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arquivo pessoal
Os sentidos da memória
Histórias de vida de um franco-marroquino
Por
Dimitri Ganzelevitch*

I - Shalimar
A memória através do olfato
Minha mãe apreciava muito “L´heure bleue” e os sabonetes da marca
Guerlain. No fim da vida dava preferência ao delicioso “Samsara”. Assim que,
cada vez que eu passava por Paris, ia até a Avenue des Champs-Élysées fazer
uma visita à pequena e sofisticadíssima loja desta centenária perfumaria.
Naqueles tempos os produtos Guerlain só podiam ser encontrados nas lojas da
casa. Nada de duty-free de aeroportos, nada de centros comerciais. Isto por
decisão testamentária do fundador. Durante o prazo de cem anos, os perfumes
e derivados Guerlain seriam distribuídos unicamente nas lojas da famosa
marca.
A dos Champs-Élysées tinha fachada sóbria, quase franciscana. Uma
sala quadrada totalmente revestida de mármores de várias cores: o piso, as
paredes - incluindo as estantes - e quatro pequenos balcões colocados nos
cantos, enviesados. Cadeiras convidativas completavam o charme desse templo
do olfato. As vendedoras, sempre as mesmas, envelheciam com distinção.
Vestidas com tailleurs clássicos, talvez assinados por Jacques Fath ou
Christian Dior, atendiam, amáveis, um público geralmente também discreto, a
verdadeira elegância, ontem e sempre, sendo a mais total ausência de
ostentação, a anos-luz de Versace e Ivana Trump.
Naquele dia, esperando minha vez, observei uma senhora, já madura,
abrigada do frio outonal por confortável casaco marrom de lã, muito bem
cortado. Perto da gola, uma jóia de grande ourives alegrava sobriamente sua
fina silhueta. Na cabeça um chapéu de feltro lembrando gorro, também marrom,
levemente inclinado de lado. A mão direita, livre de luva, apontava os
frascos que iria levar. Após pagar com algumas notas – estou falando da
década de 70, pré-história do cartão de crédito – ao se despedir da
vendedora, com certeza velha conhecida, esta lhe perguntou “Posso perfumar a
senhora?” A cliente respondeu simplesmente “Shalimar”. Imediatamente recebeu
uma pequena nuvem do mágico perfume criado em 1925.
Ao sair da loja, passou por mim, honrando-me com majestoso sorriso.
Tive assim a possibilidade de observá-la melhor. Tinha mais de sessenta anos
e sem ser bela, era a concretização da mais absoluta classe. Quem podia ser?
A esposa de algum embaixador, de um ministro?
Lá fora, um longo carro esperava. O motorista abriu apressadamente
a porta.
Ah! Ia esquecer um detalhe: a senhora era negra.
II -
Sapatos vermelhos
A memória através do olhar
Uma sala de embarque, entre tantas, num aeroporto qualquer. Não dá
para lembrar quando nem qual. São todos tão parecidos...
Já tomei café, andei pelo duty-free, não fumo, não gosto de whisky,
verifiquei meu cartão de embarque. Cansei de folhear os semanários, de
escrever meu diário de viagem. Prefiro observar a sociedade efêmera que em
poucas horas terá se diluído para dar espaço à outra, com atores
estranhamente parecidos nas suas diferenças.
Tubulações correm ao longo dos corredores e nos tetos metálicos,
imensas vidraças sobre paisagens – fundo azul, fundo cinza - de pistas e
aviões. Muito distante, alguma cidade ou mato, um saco de plástico dançando
ao vento. Passarinhos atrevidos que encontraram forma de voar livres nestas
prisões anônimas.
Meu avião está atrasado. De vez em quando levanto para verificar
meu horário no painel. Uma criança chora. Uma mulher de burka azul lê uma
revista de moda. Dois homens discutem de negócio. Três jovens mochileiros
sentaram no chão frio. Comem hamburgers.
As salas são separadas umas das outras por outras vidraças que uma
equipe de homens de macacão verde lava sem descanso com longas vassouras
felpudas.
O constante apelo de vozes indicando chegadas e saídas acaba
formando uma espécie de difusa sinfonia concretista. Cheiro asséptico,
vagamente desagradável.
