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perfil O amigo dos estudantes A trajetória de um ex-político de 1964 Por Daniele Barbosa*
Geremias Fontes tem 78 anos e, atualmente, é pastor e dirige a ONG Comunidade S8 que trata de dependentes químicos. Mas no ano de 1966 até 1971 governou o Estado do Rio de Janeiro – na época ainda separado do Estado da Guanabara. Antes de se tornar governador aos 36 anos, Geremias foi prefeito de São Gonçalo aos 28 e deputado federal aos 32. Ele admite ter começado a carreira política jovem, porém a encerrou cedo, aos 40. O ex-governador atribui a sua estadia no cargo enquanto a ditadura militar imperava sobre o país como obra da sorte: “Eu estava no lugar certo e no momento certo.” O pastor não precisou seguir carreira no exército para ser governador na ditadura, apenas se alistou e serviu como qualquer homem. No entanto, enquanto exercia o cargo de deputado, todos os partidos políticos foram extintos, devido ao regime ditatorial, e surgiram o MDB, de esquerda e a ARENA, que apoiava os ideais militares. Geremias explica que, apesar de seus princípios e valores irem de encontro aos do MDB, se filiou à ARENA, pois acreditava que nele teria a chance de se eleger e de influenciar em decisões importantes para o Estado. “Foram consultados 22 nomes que pudessem assumir o cargo de governador do Rio, mas nenhum foi aceito. Castelo Branco, presidente da época, acabou optando por mim, apesar de ter traçado um perfil impossível para se encaixar no cargo. Ele queria uma mistura de Ruy Barbosa com Super-Homem”, afirma. O ex-governador revela que, aos olhos dos militares, podia representar uma ameaça devido ao bom relacionamento com os estudantes e a classe operária. Formado em Direito, sempre foi amigável com a classe estudantil. Ele conta que os recebia em seu gabinete, mesmo com a movimentação no Rio sendo menor do que na Guanabara: “No estado do Rio o problema foi menor. Eu não tinha como recriminar o que acontecia na Guanabara, mas o que eu fiz foi impedir que o mesmo não acontecesse no meu Estado. Eu também não tinha notícias de como o presidente acompanhava as repressões. Acredito que ele não era muito a favor, mas era difícil impedir a ação de alguns militares”. Ele conta que, para não agredir os jovens em passeatas, chegou a criar o Batalhão de Estudantes composto por policiais disfarçados que, no ato das reivindicações, eram ameaçados pela segurança e assim dispersavam os verdadeiros estudantes. Durante o Ato Institucional 5, o AI-5, houve a primeira e única tentativa de tirarem o atual pastor do poder: “Havia pessoas interessadas em assumir o governo em meu lugar e aproveitaram o AI-5 para tomar atitudes arbitrarias contra o estado. Fecharam a assembléia localizada no Ingá em Niterói e impediram os deputados de entrarem. Como nós tínhamos outro palácio, em Petrópolis, fui pra lá. Se eu continuasse em Niterói talvez fosse preso”. Na opinião de Geremias, o ocorrido foi por causa da sua boa relação com os estudantes e seu “ideal MDB”. Atualmente, o ex-governador segue a carreira religiosa por vocação e não por necessidade e largou a vida política, pois afirma que passou a ser preciso se filiar a grupos econômicos para se eleger. “Hoje em dia se gasta muito para fazer uma campanha. Quando eu fui prefeito fazia propaganda na rua de caminhonete, entregando panfletos ao povo. Agora a campanha depende da televisão. Naquela época podíamos colar cartazes no muro. Hoje essa liberdade não existe, é necessário comprá-la, então você fica na mão de grupos e pessoas. Eu não queria isso e nem tinha condição de gastar esse dinheiro sozinho, então deixei a vida pública. Já era religioso e só passei a exercitar essa atividade. Também tive um filho que se envolveu com drogas, com isso conheci outros jovens como ele e fui criando uma afinidade maior com essas pessoas. Agora sou presidente de uma ONG que dirige uma clínica em Santa Cruz para dependentes químicos.” Geremias lamenta a situação política atual do país e ressalta que a ditadura militar só veio contribuir para o aumento da corrupção. Em sua opinião, antes um pobre podia se eleger, por isso não era preciso roubar, já nos dias atuais é necessário o dinheiro e, devido a isso, mais políticos se corrompem. O pastor conta que durante seu mandato nunca recebeu uma proposta corrupta, pois, segundo ele, nunca tiveram coragem: “Fiz um governo muito sério, dentro dos preceitos legais sem acusações de corrupção. Em quatro anos construímos quatro mil salas de aula. A aerobarca foi um projeto do meu governo. Tudo o que entrava para o Estado era usado no Estado, sem desvio.” *Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ. E-mail: daniele.barbosa@gmail.com |