
Webjornal - Mensal - Edição 84 - Aracaju, 06 de novembro
a 11 de dezembro de 2005
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Colaboradores A estratégia Por Alvaro Giesta*
Uma
senhora pergunta ao médico: Há dias – largos dias, mais semanas que dias – escrevi parte deste artigo de opinião, agora com algumas adaptações, para o webjornal “Balaio de Notícias”, ao mesmo tempo que um outro a que dei o título “Fome do Poder”. Decidi-me por este último que foi publicado na sua Edição 81. O actual ficou na gaveta, não a fazer criação de caruncho mas, a fermentar, a levedar como acontece com a farinha com que se fabrica o pão, para a ocasião mais adequada – a do anúncio da candidatura (tão desejada) do professor Cavaco Silva às presidenciais de 2006. E, escrevia eu, para a sua candidatura ter o peso que merece e “empolgar” (que hoje, as coisas sérias, os políticos já se habituaram a transformar em festas) o País numa campanha pré-eleitoral e eleitoral à altura deste candidato de peso político – a quem as sondagens dão a maioria absoluta logo à primeira volta (!?) – nada melhor do que ter, pela frente, um candidato como Mário Soares, apesar de vários “apesares”. Mário Soares – hoje apenas um nome, que a idade não perdoa, […] – que fez vibrar as massas, ainda que as mais das vezes se lançassem, e se lancem, de olhos fechados para a frente de combate em defesa do ideal socialista. O Mário Soares que agora – e infelizmente – já não é o elo que une, mas o divisor que divide um partido – o “seu” partido socialista. Porque a sua “sede do poder”, cega, surda e muda, se sobrepõe ao bom senso – culpa dos seus vertiginosos mais que oitenta anos – ao que parece, para não reconhecer competência ao seu velho – mas bem mais novo do que ele – camarada de tantas lutas políticas no exílio – o “crucificado” socialista Manuel Alegre. Bom… mas não desvirtuemos o artigo e voltemos ao “Cavaco versus Soares”, nesta corrida ao palácio cor-de-rosa para uma estadia (de luxo) de cinco anos. Cavaco Silva, o condutor e gestor, sábio e útil a um destino que se quer sério, num país e para um país que caminha a passos largos para o desânimo e inconformismo, quase se limitando a acolher, de braços cruzados ou pendentes, a desgraça de todos os dias, esperada em anúncio de cada vez que o primeiro-ministro Sócrates, ou o seu ministro das finanças, vêm à liça anunciar mais um “aperto de cinto” para os pobres, que se traduz em “alargamento do mesmo objecto que segura as calças” para os ricos. É que os primeiros, ou não têm meios ou não conhecem as regras das equações com que os segundos “cozinham” fórmulas para, fugindo ao controlo fiscal, criarem descomunais riquezas. Mas não querendo transformar este artigo num acto de tragédia grega, atrever-me-ei a afirmar que os portugueses, com este governo “socrático”, estão mais de braços pendentes, pelo desânimo e falta de esperança, do que de braços cruzados. Porque, os braços cruzados, ainda podem significar alguma expectativa… […]. Com Soares ou sem Soares é inevitável e imperioso que Cavaco Silva avance (escrevia eu então) – era inevitável que Cavaco Silva avançasse, porque já avançou – com a certeza de ganhar, porque o povo português cansou-se da resignação com que encarava a instabilidade que atravessa o país. E, perfeito conhecedor dessa instabilidade, e como português que é, isento da influência de qualquer força política, chegou e disse: “Eu não me resigno! Só admito candidatar-me […] porque não me resigno a esta instabilidade que atravessa o País. Candidato-me pela vontade que me anima, […] pelo futuro dos meus filhos, dos nossos filhos.”