
Webjornal - Mensal - Edição 87 - Aracaju, 19 de fevereiro
a 26 de março de 2006
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Colaboradores Meu alegre e pobre Carnaval petista Por Rodrigo Marinheiro* “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”, disse certa vez William Shakespeare, falecido em 1616. Se o poeta e dramaturgo inglês estivesse vivo nos tempos atuais, certamente a frase dele seria: “Há mais coisas entre a verdade e o que sai nos jornais do que sonha nossa vã filosofia”. Semana passada tive a felicidade de reencontrar dois amigos em um café na Avenida Paulista, porém, por obra do destino, em horários diferentes. Era uma segunda-feira fresca e ardilosa, digna do verão paulistano. Decidi tomar um café, pois tivera a manhã agitada e uma tarde soporífera com duas reuniões executivas. Antes mesmo que a garçonete pudesse me servir o café, adentrou o estabelecimento o jornalista Claudio Tognolli. Havia cerca de três meses que não nos víamos. Já havia desacostumado com aquele modo rápido, calculado e explicativo do jornalista, que deixa pouca margem para perguntas porque tudo parece respondido de antemão. Aos poucos ele fora me contando como as notícias se fabricam nos anos eleitorais brasileiros. As coisas acontecem de uma forma ladina, diferente, oblíqua, lateral, enviesada... Aos poucos minha visão edulcorada da realidade foi expirando. Tognolli me contou sobre o caos que vivem as pequenas e grandes redações do Brasil. O amigo narrou a este repórter sobre como o clima pré-eleitoral vem prejudicando o nosso jornalismo. São mentiras, cortinas de fumaças e dossiês forjados circulando para lá e para cá dentro das redações. O pior é que o medo de levar um furo tem feito com que todas as redações dêem uma barriga quase cotidianamente, ou seja, nossos jornais a cada dia que passa contêm mais mentiras desordenadamente profusas. Naquele momento tive a convicção de que o problema do Brasil é muito mais endógeno que externo. Tognolli toma seu café e vai embora me deixando emaranhado em minhas fantasias apocalípticas. Quando levantei o braço para pedir a conta vi entrar no estabelecimento, de bermuda, óculos escuros, uma pasta de executivo e fumando cigarro de palha, o jornalista carioca Sérgio Papi, com quem trabalhei na assessoria da Secretaria dos Transportes da cidade de São Paulo. Embora muito sábio e cheio de histórias, posso usar uma frase de Oswald de Andrade para explicar o tipo de pessoa que é Papi: “No Rio, o contrário da burguesia é a boemia; em São Paulo é o proletariado”. O amigo faz o pedido e eu o acompanho. Antes que os cafés pudessem chegar começamos a conversar sobre a vida, os projetos e é obvio, imprensa e política. “Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades”, afirma Papi citando o jornalista, escritor e amigo pessoal dele, Apparício Fernando de Brinkerhoff, mais conhecido por Barão de Itararé, falecido em 1971. Conforme conversávamos tinha cada vez mais convicção de que não há mais jeito para a política nacional, os pactos travados há três anos vão começar a se soltar do fundo do pântano agora, em 2006. Papi, lembrando um dos raros momentos de descontração de quando trabalhávamos, pergunta-me se “nossos dias melhores nunca virão?” Respondo o de sempre: “O problema é este enorme presente que não pára de chegar”. Ao se despedir o amigo recita mais uma das pérolas do Barão de Itararé: “Lembre-se, dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo”. Saí do café com um turbilhão de sensações sentindo-me um drogado, como se viajasse num LSD da pesada ou numa mescalina alucinante. Percebi que a política brasileira vive seu momento de dadaísmo, onde só vale defender a incoerência, o absurdo, a desordem e o caos. Fico com pena daqueles que pensam que Ano Novo implica em vida nova. Sou adepto do poeta Carlos Drummond de Andrade: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. Quanto aos otimistas por natureza, embora os admire, tenho pena deles por acreditar que sempre estão mal-informados. Enquanto caminhava pela Avenida Paulista comecei a refletir sobre o Brasil, esta terra de ninguém, este país do carnaval onde o único fio de esperança ao qual me agarro é proveniente de uma frase do industrial americano Henry Ford: “Nossos fracassos são, às vezes, mais frutíferos que os êxitos”. Mas quando vejo Lula liderar a corrida eleitoral deste ano percebo que este meu fio de esperança é em vão. As conversas que tivera com meus amigos de imprensa me abriram os olhos para a mesmice e para a maldade. Realmente as coisas não mudam neste país. Isto foi o suficiente para rasgar as fantasias que ainda faziam o meu alegre e pobre carnaval. Por toda vida preocupei-me mais com o Demônio do que com Deus. Pelo simples motivo de que Deus é bom, imparcial e piedoso. Pensando assim sei que ele me compreenderá e me perdoará, coisas que geralmente nem eu consigo. Mas o Demônio é o avesso de Deus. Ele existe só para prejudicar a humanidade e, às vezes, parece existir para prejudicar especialmente a mim. Por alguns instantes tive medo do Carnaval. Vieram à minha cabeça imagens de alecrim passando fome nas ruas e pierrô esfaqueando colombina num baile de máscaras realizado no Palácio do Planalto com dólares cubanos. Só acordei deste devaneio graças a um estrondo próprio dos finais de tarde paulistano. Olhei para cima e vi o topo dos prédios tocarem as nuvens escuras que formavam no céu uma penumbra típica das fortes chuvas de verão. Continuei minha caminhada arrastado por ventos uivantes e debaixo de pesadas gotas de chuva. Apesar dos motivos que tenho para começar meu feriado festivo com a lição de que no Brasil temos de ser felizes sem esperanças, não o farei! Desde pequeno, quando meu pai obrigava-me a ler sobre filosofia, guardo para mim uma frase do grego Aristóteles: “O ignorante afirma, o sábio duvida e o sensato reflete”. Portanto, desde garoto, sei que o meu inferno astral não são os outros (o Lula no meu caso), mas sou eu mesmo quando perco as esperanças. Analisando este contexto passei a entender como o Barão de Itararé conseguia fazer da própria vida um ato de paródia e ironia da realidade, mesmo nos momentos mais difíceis. Ao invés de somente invejá-lo, decidi imitá-lo neste carnaval. Resolvi que este ano irei me despir do pior fardo que todo ser humano carrega: a própria identidade. Irei andar pelas ruas de madrugada, numa atordoada vagabundagem, caminharei por vendedores ambulantes, foliões de porre, mascarados e prostitutas. Terminarei minha andança na praia ouvindo o mar bater nas pedras após ver as ondas cilíndricas quebrarem na minha frente. Vou lá simplesmente porque prefiro a companhia do mar. Afinal, como diria Nelson Rodrigues, “a pior forma de solidão é a companhia de um paulista...” Ficarei feliz e sozinho com minhas convicções até meu pobre carnaval acabar em cinzas. Não tenho nada contra o povo brasileiro que acredita no PT e muito menos algo contra o carnaval. Estes são frutos da humanidade, que nada mais é do que um projeto falido de Deus. De fato, naquela segunda-feira fui para casa certo de que o Brasil é uma beleza, o que estraga é essa gente filha da Pátria que está no poder. Esse mundo é redondo, mas está ficando cada dia mais chato! *Comentarista esportivo da Rede Mundial de Televisão e da Super Rede Boa Vontade de Rádio, cronista e sócio-fundador da empresa de comunicação R2O |
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