Edição 110 - Aracaju, 17 de fevereiro a 16 de março de 2008
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  europa
Roma 42 graus
Os perigos das seduções italianas

Por Dimitri Ganzelevitch*
Foto Unesco
 
 

Viajar à Europa em agosto não é castigo que se deseje ao melhor amigo de sua esposa. Saio do aeroporto Leonardo da Vinci como um ovo após dois minutos de microondas. Férias romanas? Nem tanto, se bem que vai ser uma baita experiência. Recebi convite irrecusável do Teatro Potlach “tudopago” - passagens, cama e mesa -  para participar de uma montagem teatral em Farfa, a 50 quilômetros de Roma, no topo dos Montes Sabinos. Não pretendo aqui relatar minha inesquecível interpretação, que devo ser o único a julgar digna de figurar nos anais da História Universal do Teatro. Ficará para outra hora, com público leitor mais à zalturas.

Farfa é um destes típicos vilarejos italianos da secreta Úmbria. Nem dá para acreditar que, tão perto do Capitólio e do Coliseu, ainda haja quem, lhe ouvindo falar francês, pergunte: “Lei é tedesco?” Pela primeira vez na vida alguém me toma por alemão! Uma brava quitandeira, finalmente, descobriu que, por baixo de meu disfarce de velho careca e pançudo, se esconde um Helmut Berger fino, loiro e elegante...

A rua principal começa por um belo arco e termina por outro belo arco. Mais meia dúzia de ruas transversais que se perdem nas paisagens onde não faltam ciprestes à la Van Gogh. Uma velha fonte de pedra musgosa canta sua tranqüila musiqueta atemporal. A trattória, os dois bares, três lojas de souvenirs, passeios ocupados por obras de artistas nada geniais... E - perdão pela redundância - o espetáculo permanente e inebriante das rafaelíticas paisagens.

Mas o que faz de Farfa algo excepcional é seu convento. Claro que os fundamentos são romanos, como já adivinhou. Ainda visíveis os banhos, várias colunas, capitéis e outros vestígios. Tudo em autêntico mármore de Carrara, of course. Depois vem o bizantino, o românico, o gótico, o clássico, o barroco e o neoclássico. Devo esquecer meia dúzia de invasores e estilos na lista. Bem, você capitou, não capitou? Então relaxe e goze.

Entrar naquele monumento construído em nada menos que uns mil e quinhentos anos é viajar numa fabulosa máquina do tempo. Tudo regado a incenso e rosmaninho, com cheirosos resquícios de mozzarela e calabresa.

Durante uma semana, quando minha presença não é indispensável (é possível, sim!), vou com um casal amigo passear pelas redondezas. E haja curvas nas estradas vicinais!...São dúzias de vilarejos a cavalo sobre espinhas dorsais de pequenos, mas íngremes morros. Sempre um castelo, sempre uma igreja, sempre um restaurante onde o pecado da gula será sempre perdoado. E como pecamos! Cada saída é a descoberta de outra forma de preparar os mesmos ingredientes. Três franceses metidos começam a entender que a alta gastronomia nasceu foi na Itália mesmo.

Após meus inesquecíveis monólogos frente a um público pasmo por minha genialidade, deixamos a Úmbria para Roma, como deixaremos Roma para Nápoles e de Nápoles subiremos até Orvietto. Sempre emocionalmente submersos pelas paisagens, culinárias, museus, catedrais e igrejinhas, velhas torres e castelos, praças barrocas e jardins encantados, estátuas de deuses joviais e deusas perversas, pontes seculares sobre rios mitológicos... Até que uma noite chego estafado ao encontro de meus amigos no saguão do hotel e me declaro vencido, desnorteado, mareado por uma labirintite de saturação estético-cultural. 

“Amanhã vamos visitar Siena, mas depois eu quero voltar à França. Não agüento nem mais um dia de tanto deslumbramento. Isto não é vida para turista básico.”

Milagre, meus amigos concordam e efetivamente, na tarde do dia seguinte, o Citroën nos leva pelas vias mais rápidas até perto da fronteira francesa. Não é bem que a França seja alguma Cubatão, mas, pelo menos, as perspectivas nos são mais familiares, as surpresas menos emocionantes.

Passam-se dois ou três anos. Dia desses, conversando sobre esta indigestão de beleza e conseqüente repulsa com o amigo Serge, que reina sobre um exército de donzelas em Saint-Tropez e, em duas horas, pode ir comer sua macarronada no idioma. Condescendente, ele afirma: “Mas isto é muito conhecido. Chama-se a síndrome de Stendhal”. Eu não fazia idéia, perdão pela ignorância, mas foi o autor de O Vermelho e o negro que catalisou e definiu o mal-estar dos amantes do Belo-Radical. Excesso de perfeição pode levar à loucura, sim sinhô.

Portanto, boa gente, saiba que, se você tiver um apetite cultural sem gargantualismo, saiba, sim, que é estafa certa, comprovada. Até existe nos arredores de Florença uma clínica especializada em tratamento de turistas que não conseguem engolir – e muito menos digerir - as toneladas de “Oh! Que lindo! Ah! Que maravilha!” proporcionadas pelo espetáculo permanente que esta terra latina, pois não, lhe joga na cara, sem dar a mínima bola para as perigosas conseqüências.   

O único antídoto que posso recomendar é acampar, lá pelos efervescentes subúrbios de Feira de Santana - não desfazendo de tão nobre cidade - por três dias à sombra de alguma borracharia, daquelas bem marcadas por anos de graxa e rodeadas de lixo e carros enferrujados.

Só assim para esquecer as insistentes e perigosas seduções italianas.

* Marchand e colecionador franco-marroquino. Mora em Salvador. E-mail: dimitri.bahia@gmail.com