Edição 130 - Aracaju, 25 de outubro a 22 de novembro de 2009
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  cinema
Os pássaros de Hitchcock
O verdadeiro terror do filme vinha da misoginia do diretor
 

Por Chico Lopes*

Uma boa coleção para cinéfilo que rola pelas livrarias, a preços acessíveis, é a de livros curtos sobre filmes clássicos chamada “ArteMídia”, da editora Rocco. Vários títulos atraentes, escritos por gente que ora é estudiosa específica do Cinema ora é apenas militante de outras áreas do conhecimento, mas com boa dose de cinefilia. Incluída no segundo caso está Camille Paglia. Ela escreveu um volume de grande interesse sobre “Os pássaros”, que nenhum apreciador de Hitchcock ou do melhor cinema que já foi feito pode deixar de lado.

O livro se chama apenas “Os pássaros” e nem precisava mais, trazendo na capa o cartaz original do filme, com os pássaros ameaçadores esvoaçando sobre uma mulher que grita histericamente. Como se trata de uma loura, pensa-se de cara que se trata da atriz principal do filme, Tippi Hedren, mas era outra, a venerada Jessica Tandy, na verdade já madura, intérprete da mãe possessiva do fraco e edipiano herói da história, vivido por Rod Taylor. Essa ambigüidade, presente já no cartaz, é uma das muitas que Paglia nos descobre e revela.

“Os pássaros” costuma desnortear o espectador comum de cinema, que implica até hoje com o final em aberto. Se não se vê o filme como uma especulação, uma fantasia poética, uma alegoria, tudo estará perdido, e, do jeito que as coisas andam, com a nivelação por baixo dos espectadores promovida por uma indústria que só quer saber de franquias e faturamento sem maiores disfarces, é duvidoso que a arte de Hitchcock que, sem deixar de ser comercial, jamais deixou de ser refinada, possa ser compreendida como algo em aberto: há uma exigência clara de primarismo e didatismo e enredos e idéias, hoje em dia. Paglia entendeu “Os pássaros” muito bem, com uma acuidade que poucos críticos normais especializados teriam, e o livro é uma festa em termos de informações sobre as filmagens, além de ser muito bem escrito.

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O levantamento documental de Paglia a respeito das filmagens é muito rico. Ela vai, por exemplo, até o exemplar de um jornal, Santa Cruz Sentinel, do interior da Califórnia que, em 18 de agosto de 1961, dois anos antes de o filme ser produzido, noticiou que “milhares de pardelas sujas de fuligem, recém-saídas de um banquete de anchovas e provenientes da baía de Monterey, chocaram-se durante a noite contra as enevoadas ares costeiras próximas a Santa Cruz. As gaivotas, migrando da Nova Zelândia e da América do Sul aos milhões, colidiram com carros e prédios, quebraram antenas de televisão e lâmpadas dos postes de luz, e tentaram entrar nas casas quando os moradores saíram correndo para investigar o barulho às três horas da manhã e recuaram imediatamente ao ver que os pássaros voavam na direção do raio de suas lanternas.” (Esta descrição impressiona ainda mais porque, para quem viu o filme, parece até pressagiar algumas cenas, literalmente; óbvio que o incidente chamou a atenção de Hitchcock. Também na mesma região onde as filmagens foram feitas, Hitchcock descobriu que corvos tinham atacado carneiros de alguns criadores, mirando diretamente os olhos. De modo que, embora fantasioso e especulativo, o filme não era tão despropositado ao postular uma agressividade inexplicável no comportamento de todas as aves do mundo).

Paglia fez outro levantamento: o da presença de pássaros em toda a filmografia do diretor, desde o período inglês – em “O marido era o culpado”, há um pássaro engaiolado muito saliente, em “Ladrão de casaca” há uma gaiola de periquitos ao lado de Hitchcock dentro de um ônibus onde Cary Grant toma assento, e em “Psicose”, além de empalhar pássaros, Norman Bates tem quadrinhos de pássaros tipicamente decorativos espalhados pela casa. O cuidado de Paglia com detalhes reveladores chega ao ponto de descobrir que o nome da heroína do filme, Marion Crane, é significativo, já que “Crane” significa “garça”). A explicação para o cacoete obsessivo de Hitchcock é que ele teria medo e aversão às aves, nem chegava perto, desde menino. Mas, como todo artista de gênio, e no caso, artista do Medo, elaborava seus temores obsessivos e os transfigurava em Beleza. 

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Paglia, como boa feminista, se interessa é pelo calvário vivido pela personagem principal do filme, Melanie Daniels, uma milionária frívola e mimada de San Francisco que se envolve na catástrofe por meramente flertar com um advogado charmoso que conhece numa loja que vende aves. Os dois entram num joguinho irônico de paquera, que acabará com ela como perdedora e, orgulhosa, inconformada com a esnobada que leva do homem, ela decide surpreendê-lo, levando de presente de aniversário para a sua irmãzinha, em Bodega Bay, um casal de periquitos engaiolados. Melanie acaba é levando o pânico à pequena cidade costeira com seu presentinho atrevido, mas Paglia acha muito glamouroso que a heroína tome a iniciativa de “caçar” o herói, penetrando em sua toca de leão, questionando a sua superioridade masculina. E ela, além disso, encontrará uma autêntica harpia pela frente: a mãe dele, perfeita Jocasta, ressentida, amarga, ciumenta do filho único, que ela não quererá entregar a uma forasteira bonita com maus antecedentes. Os olhares de Jessica Tandy para a forasteira são tão formidáveis, em sua eloqüência muda, que a gente chega à conclusão que só havia ela como atriz verdadeira, plena e sólida, no filme, visto que Hedren era uma iniciante, Suzanne Pleshette tinha um papel pequeno, Rod Taylor era um galã de talento menor (Cary Grant era quem Hitch queria para o papel, mas o ator estava já se aposentando) e, na ocasião em que o filme foi lançado, a história foi considerada medíocre, tendo alguns críticos esnobado o filme e achado que, tirando os pássaros, não havia nada nele que realmente interessasse.

