
Webjornal - Mensal - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro
a 19 de fevereiro de 2006
______________________________________________________________________________________________
|
|
Colaboradores O melhor da festa Por Rodrigo Marinheiro* Li certa vez que o nome Marinheiro significa “famoso pela glória”. Sem dúvida esta alcunha me traz muitas responsabilidades das quais não posso fugir. E justamente por não temer os mares desta vida, desvendei quais ondas levaram o presidente Lula - no dia 16 de dezembro, no Porto de Suape em Pernambuco - a afirmar que somente será candidato se for para ganhar a próxima eleição. Lula fez esta afirmação embasado na teoria das ondas concêntricas. Esta é a antiga tese da pedra arremessada ao meio de um lago. Ao submergir, a pedra provoca diversas ondas circulares que após um tempo chegam à margem. Estas ondas equivalem à repercussão dos escândalos políticos do petista. No centro do lago está a população mais esclarecida, que tem fácil acesso a informação. Na margem do lago se localiza a camada mais pobre e inferiormente instruída. As ondas demoram em atingir à margem e quando chegam já não causam tanto impacto. Seguindo a presunção lulista, em breve as CPIs vão acabar e as ondas serão extintas. Desta forma Lula irá recuperar sua competitividade eleitoral. Nos discursos atuais, antes mesmo das ondas terminarem, já podemos comparar o PT com a grande igreja medieval, que amedrontava os dirigentes seculares da Europa. O governo tem tornado suas mensagens tão profundas e sagazes que qualquer um que discorde se torna infiel ou golpista. Nossa esquerda não consegue substituir um discurso épico por um realista. Mudar a homilia é o mesmo que trair para ortodoxos, e o PT é assim. Fazer um discurso onde não seja vítima chega a ser uma heresia para este partido. Aristóteles ensinou que todo agente age por causa do fim. Segundo o filósofo Giambattista Vico, plagiado mais tarde pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche no livro “eterno retorno”, o mundo vive em ciclos que se repetem. Estes são os motivos que me fazem temer pela próxima eleição. O povo brasileiro tende a esquecer os fatos relevantes de nossa política. A maior parte do eleitorado sofre de amnésia ou simplesmente se adjudica à nostalgia do que passou, mas que na verdade só foi bom justamente porque passou. O sambista Noel Rosa diria: coisas nossas, coisas do Brasil. O escândalo conhecido como “Lobbygate”, desvendado pelo jornalista investigativo Greg Palast em 1997 para os jornais britânicos Guardian e Observer, deveria servir como exemplo para nós. O “Lobbygate” foi um caso de tráfico de influência, barganha política por propina e dinheiro por acesso. Após as gravações de Palast tornarem-se publicas, um lobista foi demitido e houveram inúmeros desmentidos do governo Blair. Em nossos escândalos políticos só ocorrem desmentidos, mas que logo são abafados pelo surto do “não sei”. Num país como o nosso não saber a verdade chega a ser uma coisa normal, mas ter o conhecimento e ignorar os fatos é crime! Resumindo, nosso governo é criminoso! Mas e agora, como tirar esse halo de santidade de cima do PT? Como extrair a fama de sábio entre os sábios e de justo entre os justos que está associada a imagem de Lula? Só de imaginar os gângsters do PT até 2010 no poder já sinto uma dor atroz inapelável sem bálsamo algum. Nossa esquerda só precisou chegar uma vez ao governo para perder as características que a distinguia dos demais partidos. O PT se apresentava como ético e coeso, mas estiou no poder e mostrou-se repleto de incoerências e falcatruas. Em toda nossa história, curta é verdade, nunca um governante eleito pelo povo reclamou e disparou tantas mentiras em relação à mídia. Lula alegou até sofrer boicote da imprensa! O aborrecimento com os jornalistas por parte do governo Lula é oriundo do desejo: ninguém odeia algo que não deseje. Os petistas requestaram a imprensa ao longo de 20 anos. Quando assumiram o poder, resolveram intimidá-la. Esse ódio é de fato o desejo de abreviar o papel do jornalismo ao de propaganda. Apesar de tudo isso ser tão óbvio ainda dizem que sou um neoliberal radical sem vergonha por criticar o governo em minhas crônicas... Mas isto é sinal de que as coisas vêm melhorando, pois antes me chamavam de alcoólatra, desinformado, maluco e blasfemador... Mesmo que não exista conceito científico de raça, o egípcio historiador marxista Eric Hobsbawn afirmou que indivíduos diferentes de um determinado grupo sempre serão ignorados ou combatidos pelos dessemelhantes. Isto é o que acontece na política brasileira. Como escreveu o filósofo italiano Norberto Bobbio, se há uma coisa que une esquerda e direita é o ódio à democracia. Mesmo assim, embora a democracia, como afirmou o primeiro-ministro britânico da década de 40, Winston Churchill, seja o pior sistema político já inventado pelos homens, exceto todos os outros, ainda acredito que ela seja o que de mais revolucionário pode acontecer neste país e confesso aspirar profundamente para que aconteça. Sofro por imaginar estes falsos revolucionários incrédulos das próprias convicções no poder por mais quatro anos por saber que o PT, de fato, não quer a reeleição, quer a fantasia da reeleição. O psiquiatra parisiense Jacques Lacan elucidou certa vez que “é preciso tomar cuidado com os desejos, não pelo fato de conseguir o que queremos, mas pelo fato de não querermos mais depois de conseguir”. O desejo necessita ter os objetos eternamente ausentes, senão ele morre! Foi essa a idéia do filósofo francês Blaise Pascal ao dizer que somos realmente felizes quando sonhamos acordados com a felicidade futura. Por isso respondi que sim quando me questionaram, dias atrás, se sou feliz... Ora, lógico que sou! Sei que o Brasil está longe de se livrar dos corruptos e ter uma imprensa livre, mas afinal, como diria o ditado psicanalista, o melhor da festa é esperar! *Comentarista esportivo da Rede Mundial de Televisão e da Super Rede Boa Vontade de Rádio, cronista e sócio-fundador da empresa de comunicação R2O |
(c) Todos os Direitos Reservados