Webjornal - Mensal  - Edição 93 - Aracaju, 17 de setembro a 15 de outubro de 2006
______________________________________________________________________________________________

Colaboradores

Manipulação no fotojornalismo

Por José Roberto Mendes*

Partindo-se do princípio de que cada indivíduo tem a sua versão para determinado fato, não é difícil compreender que o mesmo indivíduo, ao presenciar este fato, formará, em seu cérebro, uma seqüência de imagens que determinarão sua visão pessoal sobre aquele acontecimento.  Da mesma forma, o trabalho do repórter fotográfico tem como ponto de partida a visão pessoal de cada profissional, ou, mais precisamente, o ângulo ou o  enquadramento que irá determinar, na prática, o resultado desta visão.  Há quem diga, os puristas, tratar-se simplesmente da manipulação do olhar, feita sem perceber ou até mesmo de propósito.

Exageros à parte, a manipulação no fotojornalismo tem suscitado, há décadas, debates polêmicos, que ficaram ainda mais acalorados com a chegada da informática.  Os argumentos passam pela versão pessoal, descrita acima, atacam o oportunismo de mercado, tentam justificar-se na visão profissional e desembocam no fator mais importante do jornalismo em todos os tempos: a ética.

Sobre o ângulo ou o enquadramento de cada indivíduo, não há muito o que divergir.  A natureza humana nos dotou da visão, associada à capacidade de raciocínio e criatividade.  Cabe a cada um de nós saber desenvolver a liberdade destas funções da melhor forma possível.  Ao fotografar um comício, por exemplo, um profissional irá se posicionar a partir de seu melhor ângulo ou sua visão pessoal, podendo também priorizar os momentos mais acalorados ou optar pelos instantes tranqüilos do candidato.  Se conseguir as duas versões, deixará a escolha para o editor/diagramador, que igualmente dará a sua visão pessoal para a publicação.  Na prática, não há como fugir destas visões, principalmente por tratar-se de trabalho autoral.

O pior dos argumentos expostos é, sem dúvida, o oportunismo de mercado.  Por ele podem passar as mais grosseiras e reais manipulações, já que, em geral, vêm impregnadas de forte caráter sensacionalista para despertar o interesse de leitores menos avisados e, deste modo, incrementar artificialmente as vendas.  Antes restrita aos laboratoristas, a prática de alteração real de uma imagem é, hoje, de fácil e rápido manuseio.  E, graças ao veloz avanço da informática, a tendência é o aperfeiçoamento constante desta prática, através de programas sempre atualizados. Ela traz, porém, abalos de credibilidade. 

Distorcer a realidade pode acarretar, em curto prazo, no desmascaramento do profissional e, por conseqüência, do próprio veículo.  Nenhum leitor gosta de ser enganado.  Uma publicação jornalística não deve concordar, portanto, com o absurdo de inserir ou retirar elementos de uma foto, caracterizando, assim, a deturpação do real.  Por outro lado, há quem defenda o retoque eletrônico com o objetivo, puro e simples, de melhorar o resultado da imagem. Estes retoques incluem pequenas alterações de luz, foco ou contraste, que são perfeitamente aceitas em alguns jornais e revistas.  É o ponto mais polêmico do assunto, já que é preciso predominar a razão no julgamento de cada caso, o que não é comum a todo ser humano, ou a todo e qualquer profissional. 

A visão profissional é mais justificável, mas carece também de reflexão.  O primeiro ponto diz respeito ao fotógrafo em si, que, ao retornar à redação, depara-se com a inevitável cobrança de resultados, o que o leva, em algumas ocasiões, a tentar montar uma cena irreal com os personagens reais. Esta prática, comum no dia-a-dia do fotojornalismo, é considerada, por alguns, um recurso válido, por não alterar, de fato, o conteúdo da informação.  Afinal, na representação da vida, as cenas freqüentemente se repetem.  Mas há quem condene veementemente qualquer tipo de remontagem de cena, sob a alegação de tratar-se de adulteração do fato verdadeiro. 

Outro ponto controverso de visão profissional envolve o editor/diagramador e a questão do corte, que, geralmente, modifica a leitura original da imagem.  Uma foto concebida na horizontal poderá sofrer um corte rigoroso para ajustar-se à verticalidade da página, mudando, agora sim, o sentido da informação. Esta situação, muitas vezes inarredável, é considerada uma violação de direito autoral, mas pode ser facilmente contornada, a partir do entendimento entre os profissionais.  O difícil é juntar o bom senso à prática, levando-se em conta, sempre, a tumultuada correria das redações.

Todos esses fatores, no entanto, convergem para a ética profissional, que é, sem dúvida, a maior preocupação do jornalismo sério e responsável dos últimos tempos.  Quem trabalha com a informação, seja escrita ou visual, deve estar imbuído do compromisso de aproximar-se, o mais possível, da realidade.  A versão pessoal, como foi visto aqui, sempre existirá, mas ela deverá estar revestida de honestidade e responsabilidade.                  

* Jornalista e Diretor da Tv Educativa / RJ                                                              

  

(c) Todos os Direitos Reservados