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reportagem Cinqüentona e em forma Meio século depois do boom que a tornou famosa, a Bossa Nova continua influenciando gerações Por Daniele Barbosa* Fotos Divulgação Consagrada pela inconfundível batida do violão de João Gilberto, pela harmonia complexa de Tom Jobim e pelas inspiradas letras de Vinícius de Moraes, a bossa nova completa 50 anos em 2008. Cheio de vigor para artistas como Leila Pinheiro e Carlos Lyra, o estilo musical tem papel fundamental na MPB e influencia até hoje a maneira de se fazer música.
Para Carlos Lyra, um dos importantes músicos da bossa nova, só o motivo de estarem festejando 50 anos já mostra que ela está muito bem conservada. E se a sua opinião beira para alguns a defesa daquele movimento cultural, para Lyra é muito simples. “O que eu acho é que a bossa nova é um jeito de compor e cantar”, afirma. Segundo Lyra, qualquer integrante da nova geração musical que possui qualidade provavelmente foi influenciado pela aniversariante. Mas num panorama geral da música brasileira, o cantor e compositor não pareceu acreditar que a bossa venha “fazendo a cabeça” de muita gente. De zero a dez, deu nota cinco para a cena atual da MPB. Leila Pinheiro, que lançou em 2007 o disco Agarradinhos, praticamente com total influência da bossa nova - começando pelo parceiro Roberto Menescal -, acredita que a forma de cantar sob a batida sincopada do violão criada por João Gilberto no final da década de 50 foi o que deu origem ao estilo. Leila acrescenta ainda que Nara Leão é a síntese de tudo o que pode definir o canto da bossa.
A cantora também afirma que o tempo não envelheceu em nada o estilo musical. “Pensando na bossa como uma mulher de 50 anos, eu diria que, sem plásticas, botox ou qualquer bisturi, ela continua como sempre foi: linda e riquíssima em todos os níveis”. Leila apenas lamenta o abandono da senhora pela sua pátria o que, segundo ela, mantém o gênero um pouco distante das rádios. Mas para a intérprete, o afastamento da mídia não significa exílio musical. Leila tem certeza que todos os envolvidos com a arte dos sons bebem ou já beberam alguma vez da fonte bossanovista. “Até o pop brasileiro, com diversos bons exemplos como Fernanda Takai, que recentemente regravou algumas coisas da Nara Leão, tem influência da bossa”. Apesar de ter nascido em meio à juventude da Zona Sul, a bossa nova nunca foi, para Leila Pinheiro, privilégio da elite, e é muito bem vinda nos novos formatos em que vem se apresentando ultimamente. A mistura de elementos eletrônicos como, por exemplo, em “Só tinha de ser com você” (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira) na voz da cantora Fernanda Porto, de acordo com Leila, torna o estilo mais acessível a possíveis novos adeptos.
E a bossa nova não se limita apenas à condição de musa inspiradora de cantores e compositores. O professor da Facha (Faculdades Integradas Hélio Alonso) e pesquisador de cultura brasileira Luis Fernando Vieira, quando jovem, se encantou tanto com o surgimento daquela forma peculiar de se fazer música criada por João Gilberto que, desde então, não parou de estudá-la e se tornou pesquisador. Luis explica que, quando a bossa nova apareceu, o Brasil vivia uma época de importação musical. Em princípio o gênero nasceu como um movimento cultural e musical com influências harmônicas fortíssimas do jazz. Segundo ele, após se distanciar com o tempo da música negra norte-americana, o gênero que revelou João Gilberto se tornou uma vertente do samba. O pesquisador, assim como Leila Pinheiro, não acredita na bossa nova como um estilo típico da classe média e alta. Vieira afirma que se escuta bossa nova em qualquer lugar, mas não tanto quanto se gostaria. Para o professor, é uma pena que não se dê tanto valor à riqueza musical do país. “O Brasil é tão rico musicalmente, e alguns outros países tão pobres, que eles importam nossa música. Por isso o consumo da bossa nova lá fora. Os países que sofrem de anemia cultural e querem consumir música boa recorrem a nossa qualidade e diversidade”, explica. Na opinião de Carlos Lyra a exportação da bossa tem razões econômicas. “A bossa nova é um produto de classe média, então ela será mais consumida em países onde essa classe tenha maior poder aquisitivo financeiro e cultural. No Brasil, o povão ainda é maioria”, diz o músico. Na hora de escolher o representante ideal da bossa nova, Leila Pinheiro e Luis Fernando são unânimes: João Gilberto. Para a cantora, ele foi o divisor de águas. E segundo Luis Fernando Vieira, João foi o grande inventor. “Ele foi o músico que descobriu a forma de colocar o telecoteco no violão”. *Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ. E-mail: daniele.barbosa@gmail.com |