Edição 137 - Aracaju, 16 de maio a 13 de junho de 2010
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  ensaio
Entre a nobreza e o desdém
O livro policial ultrapassa os clichês do gênero

Por Chico Lopes*
Foto Divulgação

Um tanto da melhor literatura de nosso tempo acontece fora e longe daquilo que, com pedantismo, nos é recomendado pelos críticos de suplementos literários. Por vezes, bons e mesmo ótimos livros estrangeiros andam ocultos sob rótulos de coleções comerciais, e, com aquelas caras convencionais de candidatos a best-sellers, despertam aversão em leitores mais refinados – mas estes, sabemos, também são presas para a armadilha da crítica pedante e deveriam aprender a não se impressionar tanto com os modismos de certas faixas mais intelectualizadas. 

Porque um leitor apaixonado deve, acima de tudo, deixar-se guiar por sua intuição, nesse emaranhado de títulos que nos deixam aturdidos nas livrarias. Não que não vá errar – mas, se for fiel mais àquilo que realmente o emociona, terá mais chances de acertar. É preciso ter a coragem de ter um gosto, ainda que este destoe do que é esperado, seja por influência de grupos intelectualizados, seja por determinação do universo ideológico da crítica de jornais e revistas, que muitas vezes mata toda a espontaneidade na escolha de um livro nas prateleiras. 

O que se convencionou chamar de “livro policial” é, em geral, desdenhável, porque, produzido em ritmo industrial, não tem outra ambição além de ser entretenimento passageiro e competente. É uma velha discussão, esta, mas vale sempre voltar a ela e reafirmar: entretenimento pode ser arte, e arte a mais fina. Na Inglaterra, terra natal de grandes escritores do gênero, nunca se achou que literatura policial fosse coisa inferior. Os ingleses dão a lição, com um refinamento de outra espécie – acham, sensatamente, que qualquer tipo de literatura é válido, desde que produza entretenimento civilizado.  

Deve ser esta a atitude mais sábia a tomar: não considerar que tudo que venha como produto abertamente comercial seja de uma vulgaridade total, nem supor que tudo que venha embrulhado com fita dourada de louvor acadêmico e abençoado pela difícil complacência de críticos cheios de aleatórios caprichos pessoais seja o melhor do melhor. O gênero policial pode trafegar problematicamente entre a nobreza e a avacalhação, mas não pode ser desprezado de modo algum. Afinal, todos os gêneros trafegam é nessa via, e são salvos é pelos talentos individuais. 

Autores de “Um corpo que cai” fazem sistematização 

Pouca gente conhece a dupla Pierre Bouleau e Thomas Narcejac, que assina Bouleau–Narcejac, como autores de livros policiais, e, não fosse por dois de seus livros terem ficado famosíssimos como filmes de suspense clássicos, “As diabólicas”, de Clouzot, e “Um corpo que cai”, de Hitchcock, permaneceriam no limbo dos autores policiais franceses lidos, mas pouco lembrados no Brasil. E, no entanto, por algum milagre editorial desses que às vezes ocorrem no país, há um livro deles entre nós fundamental para se entender o gênero, que hoje em dia é item de sebo: O romance policial, pela editora Ática, 96 páginas, de 1991, tradução de Valter Kehdi. 

Creio que todo mundo deveria conhecer a inteligente sistematização que Boileau-Narcejac fazem, nesse volume indispensável, dos subgêneros dentro do gênero policial, começando pelo policial mais clássico possível, o de detecção e investigação, que teve origem em Edgar Allan Poe e Conan Doyle, até chegar aos híbridos e marginais de nossos tempos, e, dentro deles, destacando Patricia Highsmith, cujos livros só parecem policiais para quem não os lê com atenção, visto que o que interessa a ela está longe de ser o “quem matou?”. 

