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reportagem Ônibus 174: recontando a história Tia de Sandro Nascimento revela detalhes da vida do sobrinho Por Daniele Barbosa*
Tia Jú, 56 anos, é quituteira. Trabalha fazendo comidas típicas da Bahia em um bar na Região Oceânica de Niterói. Além de seus dotes culinários, ficou conhecida pelo seu sobrenome: Nascimento. Julieta do Nascimento é irmã da já falecida Clarisse do Nascimento, mãe de Sandro do Nascimento. Sandro é personagem principal do documentário Ônibus 174, dirigido por José Padilha, que mostra o cotidiano violento da cidade do Rio de Janeiro. O filme tem cenas reais de um assalto conduzido por Sandro em um ônibus. Julieta, além de esclarecer o episódio, que terminou tragicamente com a morte de uma das passageiras do ônibus e do seu sobrinho, conta a história de sua vida e de Sandro, fala sobre o descaso com meninos de rua e afirma que sociedade é a mais eficiente máquina de criar marginais. Julieta veio para o Rio com seis anos - a primeira das irmãs a sair da Bahia - e se alojou na casa de uma família que havia prometido cuidar bem dela. No entanto, conta que, ao chegar, foi recebida de outra forma. “Pessoal do interior sempre dá os filhos. Mas essa família me maltratava muito, eu dormia em uma esteira. Uma vez eu fiz xixi na esteira. A dona da casa pegou a esteira e esfregou no meu nariz. Fiquei com eles até os 10 anos. Depois, encontrei a governanta de uma família conhecida em Niterói. Ela ficou com pena de mim e me levou para morar na casa de seus patrões”, explica Julieta, que ao conhecer seus novos “familiares” foi tratada como filha e estudou em colégio particular até concluir o segundo grau. A quituteira trabalhou com crianças especiais por muitos anos em uma escola e tem o sonho de se formar em pedagogia para poder exercer a profissão ajudando meninos como seu sobrinho que, segundo ela, não recebem a atenção devida do Estado. Sandro“Sandro viu a mãe ser assassinada grávida de gêmeos quando tinha oito anos. Então, traumatizado, foi para a Bahia com a avó. Mas, com 11 anos, estava completamente revoltado e minha mãe contava que ele desejava voltar para o Rio e matar o assassino da sua mãe.” Julieta acreditava ser melhor trazê-lo de volta para dar assistência, educação e tratamento psicológico. “Ele veio pra minha casa, mas um dia, quando cheguei do trabalho, ele já não estava mais, tinha fugido”. Sandro perdeu a mãe em um assalto em um bar, do qual que ela era dona. Seu pai morreu assassinado também, na lanchonete em que trabalhava, mas nessa época Sandro não era nascido. Julieta não sabe ao certo o motivo da morte do pai. “Não sei se ele era envolvido com coisa errada.” A tia de Sandro assegura que, se não fosse o tempo que ele morou na rua e o descaso das instituições com sua história, talvez seu sobrinho ainda estivesse vivo. “Sandro ficou muito tempo na rua. Eu só fui encontrar ele depois do episódio da Candelária, mesmo assim com muita dificuldade, porque na rua ele se chamava Alex.” Julieta explica que todas as crianças que sobreviveram à chacina da Candelária ficaram sob custódia do Estado, e não deixaram ela ficar com Sandro, mesmo ela sendo o parente mais próximo. Siro Darlan, juiz de menores, deu a tutela do Sandro a Julieta quando ele estava prestes a completar 18 anos. “Ele quis se livrar da bomba, mas o que eu ia fazer com um rapaz cheio de hábitos e malícias que aprendeu até mesmo para sobreviver?”, pergunta ela. Julieta conta que tentou de tudo nas instituições. Revelou até à assistente social de um dos abrigos que iria acontecer uma tentativa de fuga, mas afirma que ninguém se importava com as crianças. “Ninguém acredita nessas crianças, e eles ficam ociosos nesses lugares. Tem que dar trabalho, incentivar a prática de esportes”. Escolas do crimeJulieta garante que as instituições Padre Severino e João Henrique Alves são “escolas de delinqüentes mirins”. “Quando eu ia ao Padre Severino, me sentia mal. Um cara de 17 anos que matou, que roubou, ao lado de uma criança de nove que apenas morava na rua. Isso tinha que ser separado, deviam pesquisar a família, a história desses meninos.” A quituteira revela que acreditava em Sandro e em sua boa índole. Ela conta que, certa vez, seu sobrinho assaltou um turista na cidade do Rio, pegou os dólares roubados, trocou em uma casa de câmbio e comprou uma casa para uma família que morava embaixo de um viaduto. “Como ele me contava tudo, até as coisas ruins que fazia, eu nunca duvidei de sua palavra, mas dessa história eu desconfiei. Então ele perguntou se eu queria ver a casa e a família. Topei pensando que ele ia desistir”. Jú foi até a casa comprada por Sandro e constatou: “Nessa favela ele parecia rei, todos o tratavam como o chefe.” Apesar de crer na bondade do sobrinho e na injustiça causada pela sociedade, Julieta não condena ninguém, nem os polícias. “A gente não sabe o que se passa na cabeça de um ser humano. No ônibus ele não ia matar ninguém, quem viu o documentário sabe, mas de qualquer forma ele estava armado e se envolvia com coisas erradas”. Ônibus 174Segundo Julieta, no episódio que deu origem ao documentário de José Padilha, seu sobrinho estava armado por outro motivo: “Sandro estava indo ou vindo de uma parada errada, por isso entrou naquele ônibus armado. O que causou todo aquele escândalo foi um taxista que viu ele entrando com a arma na cintura e, então, acionou a polícia. Mas ele não ia assaltar, as meninas mesmo que estavam no ônibus falam isso no filme, ele só queria sair dali.” Para ela, deviam ter atirado em Sandro enquanto ele estava dentro do ônibus. Julieta acredita que, se a polícia tem atiradores de elite, o que faltou não foi oportunidade. Tia Jú também revela que os polícias que participaram da operação de resgate dos reféns de seu sobrinho vinham de outra ação em uma favela e estavam cansados. “A principio eles não queriam matar, mesmo no ônibus, quando tiveram toda chance de atirar, não fizeram. Eu acho que tinha que ter matado no ônibus. Só mataram por queima de arquivo. Ele sabia demais sobre o episódio da Candelária, e quando descobriram que ele era sobrevivente, mataram.” O Filme Bruno Barreto, cineasta, lançou, em outubro, o filme Última Parada 174, também inspirado na história do sobrinho de Tia Jú. Mas ela contesta a nova versão. “No começo do filme aparece uma pessoa drogada, que seria a mãe adotiva de Sandro. Só que ela já morreu, então não pode falar mais. Mas essa mulher não usava drogas.” Julieta conta que Sandro ficou por um ano com essa mulher, pois foi confundido com um filho dela desaparecido. “Ele foi ajudar essa senhora com as sacolas em um supermercado, e ela, conversando com ele, achou que havia encontrado seu filho que tinha o mesmo nome, mas desapareceu quando bebê. Sandro se aproveitou e ficou na casa dela.” No dia da pré-estréia de Última Parada 174, mesmo sem ser convidada, Tia Ju conta que se arrumou e foi até o Cine Odeon para assistir ao lançamento do filme. Ela acreditava que tinha direito a ver o filme que retrata algo que fez parte de sua vida, mesmo o filme não sendo fiel ao que realmente aconteceu. *Estudante de Jornalismo da Universidade Cândido Mendes/RJ. E-mail: daniele.barbosa@gmail.com |