Edição 111 - Aracaju, 16 de março a 13 de abril de 2008
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  história
1968 ontem e hoje
A revisão do ano que nunca termina

Por Daniele Barbosa*
Foto Evandro Teixeira

Em 2008 completam-se 40 anos de uma década tomada por reivindicações estudantis e repressão militar, culminando com os acontecimentos de 1968, cuja maior manifestação foi a passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro. Tamanha foi a importância do ano, que o jornalista e escritor Zuenir Ventura dedicou um livro inteiro a ele, 1968: o ano que não terminou. A luta de estudantes e artistas em prol da liberdade, a organização de partidos políticos de esquerda e toda uma mudança comportamental foram questões que marcaram os anos 60 e a juventude da época.

Tentei conversar com Zuenir, saber dele o que ele achava daquele momento, e como o compara com os tempos atuais. Liguei para sua casa. Fui informada de que Zuenir estava fora do Rio de Janeiro. Finalmente, no final da semana passada, ao chegar do interior da Bahia, onde, isolado, não acessava e-mail, ele atendeu meu telefonema. Era começo da tarde de domingo, quando eu, intimidada pelo horário nada oportuno, pedi uma entrevista. Com simpatia ele se espantou com o número de perguntas que tinha a fazer. "Oito? Isso é muito! Pra você ter uma noção ontem fui dormir às três da manhã e levantei hoje às seis. Estou muito ocupado com a revisão do livro." Então falei que enviaria por e-mail, assim ele ficaria mais a vontade para responder em um melhor momento: "Por e-mail fica ruim, tenho tanta coisa na minha caixa de mensagens que nem a abro!"

Ao final da conversa, um pouco decepcionada, mas feliz - afinal ele teve o trabalho de me dar satisfações-, comentei que havia lido uma entrevista que ele deu ao site Portal Literal sobre 1968. Sugeri que podia utilizar o que estava dito lá. "Isso, pode aproveitar o que precisar de lá!", concordou Zuenir.

Eu, nessa altura ainda muito nervosa, confessei que ele era um ídolo para mim e que eu tinha seus livros e lia as coisas que ele escrevia por aí. Amolecido pela minha declaração, ele disse: "Qualquer dúvida você pode me ligar." Pronto, fiquei tão feliz quanto ficaria se ele tivesse respondido minhas perguntas.

Fazendo um balanço da década com os tempos atuais, Zuenir relança em uma caixa chamada 1968 – Terminou?, contendo o livro antigo e um novo livro pós-1968, no qual conversa com um ensaio, entrevistas e um balanço do que restou daquele ano fatídico. O escritor afirma que o nome do novo volume é a pergunta que mais escuta há 20 anos e garante que, se terminou ou não, a conquista da liberdade, da subjetividade e de um comportamento mais liberal é mérito do que foi feito pela juventude de 68.

Quando o jornalista volta a 40 anos atrás e faz uma comparação com os tempos atuais, tem certeza que é pura ilusão acreditar que era melhor. Para ele, apesar da violência urbana, da injustiça social e da miséria, fatores que se agravaram, a ditadura implacável da época fez de 1968 um ano terrível. "Você não podia se reunir, não podia se expressar, aquela paranóia de ser preso por alguma inconveniência, por alguma coisa que você disse”, disse em entrevista ao site Portal Literal.”Você tinha violência política."

Para Zuenir, na verdade, não há como classificar as duas épocas. "Não dá para você ter uma visão maniqueísta. Achar que era melhor. Tem coisas que melhoraram e coisas que pioraram. A censura, por exemplo, hoje é exercida pelo mercado. As leis do mercado hoje são determinantes. Mas também não impedem a produção artística, por exemplo, ela vigora apesar de tudo isso", disse na entrevista.

O escritor não tem dúvidas quando pensa nas evoluções tecnológicas, como a internet, "uma revolução que não se sonhava em ter naquele tempo", que, segundo ele, contribui positivamente para sua profissão, para a cultura e para a ciência.

Apesar de ter vivido o mesmo momento histórico de músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que compuseram músicas antológicas, justamente na década de 60, Zuenir não olha para trás com saudosismo e trata a nostalgia como problema. "Há coisas interessantíssimas hoje em dia. Uma das mais importantes é a cultura da periferia. É uma cultura engajada, toda ela, visceralmente engajada, ainda que de outra maneira. E ela, cada vez mais, vem invadindo o centro, algo como uma fertilização através da sua estética, da sua música", afirmou com entusiasmo na entrevista.

E o que movimentou o final da década de 60 e que rendeu mais assunto ao livro, Zuenir não vê com bons olhos. "Ao voltar em 68 eu criticaria a onipotência daquela garotada, que achava que ia mudar o mundo de um dia para o outro", disse ele ao Portal Literal. Por outro lado, Zuenir Ventura diz admirar a união daquela juventude, que deu tudo por um ideal, o que, definitivamente, provoca saudade no jornalista.

*Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ.  E-mail: daniele.barbosa@gmail.com