Há vários livros de Boileau-Narcejac em catálogo no país, em edições pocket, mas, por alguma razão, não foi publicado o D’entre les morts, história que deu origem a “Um corpo que cai” e que, compreensivelmente, dado o prestígio eterno deste clássico de Hitchcock, deve ser muito procurado pelos estudiosos. Na verdade, porém, a crer no que ficou dito por François Truffaut em seu livro de entrevistas com Hitchcock, a dupla escreveu a história já em função do sucesso de “As diabólicas”, de Clouzot, que despertou interesse no Mestre do Suspense, em meados dos anos 50.  

Foi um cálculo comercial e artístico bem feito de Pierre e Thomas, porque Hitchcock se interessou pelo livro e comprou os direitos de imediato para filmar tudo aquilo em San Francisco, fazendo o que todo mundo conhece. E, no entanto, é bem possível que tenha transformado tudo consideravelmente, em função de suas obsessões. Porque a trama, pelo que se percebe do filme, é um tanto cerebral e artificial demais, e só é salva na produção pelo imenso talento do diretor em construir outra coisa a partir dela: um estudo sobre as aparências, as ilusões amorosas, o desejo e a morte.  

A julgar por D’entre les morts e “As diabólicas”, e mais por “As lobas”, outro dos livros de Boileau-Narcejac, eles tinham preferência por confusões de identidade e mulheres um tanto quanto misteriosas, perversas e sedutoras, mas num registro psicologicamente mais minucioso (embora não menos desconfiado ou, para outros, misógino) da “femme fatale”.  

Quem quiser conhecer “As diabólicas”, disporá do livro e do filme, que estão no mercado brasileiro. O filme de Clouzot, louvado por ser um dos marcos do cinema de suspense, parece um pouco envelhecido hoje em dia, embora tenha Simone Signoret e Vera Clouzot em excelentes interpretações. Acontece que o gênero já rendeu tantos sustos e explorações, e dele foram feitas variações infindáveis, que a produção padece de previsibilidade, até porque foi mal e porcamente refeita nos Estados Unidos num filme fracassado com Isabelle Adjani e Sharon Stone. 

Talvez Boileau-Narcejac sejam menos marcantes pela sua ficção do que por esse livrinho da Ática, que organiza a história do romance policial de maneira muito coerente e agradável, com o famoso gosto francês pela ordem e a racionalidade. Eles estabelecem classificações como “O romance de pura detecção”, “O romance-jogo”, “O romance do criminoso”, “O romance da vítima”, falando do suspense, do “noir” e de tudo que envolve o gênero. Um bom capítulo é o dedicado a William Irish, ou, melhor dizendo, Cornell Woolrich, que escreveu Janela indiscreta, A noiva estava de preto e outros romances engenhosos e angustiantes adaptados com sucesso pelo cinema. Mas, diante de alguém como Patricia Highsmith, Boileau e Narcejac mostram certa hesitação preconceituosa talvez, como se ela pertencesse mesmo já a um outro universo, que talvez nem os agradasse tanto. 

Quelonofobia 

Boileau e Narcejac vão só até certa altura da história do gênero. Casos mais recentes são os de Ruth Rendell, P.D James e outros escritores ingleses e franceses que vêm saindo no Brasil. Ruth Rendell tem vários títulos publicados no Brasil, e creio que um dos mais recentes é Vamos passear no bosque, romance publicado pela Rocco. Consultando seu nome na Internet, vai-se descobrir que ela tem muitos livros publicados que nunca foram traduzidos por aqui. Mas, dos que foram traduzidos, me lembro de quatro particularmente bons e reveladores, que li com um prazer parecido ao que me dão livros de escritores reconhecidamente de primeira: Carne viva, Não fale com estranhos e Feitiço mortal e Um criminoso entre nós. Destes, o melhor é Carne viva.  

