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Cinema
Se eu fosse você
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
O cinema brasileiro vive de altos e baixos, mais baixos do que
altos.
Teve seu auge humorístico com as chanchadas da Atlântida e as comédias de
Mazzaroppi; e seu ápice dramático com as produções da Vera Cruz. Sempre
mostrou, no entanto, muita irregularidade nos elencos, onde os
coadjuvantes “engoliam” os protagonistas, quase sempre canastrões e sem
glamour...
Os
anos de 1960 trouxeram o “Cinema Novo”, com temas contemporâneos e nudez
“artística”, com perfume de “Nouvelle Vague”. Mas a repetição de elencos,
os roteiros “inovadores” e a presunção de alguns diretores transformaram a
maioria dos filmes do movimento em não mais do que “marolinhas”...
Os
anos de 1970 trouxeram as pornochanchadas, que nem a nudez de modelos
famosas salvava. E tudo era financiado com dinheiro público! O cinema
“sério” ficava mais no discurso do que na prática: Filmes pretensiosos,
roteiros ruins, quase sempre focados em: pobreza, cangaço, caos social e
marginalidade; diálogos fracos, locações e cenários escuros e horrendos;
luz e som deficientes; atores tão desconhecidos, como fracos... Enfim,
filmes sofríveis, mas divulgados como “cinema verdade”, ou “cinema de
arte”... Poucos se salvavam, tanto que poucos são lembrados. Os tempos
eram difíceis, política e financeiramente, é fato! Mas será que isso era
desculpa para fazer filmes ruins, execrados por crítica e público, com
poucas e honrosas exceções? Se for, então o “Zé do Caixão” fazia milagres!
Em
contrapartida, as novelas e séries televisivas eram muito boas, com
qualidade técnica e performances cênicas interessantes e críveis! Os
roteiros eram variados: adaptações de clássicos da literatura, temas
urbanos ou regionais, história do Brasil... Paradoxalmente, os mesmo
atores de televisão, quando iam fazer cinema, não exibiam a mesma
desenvoltura. Será que a linguagem de cinema era tão diferente quanto os
diretores “consagrados”, da época, insistiam em afirmar?
Então, os anos de 1980 trouxeram alguns novos diretores... Alguns
alcançaram sucesso relativo, com produções que começaram a mudar o
“padrão” estabelecido por seus antecessores: menos pretensiosas e mais
acessíveis e agradáveis ao público. Coincidência ou não, os atores de TV
ficaram mais “soltos”, a direção ficou mais leve, os cenários e temas se
multiplicaram, o cotidiano perdeu aquele “jeitão” onipresente de Nelson
Rodrigues, Jorge Amado e Glauber Rocha, com o devido respeito a cada um
deles... Os filmes ganharam luz, e as pessoas voltaram vê-los, com
curiosidade e prazer!
A
renovação na direção cinematográfica continuou, e os diretores consagrados
de televisão também resolveram fazer filmes! Enquanto isso a maioria dos
antigos mudou de ramo, em alguns casos para o bem de todos e felicidade
geral da nação! Realmente, alguns provaram ser melhores no discurso...
Mas, ainda assim, o cinema nacional continuou a viver entre altos e
baixos, felizmente, mais altos do que baixos, com bom filmes, ditos,
comerciais, para dar esperança e motivação aos realizadores, para novos
projetos. Sim, porque nem só de “filmes de arte” vive o cinema: É preciso
fazer bons filmes comerciais! O que também não é nada fácil, nem demérito!
Fui assistir “Se eu fosse você...”.
Mais um filme brasileiro! Já pinta aquela desconfiança...
Mais uma locação no Rio de Janeiro! Lá vem trilha de samba-enredo ou
bossa-nova... Eu gosto muito, mas, em excesso, cansa qualquer cristão!
Um
tema já explorado em filmes estrangeiros: Troca de sexos! Uai? Precisa de
desculpa para mostrar nudez em filme nacional?
Um
motivo já utilizado: Uma raríssima conjunção de planetas! “Mubmitar
oletsac rides again”?
Censura: 10 anos! Êpa! Será que trocaram com o filme do Renato Aragão?
Em
suma, todos os ingredientes acenavam para um “déjà vu”...
Surpresa! O filme é bonito, dinâmico e cheio de participações especiais,
pertinentes! Os atores jovens convencem! A direção de Daniel Filho é leve
e divertida! O roteiro é bem encadeado! Os diálogos são hilários! Mas o
maior destaque são as performances, química e fisicamente, impecáveis e
impagáveis de Glória Pires e Tony Ramos! Ambos estão extremamente à
vontade em seus papéis duplos!
Raramente ri tanto num filme, nacional ou não!
É
comercial! O que pode desagradar alguns críticos... Mas é muito bom! O que
vai agradar e divertir a maioria!
“Se eu fosse você...” Não deixaria de vê-lo!
*Escritor,
engenheiro e professor universitário
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