Webjornal - Mensal  - Edição 92 - Aracaju,  13 de agosto a 17 de setembro de 2006
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Colaboradores

Cinema paradiso

Por Adilson Luiz Gonçalves*

São muitas as características que os pais podem transferir para os filhos. Algumas - como as genéticas - são heranças involuntárias, mas outras são frutos do convívio e da formação moral, lapidando traços de personalidade que nos acompanharão por toda a vida. Destas, não há nenhuma que sobrepuje o compartilhamento de paixões.

 

Herdei de meus pais duas grandes paixões: de minha mãe, pela música; de meu pai, pelo cinema.

 

Como todas as paixões que se prezem, minha vontade era respirá-las e esmiuçá-las em cada momento, mas a vida não nos concede, com raras exceções, a benção de viver do que nos dá prazer. Isto, no entanto, torna cada momento possível mágico e inesquecível.

 

A sétima arte tem um significado especial em minha vida. Tive bronquite até os seis anos de idade, com crises freqüentes que me impediam de brincar na rua, como a maioria das crianças de meu bairro. A alternativa era a televisão: uma enorme "Philco", de vinte e três polegadas, a primeira que meu pai e minha mãe compraram: ele com o sacrifício de dois empregos e poucas horas de sono, ela com sua mão mágica de costureira.

 

Eu tinha, então, três anos, e me lembro dos filmes de Chaplin, aos domingos, das séries famosas e, até, do que teria sido o primeiro filme dublado exibido na TV: "As Aventuras do Padre Brown", com o saudoso Alec Guinness.

A paixão iniciada com a televisão preto e branco ganhou cores e dimensões colossais graças a um dos empregos de meu pai: projecionista de cinema.

Trabalhando todas as noites e fins de semana, foi ele quem me revelou esse mundo maravilhoso.

 

Pela sua mão conheci algumas das dezenas salas que existiam em minha cidade, nos anos 1960 e 70, desde as mais suntuosas até as de bairro.

Freqüentei os "Pullmans" vazios das seções vespertinas, que me faziam sentir grande na inocência da infância, e comi todas as jujubas, pastilhas coloridas e balas de framboesa que tinha direito. Mas era na sala de projeção que o sonho, em vez de desfeito, ganhava a força do fascínio.

 

Meu pai era mestre em sua arte. Para ele não bastava projetar um filme. Ele captava seu espírito, brincava com o volume para aumentar o impacto de um susto, e orgulhava-se de não perder o tempo da transição dos projetores.

 

Eu tinha o mesmo prazer do menino do filme ao ver meu pai abrir os rolos, colar a película gasta da cópia usada, ou rebobinar a novinha "em folha" do lançamento (adivinhem quem "pilotava" manivela?). A intensa luz do arco do carvão de então iluminava os labirintos que a película percorria até que, polarizada nas lentes, transformava os vinte e quatro fotogramas por segundo em ilusão de movimento. Colocar os discos da música ambiente e acionar o tradicional sinal de início da projeção era o máximo! Eu também fiz parte dos sonhos de muitas pessoas sem saber!

 

Com o tempo, o vídeo, a TV a cabo, o "home theatre", a especulação imobiliária, o trânsito e a insegurança fecharam quase todas as salas que eu freqüentava na minha infância e adolescência. As que sobraram lutam para sobreviver onde já foi uma "Cinelândia".

 

Hoje, meu pai não projeta mais filmes, mas eu ainda os vejo em seus olhos, nas memórias que compartilhamos: dos domingos que convivemos; do lanche, fresquinho e cuidadosamente preparado por minha mãe, que eu era incumbido de lhe levar (doce obrigação); das broncas por espiar filmes que ele considerava impróprios para mim, antes de voltar para casa; e nas disputas que ainda temos para ver quem lembra do nome do filme, do ator, do diretor, do estúdio...

 

As salas dos "shoppings" têm todo o conforto, mas não têm a mágica das de outrora. Também não tenho mais a liberdade de entrar na sala de projeção e nem é meu pai que está lá. Tenho que simplesmente me sentar na poltrona - como o adulto em que o menino do filme se transformou - e aguardar que as luzes se apaguem, como sempre, mas sem o inesquecível som dos carrilhões e a emoção das cortinas se abrindo.

 

Mas a nostalgia se vai quando a tela se ilumina e surgem as imagens em movimento!

 

Nesse breve lapso de tempo, as agruras da vida moderna - com suas cobranças, seus medos e suas injustiças - se esvaem em benfazeja alienação que sacia qual néctar, redobrando o ânimo para enfrentá-las, depois.

 

Transporto-me em irresistível arrebatamento para o universo dos cenários, das tramas e dos personagens.

 

Nesse momento retomo em plenitude a consciência dessa paixão sem medidas que meu pai me transmitiu e, voltando ao meu tempo de infância e inocência, realizo, intensamente, que podemos ser eternamente jovens e bons enquanto cultivarmos e transmitirmos nossos sonhos e paixões!

*Escritor, engenheiro, professor universitário, mestrando em Educação, autor do livro: "Sobre Almas e Pilhas", Editora: Espaço do Autor

  

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