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Literatura
Carola Saavedra
O prazer da criação literária
Trecho de
Toda Terça
-
Outro dia sonhei que atravessava o deserto do Atacama, horas e horas
atravessando o Atacama, ao meu lado no carro, dirigindo, alguém que eu não
conseguia reconhecer. Alguém que eu conhecia, eu tenho certeza, mas o rosto,
por mais que eu tentasse, o rosto era apenas um esboço, um borrão. Lembro
que eu não queria estar ali, eu queria qualquer outra coisa, sei lá, ir ao
cabeleireiro, ao cinema, mas por algum motivo eu estava ali, atravessando o
Atacama, e isso me desesperava.
- Te desesperava, mas por quê?
Otávio me olhava com interesse, aliás, nunca ninguém havia demonstrado tanto
interesse pelas minhas palavras como Otávio, para ele tudo meu era
importante, o que eu dizia, o que eu deixava de dizer, o que eu pensava, o
que eu deixava de pensar, o que eu gostava, o que eu não gostava, cada
gesto, cada detalhe. Tudo ele percebia, tudo ele ia guardando como se fossem
informações essenciais, indispensáveis. Sorte a minha ter encontrado um
homem assim, ainda por cima alto, bonito, jovem até, pelos meus cálculos não
mais que quarenta, quarenta e cinco anos. Vestia-se com elegância, uma
elegância blasé, eu diria, como se ser elegante fosse sua característica
mais natural, como se ser elegante fosse algo assim, inevitável. Otávio era
insuportavelmente elegante e parecia envolto numa aura de complacência e
serenidade, essa aura que carregam as pessoas que, mesmo nas piores
circunstâncias, permanecem impávidas, o mundo se desintegrando à sua volta,
e elas ali, impecáveis, como se tudo não passasse de uma leve brisa, do
vai-e-vem de um leque, algo que por um lado me atraía mas por outro me
intimidava. A verdade era que ele me intimidava, apesar do interesse, da
atenção ininterrupta que me dedicava, da sensação de que ele era a pessoa
mais importante da face da Terra. Apesar disso, apesar de tudo, Otávio me
intimidava. Talvez os seus cabelos bem penteados, suas roupas
recém-passadas, aquela maneira de sentar-se, tão correta e ao mesmo tempo
tão à vontade. Às vezes eu me pegava em estranhos exercícios mentais na
intenção de rebaixá-lo, de torná-lo um pouco mais acessível, mais real,
exercícios que consistiam basicamente em imaginá-lo em situações pouco
favoráveis ou até mesmo embaraçosas. O problema era que, antes mesmo que
essas imagens chegassem a se formar, vinham outras, muito mais poderosas,
que se sobrepunham, no melhor momento, ou, talvez, no pior momento,
intervalo, e novamente Otávio, perfeito, inabalável. Não tinha jeito, ao seu
lado eu sempre me sentiria inadequada, insignificante, uma coitadinha, como
se na presença de Otávio tudo aquilo que antes era bom se tornasse pouco: o
meu cabelo, o meu vestido, o cruzar das minhas pernas, tudo tão pequeno, tão
ridículo. Ah, Otávio era belo e inatingível.
- No que você está pensando, Laura?
- Em nada.
Otávio tinha os lábios um pouco ressecados aquele dia, pensei com certa
satisfação e ao mesmo tempo a expectativa do toque áspero dos lábios de
Otávio. Eu sempre tivera uma inexplicável predileção por lábios ressecados,
as pequenas rachaduras abertas na pele delicada, às vezes um gosto amargo
que se insinuava.
- Então, Laura, por que o desespero?
O desespero, pensei, já nem me lembrava mais do que estávamos falando. O
desespero. Peguei uma das almofadas espalhadas pelo sofá, coloquei-a no colo
e a segurei com força, como se a abraçasse. No rosto de Otávio o sorriso, a
certeza de ter me pego em flagrante. Devolvi a almofada ao seu lugar.
- Ah, já nem sei mais, acho que a idéia de atravessar o deserto me assusta.
Deve ser normal, não é?
- Claro, é normal.
- Mas não era só isso, o que mais me perturbava é que havia alguém ao meu
lado, alguém que dirigia o carro... - Desviei o olhar para o teto e fiquei
calada, como se estivesse ruminando alguma coisa.
