaz de falar de tudo um
pouco. Durante horas. Mais das vezes era a típica conversa jogada fora, para
ser consumida e se esgotar nos limites de um botequim. Teria se perdido, como
tudo o mais da nossa curta memória, não fossem os registros gravados das
inúmeras entrevistas que ele concedeu pela vida afora. Nestes
tempos de apagão aéreo, lembro de uma frase de Tom Jobim. “A saída para o
músico no Brasil é o aeroporto”. Que, por seu teor de crítica, deveria sempre
vir junto com esta aqui: “O Brasil não é para iniciantes”. Dá pra imaginar
a cara do músico bossanovista diante do caos que se transformaram nossos
aeroportos. Se nem por ali a partida, como pensou o compositor, está sendo
fácil. Diante do entrevistador, Tom Jobim, charuto entre os dedos, rosto
afogueado por generosas doses de uísque, talvez desse uma boa risada disso
tudo e sentenciasse: o jeito é ir na braçada, atravessar a Baía de Guanabara
no nado, ganhar o Atlântico e sumir no horizonte. Isso se o destino fosse a
Europa. O rumo sendo os Estados Unidos, ele poderia sugerir um trajeto andino
de bicicleta ou em lombo de burro. Certa
vez vi uma entrevista de Tom no Jô Onze e Meia. Bem no começo da conversa,
ele reclamou em seu habitual tom jobiniano, sem indignação, mas com boas
reservas de ironia: havia ido a São Paulo pro programa num vôo da Vasp. Na
hora do lanche, a mesinha de bordo estava quebrada. Uma solícita passageira
ao seu lado, talvez uma fã, pediu para segurar a bandeja. As
autoridades têm se pronunciado sobre o apagão aéreo. A mais recente
intervenção partiu do presidente Lula. A crise acabou, disse ele. Mas as
imagens dos aeroportos superlotados por causa dos atrasos o desmentem. A
ministra Dilma Roussef disse que a crise é uma coisinha “assim”. Enquanto
isso, a culpa é dos controladores de vôo. Os mordomos da história. Que
talento temos para empurrar a sujeira para debaixo do tapete. Para adiar
decisões. O apagão da aviação comercial é apenas um dos problemas que veio à
tona por absoluta falta de investimento, de desorganização no setor. Foi
preciso uma tragédia como a do Gol 1907 para revelar a verdadeira extensão do
iceberg. Tem uma
foto famosa de Tom Jobim que mostra o maestro felicíssimo desembarcando no
Rio de Janeiro, depois de uma temporada nos Estados Unidos. Tom gostava de
dizer: viver nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma
merda, mas é bom. Que maior declaração de amor um sujeito poderia fazer ao
próprio país? “Minha alma canta, braços abertos sobre a Guanabara”, cantou
ele. Se esse espírito pudesse impregnar os homens públicos deste país,
estaríamos livres de tantos problemas.
Tragam
de volta o maestro. |
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