Da sala do portão B14 – ou será H3? - observo de longe, na sala
vizinha, um homem sem idade, calvo, de magras macarronadas de cabelo tingido
coladas no topo da cabeça. Veste calça e blusão de jeans, camiseta cinza. Ao
levantar-se, noto os curiosos sapatos vermelhos. Não são marrom ou
berinjela, não. Vermelhos mesmo, e envernizados. Reluzem por si, têm luz
própria. Impossível definir a profissão, o estado civil, a nacionalidade do
viajante. Nada parece identificá-lo a não ser estes absurdos sapatos
flamejantes. Nada?... Noto evidente mal-estar no comportamento. Não pára de
sentar, levantar, arrumar suas coisas, olhar o relógio. Mastiga chiclete com
irritação. Imagino que este homem não tardará em sofrer do coração ou, quem
sabe, de uma úlcera...
De repente ele repara que o estou observando. A partir deste
momento, a situação se inverte. É ele que agora me segue com seus olhos, de
uma forma insistente, quase invasora. Esforço-me em desviar minha atenção.
Abro um jornal, vou até o painel de embarques. Continuo sentindo
seu olhar cravado nas minhas costas, como o sapo aguarda o mosquito, sem
descanso, fixo, obsessivamente.
O tempo parou. Meu relógio não avança mais. Por que tanta
insistência no olhar deste homem? Não existe ambigüidade, não há o mínimo
jogo de sedução, nenhuma sombra de sorriso. Nada mais que um olhar vazio,
persistente, inquisitivo.
Chamada para o próximo embarque. Aliviado, reparo, discretamente,
que o homem dos sapatos vermelhos se levanta, pega sua mala e se prepara
para embarcar. Entra na fila e, imediatamente, dois homens se colocam de
cada lado, silenciosos.
O careca ainda vai virar por várias vezes a cabeça na minha
direção, buscando meu olhar e só então descubro nesta mirada como uma
suplica muda, já longínqua. Os sapatos continuam reluzindo, vermelhos.
O corredor tubular digere os passageiros...
A mulher de burka folheia a mesma revista.
III - Pão e vinho
A memória através do gosto
O carro desliza pelas estradas do Alentejo. Céu de maio, como recém
lavado. Azul, azul, azul, de ponta a ponta. Ar perfumado da puberdade. Ar
erótico de primavera debochada. Os olivais prateados hospedam centenas de
cegonhas. Paisagens ondulantes como lago sob a brisa. Em tempos imemoriais,
ciclopes espalharam, cá e lá, enormes blocos de granito negro, á sombra dos
quais pastam dóceis ovelhas brancas. Milhões de flores vermelhas, azuis ou
amarelas, foram jogadas pouco antes de nossa passagem.. O dia principiando
ainda oferece uma temperatura fresquinha e o Citroën nos é confortável
ninho.
Resistindo à perigosa tentação de correr pela cidade de templo
romano em convento barroco, paramos em Évora só para comprar pão, frutas e
queijos.
Ah! Este cheiroso pão saloio!...
Ah! Estas luminosas frutas colhidas no pomar vizinho...
Ah! Estes gordurosos queijos amadurecidos em grutas montanhosas...
Um caminho vicinal corre para o sul, em país de repente mais plano.
São 35
quilômetros de pouca curva em direção a Viana do Alentejo
O que será que nos atrai num povoado que, de forma geral, nunca
figura nos mapas? A curiosidade. Dias antes de viajar para Portugal,
comprara na Berinjela, sebo baiano onde sempre desencanto preciosidades, um
livro fartamente ilustrado sobre as igrejas lusitanas. Pronto, encontrei o
tema da viagem, já que com a companheira e cúmplice Claudine, sempre
tentamos partir de uma proposta para vasculhar pedaços deste vasto planeta.
As igrejas de Portugal seriam, e assim foram, nossa meta.
Encontramos um povoado plantado em modesto morro, acidental
saliência da planície. Todo branco e amarelo, adormecido no domingueiro
silêncio à sombra da igreja. Esta, pesada e atarracada, de pedra dourada,
encosta-se a muralha medieval onde não faltam redondas torres de conto de
fadas. Lembro as igrejas da Guatemala pela falta de soberbos campanários,
como se o templo estivesse à espera de remoto terremoto. O belo portão
manuelino dá seu toque de novo mundo á sóbria fachada. Passeamos pela aldeia
deserta até sentarmos no único banco da praça, junto a medieval fonte.
