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Colaboradores
Cinema
paradiso
Por
Adilson Luiz Gonçalves*
São muitas as
características que os pais podem transferir para os filhos. Algumas -
como as genéticas - são heranças involuntárias, mas outras são frutos do
convívio e da formação moral, lapidando traços de personalidade que nos
acompanharão por toda a vida. Destas, não há nenhuma que sobrepuje o
compartilhamento de paixões.
Herdei de meus pais
duas grandes paixões: de minha mãe, pela música; de meu pai, pelo cinema.
Como todas as
paixões que se prezem, minha vontade era respirá-las e esmiuçá-las em cada
momento, mas a vida não nos concede, com raras exceções, a benção de viver
do que nos dá prazer. Isto, no entanto, torna cada momento possível mágico
e inesquecível.
A sétima arte tem um
significado especial em minha vida. Tive bronquite até os seis anos de
idade, com crises freqüentes que me impediam de brincar na rua, como a
maioria das crianças de meu bairro. A alternativa era a televisão: uma
enorme "Philco", de vinte e três polegadas, a primeira que meu pai e minha
mãe compraram: ele com o sacrifício de dois empregos e poucas horas de
sono, ela com sua mão mágica de costureira.
Eu tinha, então,
três anos, e me lembro dos filmes de Chaplin, aos domingos, das séries
famosas e, até, do que teria sido o primeiro filme dublado exibido na TV:
"As Aventuras do Padre Brown", com o saudoso Alec Guinness.
A paixão iniciada
com a televisão preto e branco ganhou cores e dimensões colossais graças a
um dos empregos de meu pai: projecionista de cinema.
Trabalhando todas as
noites e fins de semana, foi ele quem me revelou esse mundo maravilhoso.
Pela sua mão conheci
algumas das dezenas salas que existiam em minha cidade, nos anos 1960 e
70, desde as mais suntuosas até as de bairro.
Freqüentei os "Pullmans"
vazios das seções vespertinas, que me faziam sentir grande na inocência da
infância, e comi todas as jujubas, pastilhas coloridas e balas de
framboesa que tinha direito. Mas era na sala de projeção que o sonho, em
vez de desfeito, ganhava a força do fascínio.
Meu pai era mestre
em sua arte. Para ele não bastava projetar um filme. Ele captava seu
espírito, brincava com o volume para aumentar o impacto de um susto, e
orgulhava-se de não perder o tempo da transição dos projetores.
Eu tinha o mesmo
prazer do menino do filme ao ver meu pai abrir os rolos, colar a película
gasta da cópia usada, ou rebobinar a novinha "em folha" do lançamento
(adivinhem quem "pilotava" manivela?). A intensa luz do arco do carvão de
então iluminava os labirintos que a película percorria até que, polarizada
nas lentes, transformava os vinte e quatro fotogramas por segundo em
ilusão de movimento. Colocar os discos da música ambiente e acionar o
tradicional sinal de início da projeção era o máximo! Eu também fiz parte
dos sonhos de muitas pessoas sem saber!
Com o tempo, o
vídeo, a TV a cabo, o "home theatre", a especulação imobiliária, o
trânsito e a insegurança fecharam quase todas as salas que eu freqüentava
na minha infância e adolescência. As que sobraram lutam para sobreviver
onde já foi uma "Cinelândia".
Hoje, meu pai não
projeta mais filmes, mas eu ainda os vejo em seus olhos, nas memórias que
compartilhamos: dos domingos que convivemos; do lanche, fresquinho e
cuidadosamente preparado por minha mãe, que eu era incumbido de lhe levar
(doce obrigação); das broncas por espiar filmes que ele considerava
impróprios para mim, antes de voltar para casa; e nas disputas que ainda
temos para ver quem lembra do nome do filme, do ator, do diretor, do
estúdio...
As salas dos
"shoppings" têm todo o conforto, mas não têm a mágica das de outrora.
Também não tenho mais a liberdade de entrar na sala de projeção e nem é
meu pai que está lá. Tenho que simplesmente me sentar na poltrona - como o
adulto em que o menino do filme se transformou - e aguardar que as luzes
se apaguem, como sempre, mas sem o inesquecível som dos carrilhões e a
emoção das cortinas se abrindo.
Mas a nostalgia se
vai quando a tela se ilumina e surgem as imagens em movimento!
Nesse breve lapso de
tempo, as agruras da vida moderna - com suas cobranças, seus medos e suas
injustiças - se esvaem em benfazeja alienação que sacia qual néctar,
redobrando o ânimo para enfrentá-las, depois.
Transporto-me em
irresistível arrebatamento para o universo dos cenários, das tramas e dos
personagens.
Nesse momento retomo
em plenitude a consciência dessa paixão sem medidas que meu pai me
transmitiu e, voltando ao meu tempo de infância e inocência, realizo,
intensamente, que podemos ser eternamente jovens e bons enquanto
cultivarmos e transmitirmos nossos sonhos e paixões!
*Escritor, engenheiro, professor universitário,
mestrando em Educação,
autor do livro: "Sobre Almas e Pilhas", Editora: Espaço do Autor
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