Webjornal - Mensal  - Edição 98 - Aracaju, 04 de fevereiro a 04 de março de 2007
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Artigo

É o circo de novo

Por Paulo Lima

Um brasileiro que voltasse ao seu país neste ano da graça de 2007, depois de um piquenique de uma década no espaço, ficaria obviamente confuso. Não pelas mudanças drásticas que sofreram as cidades, ou pela invasão da tecnologia no cotidiano. Mas pelo congelamento de algumas imagens no tempo. Uma delas: a presença de Paulo Maluf na cena política. A outra: a imagem de Collor mostrando um sorriso de satisfação pelo espaço reconquistado, agora como senador por Alagoas.

 

Um dublê de poeta e filósofo como Nietzsche daria de ombros e diria: é o eterno retorno de todas as coisas. Nada de novo no front. Nada de novo debaixo do sol. É assim que a banda toca, não importa se a vontade é ou não de potência. Se um super-homem vai ou não nos salvar. E vamos em frente.

 

Naturalmente que o turista do espaço, em seu amargo regresso, se sentiria menos confortável ao se deparar com a figura de um nouveaux político como Clodovil. Mas lembraria de estalo que o congresso já comportou personagens igualmente ímpares, em outros tempos. Ele não ficaria nem um pouco intrigado com a presença de um cantor como Frank Aguiar em meio aos tribunos. Afinal, por aquela casa, como gostam de falar os membros do congresso, já passaram gogós como os de Agnaldo Timóteo. Isso prova que, musicalmente falando, é bastante elástico e aceita qualquer gênero musical.

 

Rapidamente readaptado à dura realidade, o viajante buscaria mais informações. E descobriria que, enquanto esteve se divertindo com alienígenas de peles esverdeadas nas praias de areias escuras nos confins do espaço, Paulo Maluf havia passado uma temporada na cadeia. E que todos os brasileiros de bem julgavam que sua aventura política estaria definitivamente encerrada. Ledo engano.

 

Aboletado em frente a um televisor tela plana, celular colado ao ouvido, o nosso mochileiro das galáxias reconheceria outra figura já familiar de outros carnavais: Roberto Jefferson. A cena do impeachment de Collor voltou como num filme à sua memória. Então era dali, daquele infausto período da história republicana, que vinham suas lembranças. O fiel escudeiro da tropa de choque de Collor em confabulações animadas com o ex-patrão. Como se o tempo não tivesse passado.

 

Um pouco mais de pesquisa, leituras da Folha e similares, e o nosso brasileiro odisséia-no-espaço desencavaria coisas ainda mais esquisitas: o mensalão e seus personagens grotescos. E o pior do pior: estavam também eles todos de volta à ribalta política.

 

Ainda não refeito do susto e da decepção, o brasileiro olharia resignado desfilar na TV o festival de sorrisos, tapinhas nas costas e confraternizações dos novos tribunos.  “É o eterno retorno”, soprou-lhe um zombeteiro Nietzsche, enquanto cofiava os longos bigodes. “É o jogo democrático”, sussurraria Norberto Bobbio com aquele seu olhar de corvo agourento. Mas o brasileiro que acreditou encontrar um país melhorado na sua volta só conseguiu pensar: isso não passa de um picadeiro. É o circo de novo.

 

                               

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