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Colaboradores
Manipulação no fotojornalismo
Por José
Roberto Mendes*
Partindo-se do
princípio de que cada indivíduo tem a sua versão para determinado fato,
não é difícil compreender que o mesmo indivíduo, ao presenciar este fato,
formará, em seu cérebro, uma seqüência de imagens que determinarão sua
visão pessoal sobre aquele acontecimento. Da mesma forma, o trabalho do
repórter fotográfico tem como ponto de partida a visão pessoal de cada
profissional, ou, mais precisamente, o ângulo ou o enquadramento que irá
determinar, na prática, o resultado desta visão. Há quem diga, os
puristas, tratar-se simplesmente da manipulação do olhar, feita sem
perceber ou até mesmo de propósito.
Exageros à parte, a
manipulação no fotojornalismo tem suscitado, há décadas, debates
polêmicos, que ficaram ainda mais acalorados com a chegada da
informática. Os argumentos passam pela versão pessoal, descrita acima,
atacam o oportunismo de mercado, tentam justificar-se na visão
profissional e desembocam no fator mais importante do jornalismo em todos
os tempos: a ética.
Sobre o ângulo ou o
enquadramento de cada indivíduo, não há muito o que divergir. A natureza
humana nos dotou da visão, associada à capacidade de raciocínio e
criatividade. Cabe a cada um de nós saber desenvolver a liberdade destas
funções da melhor forma possível. Ao fotografar um comício, por exemplo,
um profissional irá se posicionar a partir de seu melhor ângulo ou sua
visão pessoal, podendo também priorizar os momentos mais acalorados ou
optar pelos instantes tranqüilos do candidato. Se conseguir as duas
versões, deixará a escolha para o editor/diagramador, que igualmente dará
a sua visão pessoal para a publicação. Na prática, não há como fugir
destas visões, principalmente por tratar-se de trabalho autoral.
O pior dos argumentos
expostos é, sem dúvida, o oportunismo de mercado. Por ele podem passar as
mais grosseiras e reais manipulações, já que, em geral, vêm impregnadas de
forte caráter sensacionalista para despertar o interesse de leitores menos
avisados e, deste modo, incrementar artificialmente as vendas. Antes
restrita aos laboratoristas, a prática de alteração real de uma imagem é,
hoje, de fácil e rápido manuseio. E, graças ao veloz avanço da
informática, a tendência é o aperfeiçoamento constante desta prática,
através de programas sempre atualizados. Ela traz, porém, abalos de
credibilidade.
Distorcer a realidade
pode acarretar, em curto prazo, no desmascaramento do profissional e, por
conseqüência, do próprio veículo. Nenhum leitor gosta de ser enganado.
Uma publicação jornalística não deve concordar, portanto, com o absurdo de
inserir ou retirar elementos de uma foto, caracterizando, assim, a
deturpação do real. Por outro lado, há quem defenda o retoque eletrônico
com o objetivo, puro e simples, de melhorar o resultado da imagem. Estes
retoques incluem pequenas alterações de luz, foco ou contraste, que são
perfeitamente aceitas em alguns jornais e revistas. É o ponto mais
polêmico do assunto, já que é preciso predominar a razão no julgamento de
cada caso, o que não é comum a todo ser humano, ou a todo e qualquer
profissional.
A visão profissional é
mais justificável, mas carece também de reflexão. O primeiro ponto diz
respeito ao fotógrafo em si, que, ao retornar à redação, depara-se com a
inevitável cobrança de resultados, o que o leva, em algumas ocasiões, a
tentar montar uma cena irreal com os personagens reais. Esta prática,
comum no dia-a-dia do fotojornalismo, é considerada, por alguns, um
recurso válido, por não alterar, de fato, o conteúdo da informação.
Afinal, na representação da vida, as cenas freqüentemente se repetem. Mas
há quem condene veementemente qualquer tipo de remontagem de cena, sob a
alegação de tratar-se de adulteração do fato verdadeiro.
Outro ponto
controverso de visão profissional envolve o editor/diagramador e a questão
do corte, que, geralmente, modifica a leitura original da imagem. Uma
foto concebida na horizontal poderá sofrer um corte rigoroso para
ajustar-se à verticalidade da página, mudando, agora sim, o sentido da
informação. Esta situação, muitas vezes inarredável, é considerada uma
violação de direito autoral, mas pode ser facilmente contornada, a partir
do entendimento entre os profissionais. O difícil é juntar o bom senso à
prática, levando-se em conta, sempre, a tumultuada correria das redações.
Todos esses fatores,
no entanto, convergem para a ética profissional, que é, sem dúvida, a
maior preocupação do jornalismo sério e responsável dos últimos tempos.
Quem trabalha com a informação, seja escrita ou visual, deve estar imbuído
do compromisso de aproximar-se, o mais possível, da realidade. A versão
pessoal, como foi visto aqui, sempre existirá, mas ela deverá estar
revestida de honestidade e responsabilidade.
* Jornalista e
Diretor da Tv Educativa / RJ
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