O personagem principal de Carne viva é um psicótico, Victor Jenner, que tem uma fobia rara: ele não pode ver tartarugas. Chama-se “quelonofobia”, a coisa, e nesse Carne viva foi que soube da existência dela. Mesmo não sentindo o pânico de Jenner, dá para entender o que o espanta: aquela cabecinha saindo daquele casco sugere de fato alguma coisa repulsiva, com um toque de obscenidade até óbvio. Não importa. Importa o que vai pela cabeça atormentada de Jenner, e nisso Rendell se esmera, jogando-nos no interior do personagem e obrigando-nos a conviver com ele sem um julgamento moral rígido. Nesse aspecto, na descrição objetiva de uma psicopatologia, dentro de um quadro narrativo bem organizado, puxando a empatia do leitor, Rendell se parece com a grande Patricia Highsmith.  

Victor Jenner, culpado de estupros, é pego numa emboscada engendrada pela polícia, acaba atirando num policial e o invalida. Vai para a cadeia, mas, sujeito bem-comportado (pode-se imaginar), ganha uma condicional, e se debate à procura do que fazer de sua vida destruída numa Londres contemporânea afetada pelo desemprego. À deriva e em franca deterioração, numa situação quase típica do realismo contemporâneo que pinça seus personagens em cenários metropolitanos de pura desolação, ele vaga entre personagens comuns que, se não são criminosos à maneira dele, com passagem pela cadeia, não deixam de ser desumanos, de uma desumanidade banal que por vezes assusta muito mais, já que essa desumanidade se mimetiza facilmente dentro dos chamados “padrões de normalidade”. Exemplo disso é a tia de quem ele tenta se aproximar, que vive sozinha, implacavelmente egoísta, sovina e cheia de manias. Outros personagens se parecem um pouco com algum vizinho que você suspeita seja meio monstruoso, mas que nunca irá para um hospício, pois não carrega os sinais de uma loucura que a sociedade considere realmente perigosa.  

A loucura, na verdade, começa quando há uma ruptura muito drástica e visível com as aparências e os preconceitos. As pessoas apáticas, afáveis, automatizadas, convencionais – mortas, em resumo – podem abrigar muito bem a sua psicose, que ninguém suspeitará. A sociedade só chega a considerar louco quem ultrapassa certos limites bem definidos. Comparado a esses personagens, sofrendo com a tia odienta, Victor começa a despertar nossa piedade, porque nos parece muito mais humano, mas é preciso sentir medo dele também, pelas razões que Rendell sutilmente vai tramando. O tiro com que invalidou o policial foi desferido porque este simplesmente o provocou, tentou diminuir sua masculinidade achando-o incapaz de atirar.  

O mais patético dessa história é a sua conseqüência: Victor procura o policial que vitimou e, encontrando-o, adota-o como uma espécie de pai, acabando por ir para a cama com a sua namorada, que, claro, não pode esperar do policial, inválido, satisfações mais que platônicas. Há aí uma fantasia de compensação freudiana – masculinidades que entraram em choque, um falo vencedor, que ganha a mulher (a mãe) da figura de autoridade do policial e rival, sucedâneo óbvio do pai, segundo a triangulação edipiana. Naturalmente, pela associação óbvia da quelonofobia, pode-se deduzir em Jenner um complexo de castração muito acentuado. 

Um filme que não tem nada a ver com isso 

Se essa história lhe fez lembrar vagamente alguma outra, algum filme, você está certo: ela foi ponto de partida para um filme famoso de Pedro Almodóvar, “Carne trêmula”, realizado em 1998. O filme foi muito apreciado pela crítica, mas, certamente quem o viu e gostou muito não tinha lido o livro que lhe deu origem. A história de Rendell foi consideravelmente mudada por Almodóvar em função das suas obsessões pessoais e, deslocada para Madri, não faz o mesmo sentido, pois o mundo de Rendell é visceralmente inglês, de uma desolação fria que não combina com o que conhecemos ou imaginamos da ardente e “movida” capital espanhola. Almodóvar tampouco respeitou o enredo, e, francamente, quem primeiro passou pelo livro de Rendell e depois viu o filme, ficará surpreso com as diferenças profundas. Almodóvar faz Almodóvares – é sua grandeza e sua limitação. 