Não sei por que eu gostava disso, de testar a paciência de Otávio, começava
a dizer algo e parava na metade, ficava ali, distraída, sem dizer nada, como
se de repente houvesse me lembrado de alguma coisa, de algo muito mais
importante, e esse era sempre o melhor momento, longos minutos em silêncio,
e Otávio ali, suspenso em minhas palavras. Eu olhava em volta, o relógio, os
móveis, a decoração da sala, tentando ganhar tempo, tentando estender esse
momento ao máximo, essa tensão que se instaurava, fazia de conta que ainda
estava pensando, buscando em algum lugar da memória a melhor imagem, as
palavras mais apropriadas. Enquanto isso, Otávio ali, os olhos fixos em mim,
esperando que eu finalmente completasse o que começara. Ele era um homem
paciente, mas de uma paciência bastante prática, e, como eu continuasse
muda, em algum momento ele retomava:
- E quem era esse alguém?
Ainda esperei alguns segundos, como se sua voz houvesse me retirado dos mais
profundos pensamentos, então respondi:
- Não sei, eu não conseguia ver o rosto, o rosto aparecia como num filme que
eu vi uma vez, no lugar dos olhos e da boca apenas a continuação da pele,
sabe o que eu quero dizer?
- Entendo, e essa pessoa era homem ou mulher?
- Também não sei.
- Faça um esforço, Laura, quem você acha que poderia ser?
Otávio me observava em silêncio, aquele silêncio dele que sempre me obriga a
dizer alguma coisa.
- Ah, eu não faço a menor idéia. Mas sabe o que mais?, vamos deixar esse
assunto pra lá, não quero mais falar nisso.
- Tem certeza?
- Absoluta.
Otávio fez uma pequena pausa, anotou qualquer coisa num caderninho e
continuou:
- Está certo, Laura, me conte então como foi a sua semana.
A minha semana tinha sido como eram todas as minhas semanas, ao menos nos
últimos três anos, dormira até tarde, acordara de mau humor, tomara banho,
bebera uma xícara de café, brincara com o gato. Dependendo do ânimo,
arrumava um pouco a casa ou ia à academia, quase sempre ligava a televisão,
às vezes só para ouvir o barulho indistinto da televisão, outras vezes eu
ficava ali, sentada no sofá, mudando de canal de dois em dois minutos, a
maioria dos programas eram para donas-de-casa e estudantes que não têm mais
o que fazer. Raramente ia à faculdade. A verdade é que, além da visita que
fazia a Otávio toda terça-feira, na maior parte das vezes não fazia nada.
Quando Júlio aparecia, o que acontecia cada vez com menos freqüência,
saíamos para jantar ou íamos ao cinema, dançar, eu nem sabia mais o que era.
Parecíamos um casal de meia-idade, só que eu não estava na meia-idade, e nem
sequer éramos um casal. Júlio era casado havia mais de vinte anos com a
mesma mulher, casara jovem, recém começando a faculdade. A mulher vinha de
uma família tradicional, muito dinheiro, casara grávida, logo depois viera o
segundo filho, e Júlio começara sua carreira de executivo no escritório de
advocacia do sogro. Júlio dizia que me amava, eu gostava dele, ou pelo menos
assim gostava de imaginar.
- A minha semana, sem novidades, o mesmo de sempre.
- E o que significa para você o mesmo de sempre?
- Que pergunta, Otávio, o mesmo de sempre é exatamente isso, o mesmo de
sempre, dormir, acordar, ir à faculdade.
- E você foi à faculdade?
- À faculdade, não, não fui, fiquei com preguiça, não sei, acho que é essa
chuva, quando chove eu fico sem vontade de sair de casa. O trânsito fica
horrível, a cidade, esse caos que está hoje, e além do mais eu acabo sempre
perdendo o guarda-chuva. Semana passada então, consegui perder quatro
guarda-chuvas, dá pra imaginar?, quatro guarda-chuvas numa semana, ainda bem
que eram daqueles de camelô, sabe?
Otávio me olha com jeito de quem vai fazer algum comentário, eu não deixo,
continuo falando.
