|
|
|
|
|
livros Uma flor de obsessão Memórias de Nelson Rodrigues mantêm qualidade literária do autor
Por
Chico Lopes*
Nelson Rodrigues, que se definia como “uma flor de obsessão”, não poderia ter deixado de incursionar pelo gênero memórias, tão atraído era pela confissão e tão marcado era pela transformação das idiossincrasias pessoais em imagem pública. Ruy Castro, que escreveu a sua biografia, “O anjo pornográfico”, organizou toda a obra literária de Nelson para a Companhia das Letras, e comprei alguns dos exemplares que me atraíram mais. Foi assim com memórias de A menina sem estrela. A gênese do livro é esta: Nelson fora convidado para escrever suas memórias no Correio da Manhã do Rio em 1967, e o título A menina sem estrela era, na verdade, o subtítulo de “Memórias de Nelson Rodrigues”. Planejava dois volumes, mas só saiu um, com 39 capítulos descosturados do ponto de vista cronológico, com o dramaturgo e escritor escrevendo como queria, ao sabor de suas evocações e devaneios, que incluíam atualidades (agora anacrônicas, claro) com aquelas farpas habituais em direção aos seus eternos desafetos. Entre essas, é curioso destacar que, sempre corajoso em suas opiniões, predileções e aversões, Nelson não teve complacência nem com Carlos Drummond de Andrade que, por ocasião da morte trágica de um irmão seu, numa daquelas tempestades causadoras de enchentes que continuam a fazer vítimas no Rio (e em todo Brasil, e parece que isso nunca acabará), não escreveu nada de explosivamente emotivo, como Nelson esperava. Bastou para ele dizer que o poeta tinha “uma aridez de três desertos”. Na verdade, o passional e destemperado Nelson jamais entenderia alguém como o contido Drummond. * * * Não sei quanto ao leitor, mas confesso que tenho sempre um “pé atrás” com o gênero memória, ainda mais quando escritas por algum escritor que a gente aprendeu a admirar na ficção. Dona Vaidade, rainha do meio literário, dá as suas caras pomposas e deformadoras com frequência funesta nessas ocasiões. Não consigo me esquecer da decepção que tive com Palimpsesto, de Gore Vidal, escritor cuja verve e ironia eu admirava. Suas memórias, nesse livro, fizeram com que eu nunca mais quisesse saber dele. São uma contínua exaltação de seu próprio ego, seu esnobismo, suas amizades com altas personalidades da política e da vida social americana, e ele diz pouca coisa reveladora em relação à sua literatura. Na verdade, o personalismo desenfreado do livro deixa claro por que já se suspeitava que ele não fosse um grande escritor e sim uma personalidade, mais que nada. Mas ele se dá ao trabalho mesquinho de criticar escritores muito superiores a ele como Truman Capote e E.M Forster, e isso é imperdoável. Capote escreveu obras-primas como A sangue frio, era mesmo um “língua preta” e mantinha com ele uma polêmica antiga e incessante, de modo que seu ataque é previsível, mas ainda assim parece ressentimento raso, e atacar o aparentemente muito tímido britânico Forster pareceu baixeza. Creio que nada incomoda mais um escritor vaidoso do que a certeza íntima de que não é tão grande escritor assim e de que certas comparações com certas figuras fatalmente o invalidarão. Isso acaba ficando mais evidente em suas memórias do que em sua ficção, e colabora muito para atrair antipatias definitivas. Felizmente, isso não acontece no livro de Nelson, que nos parece sempre sincero e até mesmo desarmado na revelação de suas contradições óbvias. Mas o que interessa de fato é a qualidade literária, e A menina sem estrela tem um interesse pungente. Apesar de os bordões anti-Alceu Amoroso Lima, anti-nudez, anti-tal e qual coisa, há muita qualidade na prosa ressentida, sem grilos com a adjetivação e a hipérbole, desabusada e cronicamente pessimista, fatalista, melancólica, se fazem presentes. É muito interessante o episódio da vizinha louca que Nelson viu nua e cuja nudez o fez tão inclinado à defesa do pudor e das mulheres recatadas pelo resto da vida. O leitor fica com a lembrança nítida da louca, acuada e nua, sendo olhada por um menino que carregava todos os condicionamentos moralistas de sua época e que vê pela primeira vez um espetáculo muito desejado por todo de uma maneira pouco comum, convenhamos: a idéia de iniciação aos mistérios da nudez feminina, nesses casos, costuma envolver deslumbramento para a maioria dos homens, mas, para Nelson, foi um momento embaraçoso e cru. Donde a sua forte originalidade. A história que dá título ao livro é comovente e não dá para ser esquecida de modo algum. Fala da filha de Nelson, Daniela. Ele começa o capítulo à sua maneira descosida, devaneando sobre um grupo de cegos que tocava violino em frente à sua casa na infância. Nelson teve a impressão de que aquilo era vaticínio horrível e que ele acabaria cego, o que o horrorizava a ponto de preferir o suicídio. Não se espera o desfecho: que a cegueira atingirá não a ele, mas a sua filhinha. Ela nasce para não ver. É doloroso e assustador. Como se a idéia do vaticínio se cumprisse de maneira ainda mais dolorosa e como se um fatalista pressagiando catástrofes tivesse lá seu tanto de razão, porque veria seu fatalismo confirmado, cedo ou tarde, ainda que de maneiras um pouco indiretas, mas não menos cruéis. A condenação era certa, só não se sabia quem a receberia. Este capítulo é merecidamente louvado por Ruy Castro e, de fato, pode passar por uma das melhores páginas menos conhecidas da literatura brasileira. Em seu conjunto, o livro é menos das memórias de um escritor do que uma sucessão de crônicas confessionais. Como vida e obra em Nelson se confundiam de maneira tão próxima, parecia até desnecessário que ele tivesse escrito suas memórias. Mas muito se percebe e se aprende nelas, ainda que tivessem uma forma aleatória e talvez fossem só o começo de algo maior que não foi concluído. Vale conhecer este volume. *Escritor , autor de Nó de sombras e Dobras da noite, contos (IMS-SP, 2000 e 2004) e crítico de cinema do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, MG. E-mail: franlopes54@terra.com.br Texto originalmente publicado no site Verbo21. |