O livro seria melhor adaptado por Hitchcock, se vivo fosse, ou algum diretor da linha de Hitchcock, talvez Claude Chabrol. Chabrol, aliás, adaptou outro livro de Rendell, “Um criminoso entre nós”, como “Mulheres diabólicas”, que resultou num de seus melhores e mais refinados filmes. Isabelle Huppert e Sandrine Bonnaire fazem nele uma dupla feminina de arrepiar, literalmente. Bonnaire é uma analfabeta que se emprega numa família burguesa, dada a óperas e outros símbolos da alta cultura, e tenta esconder que não sabe ler, com a ajuda da ressentida e vulgar funcionária dos correios que xereta a vida da família pelas cartas e forma com ela uma dupla vingativa que chegará a extremos. Isabelle Huppert, nesse filme, dá um show de frieza e maquiavelismo. É um filme com tudo de Chabrol, mas não trai o espírito do livro original de Rendell. 

Carne viva, o livro, tem mesmo uma cara de argumento para filmes voltados para a psicopatologia, mas, trabalhada por diretores mais sutis e afinados com os temas do mundo do crime. Na verdade, inscreve-se na tradição dos livros que nascem com uma cara de facilmente adaptáveis para o cinema. Muita gente critica essa facilidade, achando-a mais uma armadilha da indústria editorial, e, realmente, há no mercado escritores que nem de longe podem ser considerados escritores – seriam antes produtores de textos provocativos que parecem sementes ou derivados de algum filme comercial de maior ou menor sucesso.  

Não é o caso de Ruth Rendell, porém. Ela é prolífica, mas isso se deve ao fato de escrever na Inglaterra, onde a literatura policial é de fato uma coisa profissional; sua categoria é bem outra. Ser comercial não é, necessariamente, ser raso. Significa produzir bastante, correndo o risco de não ser qualitativo sempre (e quem o é?). Por isso, o profissionalismo literário é mal compreendido entre nós, e o autor que está voltado para o mercado, em geral, é estigmatizado, como se lhe faltasse a dose necessária de “transgressão”. Naturalmente, há muito filisteísmo e muito livro ruim produzido pelo mercado, como sabemos, mas há também muita pose e muito autor capenga nas sendas da “transgressão”. A realidade é feita de matizes bem mais irônicos do que parecem. Quem deve reinar é a Literatura, não a pretensa “vida literária” dos botecos e afins, com seus personalismos, grupelhos intolerantes e congêneres. 

O triângulo de Carne viva, formado por Victor, o policial inválido e sua namorada, é dos mais estranhos já engendrados pela literatura, e tem aquele tipo de singularidade visceral que nos dá a certeza de estarmos bem perto da realidade. Trechos finais, quando o psicótico, ferido, e, sem saber, contaminado por tétano, procura carne de mulher num parque para estuprar e acalmar outra vez seu inextinguível tormento, fazem pensar mesmo é em obras de arte literária superior, algo do reino dostoievskiano. Onde foi que o filme de Almodóvar deu conta disso? Nem de longe, infelizmente.  

Só uma obra de arte nos deixa assim, com a impressão de que estivemos, no tempo em que mergulhamos nela, em contato com a realidade mais íntima e infernal de outro ser humano. O livro de Rendell deverá durar em interesse muito mais que livros que ganham concursos literários ou são freneticamente bajulados, mas não resistem a uma releitura. E que não são “policiais” porque, na verdade, não são nada.

*Escritor , autor de Nó de sombras e Dobras da noite, contos (IMS-SP, 2000 e 2004) e crítico de cinema do Instituto Moreira Salles de Poços de Caldas, MG. E-mail:  franlopes54@terra.com.br Texto originalmente publicado na revista Verbo21.