
Webjornal - Quinzenal - Edição 62 - Aracaju, 15
a 29 de agosto de 2004
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Henri
Cartier-Bresson Para o Libération, Bresson representou o "espírito do momento decisivo". Nove entre dez grandes fotógrafos do mundo o elegeram como favorito. No Brasil, ele inspirou a trajetória de profissionais como o gaúcho Luiz Achutti Por
Paulo Lima
"Henri Cartier-Bresson está morto". A manchete do Nouvel Observateur de Paris traduzia, como nenhuma outra, o sentimento de incredulidade com que foi recebido o anúncio da morte do maior fotojornalista do século 20, aos 95 anos. O Libération se referiu a Bresson como o "espírito do instante decisivo". Considerado pai do fotojornalismo moderno, Cartier-Bresson fotografou guerras e o cotidiano mais simples, famosos e anônimos. Em 1947, criou a lendária Magnum, juntamente com Robert Capa, David Seymour e George Rodger. Era um grand voyageur. Suas viagens à China, Rússia, Índia e Estados Unidos lhe permitiram um registro grandioso das grandes transformações que marcaram o século passado. Fotografar para ele era alinhar numa mesma direção o olhar, a técnica e o coração. Numa entrevista concedida para um documentário da TV francesa, Bresson se autodenominou um pickpocket, um ladrão de imagens. Arredio, não se deixava fotografar com facilidade. Afirmava que não queria que fizessem com ele o que ele fizera com tantas pessoas. Favorito de nove entre dez bons fotógrafos, Cartier-Bresson deixou inúmeros discípulos. No Brasil, inspirou profissionais como o gaúcho Luiz Achutti. Como fotógrafo, Achutti já trabalhou para veículos da grande imprensa, como IstoÉ, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo. Professor de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1999, embarcou para Paris, como bolsista do CNPq, para fazer seu doutoramento em Etnografia, na Université Paris 7 Denis-Diderot, concluindo o curso em 2002. Na capital francesa, Achutti tenta se aproximar do ídolo Cartier-Bresson. Envia para o endereço do mestre um livro com suas fotos e uma carta.
Para sua surpresa, Achutti recebe, dias depois, a resposta: um cartão escrito de próprio punho com a letra tremida do mestre, e as palavras: "Com os meus agradecimentos pelo teu livro". No verso do cartão, uma imagem feita por Bresson, em que uma solitária bicicleta está recostada num outdoor publicitário mostrando o decote provocativo de uma modelo. Por e-mail, Achutti falou desse breve contato com Cartier-Bresson. *** Por que, morando em Paris, você não tentou visitar Cartier-Bresson? O Bresson era um dos poucos mitos que restaram na minha cabeça. A gente vai ficando velho, as utopias vão desmoronando e nós vamos perdendo os mitos. Eu sabia da fama do Bresson de não gostar de receber visitas. Pensei que ele tinha razão. Imaginei que se o Bresson tivesse que abrir a sua porta para cada Achutti da vida que passasse por Paris e quisesse vê-lo, sua vida seria um inferno. Então ousei apenas enviar-lhe uma carta e o meu álbum de fotografias. O que esperava ao enviar o seu livro para ele? O que sentiu ao receber o cartão de Bresson? No fundo eu tinha um desejo infantil que o Bresson gostasse de minhas fotos e ficasse disponível para um encontro pessoal. Já a minha mulher dizia que ele nem iria agradecer ou que mandaria uma secretária fazer isso. Uma semana depois, quando abri a caixa do correio, deparei-me contente com um cartão enviado por ele, logo percebi sua letra tremida e a caneta a pena que usava. E pensei, talvez se eu ligasse para ele ... Não ousei.
Para você, dentre as fotos de Bresson, qual a sua preferida? Tenho muitas fotos preferidas mas talvez seja mesmo aquela do menino da Rua Mouffetard carregando as garrafas de vinho. (Li que o Bresson procurou e encontrou , muitos anos depois, o menino que fotografara. O homem contou que na época ficou de castigo quando seus pais viram a foto, pois descobriram que ele fazia pequenos favores aos vizinhos em troca de moedas. Bresson, ao saber disto, para se redimir, mandou de presente ao homem, no dia do seu aniversário, duas garrafas de um bom e caro vinho francês). Também poderia citar aquela foto das prostitutas de Alicante arrumando cabelo e unhas. Qual a influência de Bresson sobre o seu trabalho? A primeira influência foi do meu avô que se chamava Bortolo Achutti, um bom fotógrafo que morreu sem conseguir ultrapassar as fronteiras de onde morava no interior do Rio Grande do Sul. Depois veio o Bresson que me fez seguir na fotografia, seus instantes e seu lirismo foram para mim decisivos. |
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