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comportamento
O tormento do ciúme
Desconfianças nas relações
Por
Daniele Barbosa*

Otelo, uma das principais obras de Shakespeare, em cartaz no teatro
SESC, no Rio de Janeiro, retrata um sentimento que atormenta a relação de
muitos casais: o ciúme. A trama da peça teatral aborda a vida de um homem
atormentado pelo ciúme e desconfiança de sua mulher. No fim, ele mata a
esposa e se suicida. Não é raro ver a vida imitando a arte em casos
semelhantes ao de Otelo. O fim de muitos relacionamentos não chega a tamanha
tragédia, mas pode ter bases infundadas por causa do ciúme.
Caso oposto é o da estudante universitária Mariana Moraes. Para ela, é a falta de ciúme de Marcio
Teixeira, seu namorado, que não a deixa se sentir mais amada. “Acho que o
ciúme tem doses saudáveis, e quando o Marcio sente fico feliz, pois percebo
que ele se preocupa comigo”, afirma Mariana, que admite sofrer um pouquinho
do mal do personagem de Shakespeare.
A namorada de Márcio já passou por situações em que ciúme a dominou: “Uma
vez vi no celular dele uma mensagem suspeita. Não pensei duas vezes, fiz um
escândalo na frente de todo mundo e fui embora”, recorda. Mesmo sabendo que
isso desgasta a relação, ela considera seu ciúme normal e diz que Márcio só
se irrita muito porque teve uma ex, que segundo ele, era doente desse mal.
O ciúme, que para Mariana é normal, incomoda Marcio. Ele diz que o problema
não é ter tido um relacionamento conturbado por causa desse sentimento, mas
sim por demonstrar a falta de confiança de sua parceira. “A raiz do problema
está na desconfiança”, diz Marcio, que garante não dar motivos para Mariana
desconfiar. Ele atribui o ciúme da namorada à ilusão criada quando se
acredita que algo pode estar acontecendo, fantasiando a realidade.
Mariana confessa que confere o celular e o Orkut do namorado e que nunca
confiará completamente em Marcio: “Com o passar do tempo, fui confiando mais
nele, mas mesmo depois de quatro anos juntos não é 100%. Nem nunca será,
afinal, ninguém é de ferro”.
Segundo a psicóloga Maria Lúcia, a insegurança é o que torna alguém
ciumento, e quando esse sentimento começa a trazer sofrimento já se trata de
uma doença. Ela explica que quando a pessoa deposita toda sua felicidade em
um relacionamento fica dependente emocionalmente, e isso agrava as chances
de ser tornar um ciumento doentio. “Pôr sua felicidade nas mãos do outro
cria dependência afetiva, o que contribui muito para o nascimento do ciúme”,
explica.
Maria Lúcia ressalta que as mulheres têm tendência de serem mais ciumentas
que os homens por causa da educação e da história social delas: “Mesmo
vivendo um bom momento profissional, a classe feminina ainda carrega um
ranço de dependência financeira e emocional; na infância, do pai e na idade
adulta, do marido. Isso cria mais possibilidades de desenvolver o ciúme”,
explica.
A psicóloga assegura que o ciúme saudável existe, mas isso não significa que
a ausência dele é, necessariamente, sinônimo de não gostar. “O ciúme normal
é aquele momentâneo, quando, por exemplo, seu companheiro olha para uma bela
mulher e aquilo lhe irrita um pouco, mas não a ponto de estragar um jantar
ou uma noite especial. Agora, se o ciúme não aparece nesse momento, há duas
explicações: ou porque a confiança em si e no parceiro é maior que qualquer
coisa ou há falta de interesse”, analisa.
Nem sempre um relacionamento acaba devido ao ciúme. Maria Lúcia explica que
alguns casais são atraídos por ele, como os sadomasoquistas. Nesse caso,
segundo a psicóloga, um lado gosta de causar o ciúme, pois sente prazer em
ver seu parceiro sofrer, e o outro é atraído pelo sofrimento que o ciúme
doentio causa: “É uma relação de troca”, complementa.
Para a psicóloga, carência e desestruturação familiar são características
comuns aos ciumentos, e criar situações para que o parceiro lhe dê atenção,
seja por pena, seja por culpa, também é normal nestes casos. “Teve uma
ocasião em que uma paciente se jogou da escada para chamar a atenção do
marido. Ela queria que ele a visse como coitada e sentisse culpa pelo
ocorrido. Se maltratar faz parte da rotina do ciumento para que o notem”.
*Estudante
de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ. E-mail:
daniele.barbosa@gmail.com
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