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Artigo
Traquitanas
Por Paulo Lima
Os velhos e bons silvícolas que habitavam o Brasil à época da chegada dos primeiros portugueses foram conquistados pelo colonizador com pequenas bugigangas: colares de vidros, espelhos, coisas assim.
Na era da ciência e da tecnologia, somos dominados pelas traquitanas eletrônicas que assolam o nosso cotidiano. Somos todos índios mesmerizados pelo novo e pelo brilho das teclas, luzes e botões. A rendição ao feitiço não é prerrogativa apenas do brasileiro, é uma marca dos tempos. Mas não deixa de ser típico dos povos que pegaram uma carona tardia no processo de globalização.
Uma simples estatística recém-divulgada ilustra a nossa rendição aos deuses velozes dos tempos modernos. O Brasil já possui 100 milhões de celulares ativos, para uma população de cerca de 160 milhões. É um número expressivo à beça. No universo dos penduricalhos sonoros, só deve perder para os aparelhos de TV, já que os radinhos de pilha, que tanto contribuíram para minimizar o nosso baby boom, especialmente no Nordeste, e substituídos pelos diminutos aparelhos de MP3, viraram peças de museu.
Está para ser gestado o tratado psicológico que explicará o furor com que as pessoas das mais diferentes idades empatam seu tempo à procura de um telefone celular. Dêem uma espiada nas sessões de eletrodomésticos dos shoppings ou em lojas de aparelhos eletrônicos. É lá onde se formam os aglomerados de seres extasiados com as últimas novidades. Novidades novidadeiras, que nunca param de se renovar. É a teoria schumpeteriana da “destruição criadora” levada ao paroxismo.
Aos leigos, explico. Joseph Schumpeter foi
um renomado economista austríaco que, entre outras coisas, afirmou que o sistema capitalista só era capaz de manter o fôlego graças à capacidade de criar novos produtos, destruindo os antigos. A novidade desses novos produtos pode ser um ínfimo detalhe capaz de atrair os olhares indígenas dos consumidores. Tipo um detalhe no design de um automóvel, ou o acréscimo de uma pequena função no celular. Chazam! Eis que o milagre se opera.
O cientista político Laymmert Garcia dos Santos escreveu tempos atrás um belo ensaio no qual defendia que o homem atual, por força da influência da tecnologia, já não poderia ser considerado igual ao seu par do século 19. Os nossos sentidos teriam sido transformados pela influência avassaladora dos néons, da velocidade, dos écrans luminosos etc.
Sinto-me
inclinado a concordar com o cientista. Hoje a visão que temos do mundo é sempre mediada de alguma forma. Ou pela televisão, ou pela Internet, ou pelo cinema, ou pela fotografia. Fala-se do turista que visita o Louvre de Paris, tira fotos da Monalisa e, no aconchego do lar, senta para usufruir o mistério e a beleza da obra-prima de Leonardo Da Vinci. A realidade é o que menos interessa.
Transformados
pela tecnologia, seduzidos pelo brilho dos espelhos e colares de vidro, nos deixamos relegar à condição de coisa. O homem-coisa. Ou, como escreveu Drummond, um poeta: somos a coisa, coisamente.
 
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