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Venezuelana
O vale-tudo de Chávez
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
De repente,
no programa de televisão, o Chávez começou a
esbravejar: “Covarde! Borracho!
Assessino!” e, na
seqüência, chamou quem ofendia para a briga... Bem, por um momento pensei
que estávamos em Brasília, mas o idioma era o espanhol...
Uai, mas essa seria uma fala característica do
Seu Madruga, ou do Seu Barriga, ou, até, do Kiko.
Só faltou falar: “Gentalha! Gentalha! Gentalha!”. Mas não era o sempiterno
programa humorístico infantil mexicano: era o presidente venezuelano
descarregando sua indignação contra o relatório dos EUA, que o considerou
um elemento desestabilizador na América do Sul: uma ameaça à democracia da
região... No ar, ao vivo e em cores ele chamou Bush para a briga!
Chamar para a
briga... Na Idade Média a “coisa” funcionava assim: quando dois reis
disputavam uma cidade ou propriedade, era promovida uma “justa” entre os
seus campeões. Quem vencesse selava o destino “divino” do objeto da
querela, e não se falava mais nisso, ao menos até o desafio seguinte.
Olha, até que a
idéia não é ruim; o Brasil se daria muito bem, se considerarmos a enorme
quantidade de lutadores de jiu-jitsu tupiniquins espalhados pelo planeta.
É isso aí: os destinos da humanidade seriam decididos em torneios de
“vale-tudo”! Mas, e se o campeão de uma das partes resolver usar o golpe
do “homem-bomba”? Não vai haver vencedor!
Caminho do diálogo
Por isso é que o
caminho do diálogo, da diplomacia e do consenso deve ser a primeira e, se
possível, a única opção; senão, teremos que chegar à triste conclusão de
que milênios de evolução intelectual não foram suficientes para nos livrar
da primitiva “lei do mais forte”.
Obviamente, Bush não
tomará conhecimento do desafio de seu desafeto. Deixará que outros setores
da “inteligência” dos EUA cuidem disso. No limite, talvez mande alguém
brigar em seu lugar, por terra, céu e mar... Ainda existe a possibilidade
do dirigente da maior economia mundial, da mais poderosa nação bélica do
mundo, com todos os seus artefatos nucleares (cuja única e “divina”
intenção é manter a paz no mundo), em sua resposta a
Chávez, cante com desdém pueril: “Eu tenho, você não tem!”.
De um lado e de
outro: é desse tipo de dirigentes que o mundo precisa? São eles que vão
assegurar a paz na terra no terceiro milênio?
A situação poderia
ser diferente se o interesse econômico fosse substituído por uma visão
humanística; mas, as posições dos EUA parecem bem claras (aliás, como a de
todas as potências que os antecederam): os acordos que eles assinam são
para os outros cumprirem; a paz que perseguem é a de
Wall Street; diplomacia praticada é a
do “é assim que eu quero!”; e senão for por bem, vai por mal...
Há que se romper com
esse paradigma de poder: intervencionista e violento, que tem sido
responsável por fome, medo e morte; mas, infelizmente, muitos governos se
rendem a ele, e muitos governantes se vendem a ele. Há os que se opõe, é
verdade; mas não é com fanatismo, bravatas e martírios, individuais ou
coletivos, que a ordem mundial será aprimorada. Falta-lhes pragmatismo. O
máximo que esses líderes carismáticos conseguem é colocar seus povos em
situação de risco (ora como aríetes, ora como escudos) pelo uso ilimitado
do populismo e da doutrinação, dois poderosos inibidores da racionalidade.
Discurso libertário
É difícil,
reconheço, romper com esse tipo de dominação, ou lutar contra um inimigo
que não se vê, ou do qual nem se desconfia. O discurso libertário inflama;
mas, normalmente, esconde o fascínio pelo poder, onde o bem do povo ocupa
o último lugar, a não ser nos discursos nacionalistas e religiosos. E há
tantos fatos e fatores obscuros no concerto das nações e na mente das
lideranças, que primeiras intenções sempre podem esconder segundas,
terceiras, quartas...
É verdade que o
Governo Bush, especialmente, tem se comportado, desde o primeiro mandato,
como uma “porta”! Mas, a postura do presidente venezuelano não parece ser
a melhor forma de abrí-la nem, tampouco, de
arrombá-la... Chávez ao menos foi prudente:
escolheu Bush para a sua “justa” político-pessoal. Imaginem se o desafio
fosse para o atual governador da Califórnia, Arnold
Schwarzeneeger?
Houve erro de ambas
as partes, e Chávez tem sua razão; mas, creio
que é de outro tipo de coragem que precisamos para abrir as portas de um
novo mundo!
*Escritor, engenheiro e professor universitário, autor do livro "Sobre
almas e pilhas"
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