- Estudei um pouco, não muito, o problema é que não consigo me concentrar
direito. Começo a ler cheia de ânimo, leio às vezes uma página inteira, duas
páginas, mas, quando vou ver, nem sei do que se trata, não sei mais o que
li. Sabe?, eu leio mas não leio, é como se as palavras não entrassem na
minha cabeça, como se eu estivesse lendo em japonês, sabe aqueles
desenhinhos?
- A falta de concentração não é um obstáculo intransponível, Laura, existem
técnicas simples capazes de atenuar esse problema.
Claro, técnicas, eu devia ter imaginado. Otávio adorava técnicas, fazia
parte da sua filosofia de vida. Técnicas para dormir, técnicas para acordar,
técnicas para lembrar, técnicas para esquecer, técnicas para ser feliz.
Enquanto ele me explicava a tal da técnica para se concentrar, eu pensava
que tinham se passado quase quarenta minutos e eu ainda não havia sequer
mencionado o assunto principal. Eram sempre assim, esses meus encontros com
Otávio, eu já saía de casa pensando em tudo aquilo que eu queria falar,
naquilo que eu tinha que dizer de qualquer jeito, às vezes até anotava num
pedaço de papel, e, ao chegar no prédio, já na portaria, a expectativa,
talvez um certo nervosismo, como se cada vez fosse a primeira vez, e, quando
ele abria a porta, um entusiasmo inexplicável e a folha de papel que ficava
esquecida na bolsa. Naquele dia, a mesma coisa, aquele pensamento o dia
inteiro, eu imaginando a melhor forma de contar para Otávio. É, porque a
questão nunca é o que a gente conta, mas a forma de contar, às vezes,
qualquer deslize, e pronto, botamos tudo a perder. Enquanto eu procurava a
melhor forma de começar, Otávio acabava de expor a sua técnica:
- Então é isso, Laura, tente fazer esses exercícios antes de começar a
estudar e depois me diga como foi.
- Tá certo - respondi, distraída.
Fiz uma pequena pausa, respirei fundo quase como se suspirasse, disse:
- Otávio, tem uma coisa importante que eu quero te dizer, já há algum tempo
que eu quero te contar, mas sei lá, a gente sempre acaba falando de outra
coisa.
- Claro, Laura, diga.
- Outro dia, acho que foi semana passada, foi, foi semana passada,
segunda-feira. Era de tarde, e eu pra variar estava em casa sem fazer nada.
Eu tinha tentado estudar, mas logo desisti, na televisão um programa sobre
origami, impossível, onde eu arranjaria paciência para dobrinhas de origami?
Bom, saí de casa sem saber muito bem para onde, fui até Ipanema, fiquei
dando voltas por Ipanema, depois peguei um táxi até Botafogo. No início eu
não sabia muito bem o que iria fazer em Botafogo, o motorista perguntou para
onde, e, como eu não sabia, disse qualquer coisa, Botafogo, muitas vezes
isso me acontece, alguém me faz uma pergunta e eu não sei o que responder,
mas, como é uma pergunta e tem alguém ali, esperando uma resposta, eu, por
educação, digo qualquer coisa. Talvez nem por educação, mas alguma coisa no
cérebro, alguma coisa que te obriga a responder qualquer coisa, você deve
saber.
Otávio fez que sim com a cabeça.
- Mas então, onde eu estava?
- Indo para Botafogo.
- Ah, pois é, acabou que eu saltei do táxi em plena Voluntários, naquele
tumulto da Voluntários, sabe?, eu tenho uma espécie de amor e ódio por
Botafogo, já te disse que morei lá?, toda a minha infância e adolescência. É
um bairro horrível, bairro de passagem como dizem, mas eu gosto, tenho um
carinho especial. Às vezes, passando por algumas ruas, é como se eu voltasse
no tempo, a Real Grandeza, você conhece a Real Grandeza? Passando por lá, o
prédio, a banca de jornal, é tão fácil lembrar como eu era, o que eu pensava
há dez, quinze anos. Bom, mas não era isso que eu queria te contar, o que eu
queria dizer é que, chegando lá, eu decidi ir ao cinema. Eu nem sabia o que
estava passando, mas qualquer filme estava bom. Otávio, você já foi ao
cinema sozinho alguma vez?
- Já, algumas vezes.
