Edição 118 - Aracaju, 05 de outubro a 02 de novembro de 2008
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  cinema
O Mozart do sertão
Os heróis anônimos do novo filme de Paulo Thiago

Por Daniele Barbosa*

Um novo filme nacional está em cartaz. A Orquestra dos Meninos, de Paulo Thiago, que foi lançado primeiro em Sergipe, estado em que foram feitas as locações, conta com atuação dos atores Murilo Rosa, Priscila Fantin e Othon Bastos. O filme mostra a história de Mozart, um maestro do sertão pernambucano que monta uma orquestra com crianças carentes. No decorrer da trama Mozart é acusado injustamente pelo seqüestro de um de seus músicos, uma armadilha do partido político atuante no local que temia que o maestro se tornasse uma força política de oposição, devido ao sucesso de seu projeto.

O enredo e a fotografia do filme se contrastam. O primeiro por ser riquíssimo e o segundo por ter tido que se contentar e se "ajeitar" com pouca verba. A trama se desenvolve bem, mérito do diretor e dos atores. Apesar da iniciativa do cineasta Paulo Thiago de se arriscar um desvio do do itinerário favela-tráfico-violência, a cena em que um de seus músicos é seqüestrado não deixa de remeter um pouco à questão da violência. 

Tive a chance de não apenas ver o filme, mas assistir a uma palestra de Paulo Thiago. No início de setembro, a Universidade Candido Mendes de Niterói recebeu em seu auditório o diretor da obra para uma palestra e a pré-estréia de Orquestra de meninos.

Após a exibição do longa-metragem, Paulo Thiago falou de cinema nacional, política e imprensa e afirmou que passar o filme nas universidades antes de ir para as salas comerciais foi uma estratégia de divulgação. 

O cineasta disse que a escolha da história se baseou nos temas que ela envolve. “Achei uma história emblemática, que fala de como a dedicação à arte consegue mudar a sociedade. Também me interessou porque mostra como a mídia pode manipular uma situação e como a política é complicada no Brasil. Não podemos desacreditar nela, mas é complicada”. Paulo Thiago afirmou ainda que os fatos expostos acontecem o tempo todo no país e que devemos confiar sempre em “heróis anônimos” como Mozart. 

Sobre a escolha do elenco, composto em sua maior parte por atores de Sergipe, local das gravações, ele explicou que foi intencional: “A minha idéia era usar os atores dali mesmo. Participaram dos testes mais de 300 crianças carentes, mas, como todo filme, precisei de atores conhecidos. O Murilo e a Priscila fizeram muito bem os papeis, se integraram completamente com os atores da região”. 

Para o diretor, fazer cinema no Brasil ainda é muito difícil e ressaltou que o país devia se pautar na Argentina, onde, segundo ele, a produção cinematográfica sai bem mais barato. Paulo Thiago conta que filmou em cinco semanas e gastou R$ 2 milhões, mas que isso não é nada perto de Tropa de Elite, que custou R$ 8 milhões. Ele acredita que o suporte digital é a grande saída, mas alega que são poucas as salas de cinema que exibem esse formato. O cineasta revelou que sua obra foi convidada para dois festivais internacionais, um em Los Angeles e outro em Paris: “Acho importante a cena internacional, mas isso só dá prestígio, o filme tem que ter importância mesmo no Brasil”. 

Os sucessos de bilheteria como Tropa de Elite e Cidade de Deus, segundo Paulo Thiago, podem ter efeitos negativos sobre o país. “Atualmente o cinema nacional aborda muito a questão da violência, é quase uma obsessão. Isso nos restringe a essa imagem e o Brasil não se limita a isso. A violência está quase virando um gênero e o filme que sai disso, em minha opinião, deixa de estar na moda”, destaca. Para ele, outra tendência seria os filmes que contam histórias de políticos como O que é isso Companheiro? e Batismo de Sangue. De acordo com o cineasta é importante para o país ter filmes baseados em histórias reais, pois é algo pouco praticado pelos autores nacionais. 

Com receio, o diretor, contou que o lançamento de A Orquestra dos Meninos nos cinemas é no mesmo dia da estréia de mais um da série James Bond: “Isso me deixa apavorado, mas os especialistas garantem que são públicos diferentes e que um não afeta a audiência do outro. Paulo Thiago afirma que não sofreu nenhuma perseguição, mas sabe que seu filme, por retratar personagens ainda vivos e fatos que revelam corrupção, pode causar reação, inclusive em Pernambuco, cidade em que  tudo aconteceu e onde o filme também será exibido.

*Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ.  E-mail: daniele.barbosa@gmail.com