Edição 114 - Aracaju, 08 de junho a 06 de julho  de 2008
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  comportamento
O tormento do ciúme
Desconfianças nas relações

Por Daniele Barbosa* 

Otelo, uma das principais obras de Shakespeare, em cartaz no teatro SESC, no Rio de Janeiro, retrata um sentimento que atormenta a relação de muitos casais: o ciúme. A trama da peça teatral aborda a vida de um homem atormentado pelo ciúme e desconfiança de sua mulher. No fim, ele mata a esposa e se suicida. Não é raro ver a vida imitando a arte em casos semelhantes ao de Otelo. O fim de muitos relacionamentos não chega a tamanha tragédia, mas pode ter bases infundadas por causa do ciúme.

Caso oposto é o da estudante universitária Mariana Moraes. Para ela, é a falta de ciúme de Marcio Teixeira, seu namorado, que não a deixa se sentir mais amada. “Acho que o ciúme tem doses saudáveis, e quando o Marcio sente fico feliz, pois percebo que ele se preocupa comigo”, afirma Mariana, que admite sofrer um pouquinho do mal do personagem de Shakespeare.

A namorada de Márcio já passou por situações em que ciúme a dominou: “Uma vez vi no celular dele uma mensagem suspeita. Não pensei duas vezes, fiz um escândalo na frente de todo mundo e fui embora”, recorda. Mesmo sabendo que isso desgasta a relação, ela considera seu ciúme normal e diz que Márcio só se irrita muito porque teve uma ex, que segundo ele, era doente desse mal.

O ciúme, que para Mariana é normal, incomoda Marcio. Ele diz que o problema não é ter tido um relacionamento conturbado por causa desse sentimento, mas sim por demonstrar a falta de confiança de sua parceira. “A raiz do problema está na desconfiança”, diz Marcio, que garante não dar motivos para Mariana desconfiar. Ele atribui o ciúme da namorada à ilusão criada quando se acredita que algo pode estar acontecendo, fantasiando a realidade.

Mariana confessa que confere o celular e o Orkut do namorado e que nunca confiará completamente em Marcio: “Com o passar do tempo, fui confiando mais nele, mas mesmo depois de quatro anos juntos não é 100%. Nem nunca será, afinal, ninguém é de ferro”.

Segundo a psicóloga Maria Lúcia, a insegurança é o que torna alguém ciumento, e quando esse sentimento começa a trazer sofrimento já se trata de uma doença. Ela explica que quando a pessoa deposita toda sua felicidade em um relacionamento fica dependente emocionalmente, e isso agrava as chances de ser tornar um ciumento doentio. “Pôr sua felicidade nas mãos do outro cria dependência afetiva, o que contribui muito para o nascimento do ciúme”, explica.

Maria Lúcia ressalta que as mulheres têm tendência de serem mais ciumentas que os homens por causa da educação e da história social delas: “Mesmo vivendo um bom momento profissional, a classe feminina ainda carrega um ranço de dependência financeira e emocional; na infância, do pai e na idade adulta, do marido. Isso cria mais possibilidades de desenvolver o ciúme”, explica.

A psicóloga assegura que o ciúme saudável existe, mas isso não significa que a ausência dele é, necessariamente, sinônimo de não gostar. “O ciúme normal é aquele momentâneo, quando, por exemplo, seu companheiro olha para uma bela mulher e aquilo lhe irrita um pouco, mas não a ponto de estragar um jantar ou uma noite especial. Agora, se o ciúme não aparece nesse momento, há duas explicações: ou porque a confiança em si e no parceiro é maior que qualquer coisa ou há falta de interesse”, analisa.

Nem sempre um relacionamento acaba devido ao ciúme. Maria Lúcia explica que alguns casais são atraídos por ele, como os sadomasoquistas. Nesse caso, segundo a psicóloga, um lado gosta de causar o ciúme, pois sente prazer em ver seu parceiro sofrer, e o outro é atraído pelo sofrimento que o ciúme doentio causa: “É uma relação de troca”, complementa.

Para a psicóloga, carência e desestruturação familiar são características comuns aos ciumentos, e criar situações para que o parceiro lhe dê atenção, seja por pena, seja por culpa, também é normal nestes casos. “Teve uma ocasião em que uma paciente se jogou da escada para chamar a atenção do marido. Ela queria que ele a visse como coitada e sentisse culpa pelo ocorrido. Se maltratar faz parte da rotina do ciumento para que o notem”.

*Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ.  E-mail: daniele.barbosa@gmail.com