. E mais à frente “Não me candidato para satisfazer um orgulho pessoal. Não fiz, nem farei, qualquer acordo com qualquer força política. Candidato-me como independente. […] o meu compromisso é com Portugal e com os Portugueses” – sic. Quão diferentes (!) propósitos daqueles outros (maus, quanto a mim) políticos de esquerda – […] – que ainda há bem poucos dias ferozmente buscavam a cadeira do poder presidencial apenas, e só, com o objectivo comum de “derrotar o adversário social-democrata” que hoje se apresentou ao povo português desvinculado de qualquer força política. Sem bandeiras nem representantes do seu ex-partido ou de qualquer outro de centro-direita – apenas oito bandeiras nacionais perfiladas, lado a lado, na retaguarda da tribuna, simples e sem arranjos florais de centenas de euros. [É que], lamentavelmente, neste país de maus políticos, ouvia-se, até hoje, os tais (todos!) candidatos de esquerda, com o seu semblante feroz, explicar aos Portugueses, que não são parvos nem para lá caminham, “que se candidatavam para derrotar um candidato de direita” (que nenhum se tinha definido por sê-lo!) – que só hoje (20Out2005) o foi, e como independente, não deixando de ser social-democrata – ao invés de lhes explicar que se candidatavam para fazer pelo Portugal, de que na realidade se não importam, melhor do que o seu antecessor. Estratégias… (dos bons e dos maus políticos). E, de estratégias falando, analisemos os factos e vejamos esses meandros sinuosos da estratégia que levou Mário Soares a definir-se pela recandidatura Presidente da Republica. Quando fez oitenta e dois anos e perante uma multidão desusada de participação no jantar em sua homenagem que até impressionou alguns mass media, advertiu, alto e bom som, “Basta! Basta de política!”. Mas nem todos são “parvus” – que o mesmo é dizer “pequenos de inteligência”. A pulga – sempre esta maldita pulga (!) – ficou-me atrás da orelha. E despertou da sua letargia quando Freitas do Amaral, que integra o governo socialista como Ministro dos Negócios Estrangeiros, deixou o caminho aberto para um Manuel Alegre, que sabia que não contava com fortes apoios, se manifestar como disponível a Belém. E Manuel Alegre viria, daí a pouco tempo, morder o isco deixado no anzol, para logo dar a entender ter ficado com um amargo de boca. E eu dizia, referindo-me tão só a mim, que as pessoas não são pequenas de inteligência. Então, se “apenas dois ou três nomes” lhe “manifestaram apoio”, e se mais nenhum candidato socialista se manifestou disponível, porque não veio a terreiro o primeiro-ministro Sócrates a dar-lhe o peso da sua força? Ou o contrário – dizer-lhe que também não o apoiava? Simplesmente porque – é meu entender – este anúncio de disponibilidade de Alegre a Belém mais não foi do que hábil estratégia para levar – mais que levar, forçar – Soares a anunciar a sua candidatura, depois de Sócrates (quase ter sido forçado a) reconhecer que, afinal, Mário Soares “é um bom candidato!”. Não se tratando da “Farsa de Inês Pereira”, mais me parece uma manobra de diversão combinada numa bem disfarçada estratégia – daquelas manobras de diversão que se desenham em cenários de guerra para derrotar o inimigo. Fazer crer na divisão dum partido em torno de dois candidatos do mesmo naipe político – Soares e Alegre – como mero jogo de diversão, para levar o candidato independente social-democrata (que ora se apresenta) a uma segunda volta eleitoral, com a dispersão de votos à primeira volta pelos demais candidatos (dos vários quadrantes políticos) de esquerda que se venham a apresentar, aglutinando, na segunda volta, toda a esquerda, a que se juntarão os indecisos do centro-direita, ou levar estes à abstenção, pelo tal desânimo, e o resultado será uma retumbante vitória do candidato Soares. Cenário hipotético a não excluir. E lá se vão as estatísticas das sondagens e a hipótese da recuperação económica de Portugal e dos Portugueses. Estratégia de Soares e/ou Alegre, velhos amigos e raposas matreiras e sabidas? Estratégia de Sócrates para ter o “pai político” Soares a aparar-lhe o jogo e a dar-lhe os trunfos para continuar a governar na instabilidade e permitir a divisão – estratégia das esquerdas – para reinar? Estratégia de um Freitas do Amaral que transportou, consigo, toda a (má) doutrina da ditadura da direita, que lhe deu o ser? (…) * Policial reformado e fotógrafo amador por opção e convicção, residente em Portugal
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