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Saúde Pública
Uma situação de
calamidade
Por
Júlia Gaspar*

Presidente
do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, o obstetra Jorge Darze conhece
bem as dificuldades dos que dependem do sistema público de saúde. Nesta
entrevista, ele admite a situação de calamidade pública na área da saúde,
que causa grandes prejuízos à população. E denuncia o crime de
responsabilidade do poder público e a omissão completa dos governos que
não têm conseguido garantir as condições necessárias para que os hospitais
possam funcionar de maneira adequada.
BN - Como você avalia a
situação da saúde?
Jorge Darze
- Calamidade pública significa que o poder público foi incapaz de resolver
os problemas que envolvem o atendimento ao paciente. Então, a situação do
Rio é de calamidade pública e, lamentavelmente, tem comprometido
seriamente o funcionamento das unidades hospitalares e gerado enorme
prejuízo a população. Algumas pessoas têm perdido a vida, outras têm
dificuldades no atendimento e na marcação de consultas, no fornecimento de
medicamentos, na realização de exames de laboratório. Há uma situação
muito grave na assistência à saúde da nossa população no Rio de Janeiro.
BN - O que vocês fazem para corrigirem as irregularidades?
J.D. - As
questões graves que chegam ao nosso conhecimento ou tratamos diretamente
com o Ministério Público, ou o nosso departamento jurídico recorre ao
judiciário em nome dos médicos do Rio de Janeiro, tentando corrigir os
problemas que afetam o funcionamento das unidades. Felizmente, o
judiciário tem sido sensível aos nossos pleitos e ações e tem concedido
liminares importantes determinando ao poder público a correção dos
problemas que têm afetado diretamente o atendimento à nossa população.
Ainda, recentemente, nós conseguimos impedir o processo licitatório que
entregaria a gestão do Hospital de Acari à iniciativa privada. Insistimos
na gestão pública do Hospital de Acari. O judiciário interveio e
determinou que a licitação fosse suspensa e agora a prefeitura vai ter que
resolver essa questão, colocando um gestor público à frente do Hospital de
Acari. Exemplos como esse tem mostrado que tem sido difícil tratarmos as
questões que envolvem a saúde pública no Rio de Janeiro.
BN - Quem é o grande
vilão das irregularidades?
J.D.
- Temos, hoje, uma situação grave. O município do Rio de Janeiro, pelo
decreto presidencial, teve a sua gestão cassada pelo presidente da
república. Hoje, quem é o responsável pela gestão da saúde no Rio de
Janeiro é a Secretaria Estadual de Saúde, que não tem demonstrado
competência na gestão da sua própria rede. Há, realmente, no Rio de
Janeiro, o crime de responsabilidade do poder público, na medida em que
estamos constatando a omissão completa tanto do governo do município do
Rio de Janeiro, quanto do Governo do Estado, que não têm conseguido
garantir as condições necessárias para que esses hospitais possam
funcionar de maneira adequada.
BN - Quais as
principais razões da crise?
J.D.
- A crise da saúde pública no Rio de Janeiro tem três grandes razões. A
primeira é que os recursos são escassos, na medida em que esses governos,
ao invés de disponibilizarem todo o orçamento da saúde nas áreas próprias,
desviam para projetos sociais como o Cheque Cidadão, Restaurante
Popular e coisas do gênero. Esse financiamento tem contribuído muito
para acentuar mais a crise do próprio sistema. Com a falta de recursos,
os gestores dos hospitais não tem tido condições de fazer planejamentos de
médio e longo prazo. Outra situação grave é que as compras ocorrem apenas
pelo sistema emergencial, na qual são sempre preços mais altos, o que
contraria a legislação que regulamenta a administração pública, então há
improbabilidade administrativa, na medida em que os gestores sempre
escolhem as compras emergenciais. Por falta de recursos e planejamentos
não há estoque de medicamentos necessários para que esses pacientes possam
ser tratados de maneira adequada, ou receberem o medicamento numa consulta
ambulatorial. Ainda por falta de recursos não há investimentos para que
essa rede possa receber recursos de tecnologia moderna, trabalhamos com
uma tecnologia sucateada e ultrapassada, na qual a manutenção é
extremamente precária. A terceira grande razão é a ausência de uma
política de recursos humanos que possa garantir um efetivo de
profissionais para dar um suporte a essas unidades, garantindo atendimento
à nossa população. Por falta de uma política de recursos humanos temos um
déficit crônico que não se resolve, salários aviltados, condições de
trabalho inadequadas, que geram doenças nesses profissionais de saúde, uma
situação grave que preocupa a todos nós, porque não apresenta sinais de
melhoria, nem no momento, nem em médio prazo. Pelo cenário, a nossa crise
é de longo prazo.
BN - O que podemos
fazer?
J.D.
- É importante que a população se conscientize de que para romper com esse
ciclo vicioso é preciso que a sociedade civil organizada adote mecanismos,
instrumentos de luta e manifestação, exigindo que as autoridades assumam
de fato a responsabilidade que têm de garantir o bom funcionamento do
sistema. Não podemos esquecer que esse ano é importante, porque é ano de
eleições, uma época importante e oportuna para que a gente cobre desses
que estão se apresentando ao governo um compromisso, programas, projetos
de recuperação do sistema público de saúde.
*Estudante de
jornalismo da FACHA/RJ
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