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perfil 100 anos de modernidade Burle Marx plantou jardins pelo mundo, valorizando a flora genuinamente brasileira
Por
Carlos Franco*
Quem chega ao Rio de Janeiro, desembarcando no aeroporto Santos Dumont, no centro da capital fluminense, tem o privilégio de uma das visões mais lindas entre todas as cidades do mundo: montanhas, mar e verde, muito verde, além de obras arquitetônicas de rara beleza, como o Outeiro da Glória, o Cristo Redentor (que lindo! cantou Tom Jobim), o Palácio Mourisco da Ilha Fiscal, o Museu da Imagem e do Som, o Paço Imperial, as catedrais Metropolitana e da Candelária e uma série de marcos do Império e da República, incluindo o Obelisco no qual Getúlio Vargas e suas tropas amarram os cavalos para conquistar, em 1930, o comando do País. Se o mesmo passageiro tomar a direção da Zona Sul da cidade, de carro, direção das famosas praias do Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon, seguirá invariavelmente pelo Aterro do Flamengo, privilégio ainda maior de visão.
Foi nessa área, onde está o maior jardim contínuo do mundo, que fez de Roberto Burle Marx um nome diretamente relacionado ao paisagismo e ao uso da rica fauna brasileira nos espaços públicos. É que antes dos anos 60 - o Aterro do Flamengo é de 1961 -, o que se usava nos espaços públicos eram árvores e arbustos exóticos à flora brasileira, especialmente os usados em jardins de Paris. Tanto que a própria Praça Paris, que integra o conjunto paisagístico do Aterro do Flamengo, tem seu traçado similar aos dos palácios franceses de Versalhes e das Tulherias - ala de acesso ao hoje Museu do Louvre.
O gosto desse paulista nascido na capital bandeirante em 4 de agosto de 1909 por plantas brasileiras surgiu, no entanto, na Alemanha. É que aos 19 anos, com problema de visão, a família decide buscar tratamento na Alemanha, onde moraria entre 1928 e 1929, e descobriria além da força e vigor de pintores como Picasso, Matisse, Paul Klee e Van Gogh, o Jardim Botânico de Berlim, apaixonando-se por estufa onde estava presente a vegetação brasileira, inclusive as bromélias, paixão da vida inteira de Burle Marx. Naquele ano, ele tomaria a decisão de aprender pintura, influenciado pelo que viu na fervilhante Europa dos anos 30, antes dos horrores do nazifascismo. Filho da pernambucana de origem francesa Cecília Burle e do judeu alemão Wilhelm Marx, Roberto Burle Marx contou com o apoio da família para seguir em frente. De volta ao Brasil, a família Burle Marx decide morar no Rio de Janeiro, no Leme. E como o destino tem suas façanhas, a casa que iriam ocupar era vizinha à do arquiteto e urbanista Lucio Costa, de quem irá se tornar amigo e discípulo e que dá apoio para o ingresso de Roberto Burle Marx na Escola Nacional de Belas Artes, hoje Escola e Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que ficava onde está hoje, em plena Avenida Rio Branco, o Museu de Belas Artes. Nessa época, Burle Marx toma contato com nomes que promoveriam o movimento de vanguarda da arquitetura e do design brasileiro, entre os quais Oscar Niemeyer e Cândido Portinari. Como não perdera o interesse por plantas, não foi de todo estranho que fosse convidado a desenhar o jardim do terraço do Palácio Gustavo Capanema, que abrigaria o Ministério da Educação e Cultura. O edifício, no centro do Rio de Janeiro, à Rua Araújo Porto Alegre, é um marco da arquitetura moderna. Projetado pelo francês Le Corbusier, contou com a parceria de Oscar Niemeyer e Cândido Portinari (que assina os seus azulejos) e com o jardim de Burle Marx. Por influência da mãe, nesse mesmo período Burle Marx assume o posto de diretor do Departamento de Parques e Jardins de Pernambuco. Lá faz uso da vegetação nativa e ganha projeção com o trabalho de paisagista, sem abandonar a pintura e escultura, as quais se dedicaria mais no final da vida. Da obra do Palácio Capanema aos jardins pernambucanos, Burle Marx começa a receber inúmeros convites até chegar ao Aterro do Flamengo. Com os proventos do trabalho, compra, em 1949, um sítio de 365 mil metros quadrados em Barra de Guaratiba, onde começa a cultivar plantas nativas e a acompanhar seu desenvolvimento. Floresce aí a sua paixão pelas bromélias, a flor-símbolo da resistente Mata Atlântica. O sítio, doado ao governo em 1985, é hoje o museu a céu aberto que carrega o seu nome. Até sua morte, em 5 de junho de 1994, esse cidadão do mundo, com visão à frente do seu tempo, constituiu um rico acervo de obras, que levam a assinatura do escritório Burle Marx & Cia Ltda, onde tinha como parceiro o arquiteto Haruyoshi Ono. Para comemorar o centenário de Burle Marx, o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, e que tem na sua frente jardins projetados por Burle Marx, abriga belíssima exposição com suas obras. Milú Villela, presidente do MAM, tem orgulho de apresentar aos olhos de hoje uma história rica em futuro, no momento em que as questões ligadas à sustentabilidade se tornaram mantra da vida moderna face aos problemas causados pelo aquecimento global, fruto do consumo irresponsável de bens naturais. Para Milú Villela, a exposição é "um marco de quanto é possível fazer para manter a flora brasileira para as próximas gerações". Os quadros na parede são, por sua vez, símbolo de uma era de descobertas e de influências de homens que por força dos pensamentos e atos promoveram a ruptura do antigo em busca de uma linguagem universal, posta que é simples, moderna, contemporânea. De assustadora contemporaneidade. Há 100 anos, nascia Burle Marx com a missão de prever os desafios dos próximos 100 anos. *Jornalista, Editor de Plurale em site e Plurale em revista. E-mail: carlosfranco@plurale.com.br Matéria publicada originalmente na edição 13 de Plurale em revista. |