Mas Paglia se detém mesmo é na questão das mulheres, nas quais vê o medo de Hitch à sua mãe e suas neuroses de puritano perverso, apavorado com a influência materna e fascinado por fêmeas atrevidas. Na misoginia do diretor e na sua história pessoal, Paglia pinça um dos muitos atrativos ambíguos que o filme oferece.

Nem é preciso lembrar, na obra do diretor, a onipresença das mães, começando pela mãe prototípica de Norman Bates em “Psicose” porque se pode pinçar muitas outras: aquela do nazista Sebastian (Claude Rains) no ninho de cascavéis incrustado no Rio de Janeiro onde a americana Alicia (Ingrid Bergman) terá que penetrar e sofrer um envenenamento em “Interlúdio”. Outro herói à sombra perigosa da mãe (Jessie Royce Landis) é o Roger Thornhill de Cary Grant em “Intriga internacional” (a relação tem algo de cômico, porque Royce Landis é abertamente debochada (já tinha feito uma mãe assim em “Ladrão de casaca”) e o curioso é que a atriz tinha quase a mesma idade de Grant quando o filme foi feito). O maravilhoso vilão vivido por Robert Walker em “Pacto sinistro” tem uma mãe patética, metida a pintora, que o sustenta em sua vadiagem e suas loucuras, e, além disso, Walker quer, naturalmente, eliminar o pai, rival óbvio.

O advogado de “Os pássaros”, Mitch (o nome é sintomático demais para que a associação com o diretor não seja feita), vive entre mulheres – a irmã menor (Veronica Cartwright) e a mãe. É uma situação estranha, porque há uma enorme diferença de idade entre esses irmãos e ambos parecem paralisados pela influência da mãe, aliás, viúva (e um retrato do pai na sala ocultará pássaros mortos, depois de um ataque). “Os pássaros” é pródigo em pequenos achados psicanalíticos desse tipo. Basta rever o filme, que de cada vez se revela mais rico, para os que sabem olhar. É também possível detectar um caso de amor meio latente entre a mãe e um fazendeiro, que ela irá descobrir depois com os olhos vazados pelos pássaros, numa cena realmente apavorante.

Tippi Hendren, a atriz que encarna Melanie, era uma modelo de anúncios de televisão que Hitch viu na telinha numa propaganda de refrigerante, achou bonita e modelou para a produção. Tippi padeceu com a rejeição da crítica, mas sofreu ainda mais foi com sadismo sonso de Hitchcock, que a expunha aos pássaros, em cenas torturantes, numa das quais foi até realmente bicada. Aliás, nada é mais erótico – e descaradamente fálico – que os biquinhos ávidos daquelas gaivotas sobre as suas belas pernas. Mesmo quem achou as cenas violentas e assustadoras não pôde deixar de sentir o glamour erótico que transmitiam.

Paglia assume a defesa de Tippi de uma maneira muito digna e nos faz ver o avesso das filmagens. Tippi resistiu às torturas, não se deixou intimidar pelo Mestre. E, em 1964, filmou com ele o que é geralmente considerado o último grande filme do diretor: “Marnie – Confissões de uma ladra”. As filmagens foram muito problemáticas, porque Hitch estaria apaixonado por ela, mas era um caso de amor unilateral: ela uma vez teria reagido mal a seus assédios, chamando-o de “gordo”, o que o deixara mortalmente ofendido. “Marnie”, não foi um grande sucesso e assinalou o fim da relação do diretor com a estrela. Mas Paglia, ao final do livro, depois de contar tudo isso (e muito mais) com sua malícia penetrante, conclui que Tippi foi a grande vencedora do embate, sendo independente e incontrolável como era.

“Os pássaros”, em termos de trucagem, envelheceu (há quem ria das óbvias “back projections” das aves perseguindo as crianças à saída da escola, por exemplo). Mas o filme possui uma estranha força que não consiste em efeitos especiais de primeira, que o faz resistir ao tempo e ser até hoje muito imitado por produções comerciais às vezes francamente estúpidas (houve até quem fizesse uma sequência, com a própria Hedren já envelhecida. É, aliás, assustador saber que já pensam, em Hollywood, num remake do filme, com Naomi Watts no papel que foi de Tippi Hendren). E “Marnie”, mal acolhido em sua época, é hoje em dia avaliado com justiça, havendo até quem o considere uma obra-prima.

Vale ler o livrinho de Paglia, que faz um “making of” detalhado e fascinante dos bastidores da produção. São 130 páginas cujo interesse nunca decai.

*Escritor , autor de Nó de sombras e Dobras da noite, contos (IMS-SP, 2000 e 2004) e crítico de cinema do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, MG. E-mail:  franlopes54@terra.com.br Texto originalmente publicado no site Cronópios.