- Eu não, eu nunca tinha ido ao cinema sozinha antes, aliás, jamais uma
idéia dessas havia me passado pela cabeça, coisa mais sem graça ir ao cinema
sozinha, tem algo de triste, de deprimente, me lembra aqueles velhos que
morrem isolados em casa, em frente à televisão, morrem e ninguém percebe, só
cinco, dez anos depois, é que vão achar o esqueleto comido pelas traças, a
televisão ainda ligada, horrível. Bom, mas não era isso que eu queria dizer,
o que eu queria dizer era outra coisa. Logo que entrei na sala do cinema,
percebi que a maioria das pessoas estavam desacompanhadas, assim como eu,
estranho, não? Talvez estudantes, aposentados, donas-de-casa, não sei, me
deu uma aflição tão grande, não sei te explicar. Então, no cinema, quando
apagaram as luzes e começou o filme, aconteceu algo inesperado, eu e aquelas
pessoas sozinhas, era como se se estabelecesse entre nós uma espécie de
acordo silencioso, como se de repente soubéssemos algo de muito secreto um
do outro, algo totalmente íntimo, que ninguém deveria saber mas que naquele
momento não havia como disfarçar. Dá pra entender o que eu quero dizer?
- Acho que sim.
- O que eu quero dizer é que dois lugares à sua esquerda tem alguém sentado,
está escuro, você não tem como ver o rosto, nem sabe se é velho ou se é
jovem, mas há entre vocês um elo, e você sabe que ele sabe que você sabe. É
uma espécie de segredo, de tristeza compartilhada, é, acho que é isso que eu
queria dizer. Há muito tempo, eu li em algum lugar, num livro de auto-ajuda
eu acho, uma frase que dizia que amar é compartilhar a própria solidão, é
bonito, não é?!
- É, Laura, é bonito, mas talvez você estivesse apenas...
Otávio pretendia continuar a frase, mas eu o interrompi:
- E então eu ficava pensando que talvez aquilo fosse uma espécie de amor.
Você acha que eu poderia amar aquela pessoa desconhecida ao meu lado?
Otávio me olhou impaciente, irritado.
- É possível, porém seria uma idealização.
Uma idealização. Pronto, era sempre assim, sempre que eu queria dizer algo
importante, algo que realmente importava, Otávio vinha com teorias, Otávio
não queria ouvir a verdade, ele queria apenas o que ele queria.
- Por que uma idealização, que amor não é idealizado?
- É, o amor é muitas vezes uma idealização, mas existem formas de amor. O
amor por uma pessoa de carne e osso, que existe com seus defeitos e
qualidades, e o amor que você pode sentir pela humanidade, ou por um
desconhecido no cinema.
- Só que é bem mais fácil amar um desconhecido no cinema do que amar a
humanidade.
- Ah, com certeza. - E Otávio riu.
Eu gostava quando Otávio ria, não aquele sorriso de gesso que ele costumava
esboçar, como se tivesse acabado de sair de uma cirurgia plástica, mas um
riso de verdade, quase desprevenido. Eu comemorava internamente, tinha
vencido mais uma de nossas pequenas batalhas, pensava. Talvez Otávio, no
fundo, gostasse de mim, talvez até me achasse interessante, talvez, quem
sabe, houvesse uma chance, eu me entusiasmava com a possibilidade.
- Otávio?
- Sim.
No entanto, acabei dizendo qualquer coisa, o que primeiro me veio à cabeça.
- Otávio, você já idealizou alguém?
- Já. - A voz tentava parecer tranqüila, mas soava algo insegura,
possivelmente ele se arrependera da resposta. Tentou consertar: - É
provável, Laura, é provável. Mas voltemos ao que você estava falando, você
estava falando sobre o que aconteceu quando foi ao cinema semana passada,
continue.
Otávio mudara de assunto, claro, ele sempre mudava de assunto quando o
assunto era ele. Eu não consegui continuar, não depois daquela reação, era
tão fácil perder de um momento para outro tudo o que havíamos conseguido.
- Foi isso que eu acabei de te dizer, fui ao cinema sozinha, só isso.
- Tem certeza? Eu tive a impressão que você queria me dizer algo mais.
- Não, era só isso mesmo.
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