Quantas gerações de donzelas vieram aqui encher sua jarra na torneira gasta,
aproveitando para namorar silenciosos pastores ou, quiçá, valentes cruzados?
Na tasca, uns poucos metros quadrados de semi-escuridão
contrastando com o sol forte do
meio-dia,
contêm, em volta do balcão, toda a animação de Viana do Alentejo. Uns homens
rudes de voz grossa e mãos calejadas, o boné enfiado desde manhã cedo até a
noite fechada, falam de lavoura, de vinho e de política local. Quando entro,
um súbito silêncio me dá a exata medida deste microcosmo. Peço uma garrafa
de vinho verde e dois copos. Permissão para levá-los lá fora onde Claudine
me espera. Ela já tirou dos papéis os queijos, o pão e lavou na água da
fonte as cerejas e os primeiros pêssegos da estação.
Uma velha faca corta finas fatias de pão cheiroso para receber
generosas porções de queijo. Para tanto, abri uma tampa no Azeitão maduro. O
paladar se alegra da pasta cremosa, levemente amarga. Impossível parar antes
de acabar este pedaço de paraíso comestível. Passamos então para os
queijinhos frescos que derretem na boca. O Alvarinho é fresco e picante,
leve e discreto com uma ponta de acidez como para lembrar que vamos dirigir
dentro de instantes. As cerejas, doces e crocantes, são de um lindo vermelho
obscuro. O sol acaricia nossos ombros, uma brisa levanta as cortinas das
janelas entreabertas...
IV - Ode ao silêncio
A memória através da audição
365 manhãs por ano, o quartel dos fuzileiros navais, a
300 metros em vôo direto desde o Comércio até
minha cama com vista para a baia, ás 6 horas pontualmente, me acorda com
microfone e 75 decibéis no ouvido clamando “Fuzileiros navais!... Alvorada!
Alvorada!”.
E isso, desde 1989, quando me mudei para minha atual casa.
...Bem. Não é exatamente assim, mas quase. Vamos ao detalhe.
Durante 10 anos, tive que aturar, e o resto do bairro comigo, uma
corneta irritantemente desafinada. Ainda com preguiça de levantar do
aconchegante leito, imaginava um pobre coitado de militar infeliz, olhos mal
abertos, recém-chegado de Monte Santo ou dos subúrbios de Vitória da
Conquista a quem, por puro sadismo, algum sargento obrigara a soprar na
“porra da frauta” (cf. Fred Dantas) para acordar os colegas. E realmente o
rapaz conseguia acordar, não somente os colegas, mas a vizinhança inteira.
Nem que fosse pelas dissonâncias e desafines.
Lá pelo fim dos anos 90, de repente, a corneta foi substituída por
aquele acima mencionado apelo do microfone. E não pensem que o agito vai
parar tão cedo. Antes das 8, novo apelo, desta vez para a subida das
bandeiras.. Aqui também, a corneta foi abandonada. Microfone de novo. “...
Arriou!”
Não passou uma hora e o quartel novamente mobilizado pelos mesmos
alto-falantes para o ensaio do sinal de alerta. A sirena funciona. Funciona
sempre. Que alívio! Já pensou, se os submarinos inimigos, suíços ou
bolivianos – why not? - de repente se lembrassem de surgir das águas
mornas da baía para invadir o Comércio, e nós, sem alerta estridente para
pegar nas armas e defender a terra do Chiclete com Banana?
Agora entendo que o governo, prudente, tenha resolvido mudar o
centro administrativo e financeiro lá para o traseiro (fineza não faz mal a
ninguém) do mundo.
Evidente medida de segurança nacional!
Bom, já que a sirena de alerta funciona, vamos ao corriqueiro.
Durante o dia inteiro, teremos apelos para o “Soldado Fulano... portão de
entrada”, “ Soldado Beltrano...” , “Senhor Comandante...”
Meu Deus, de quantas mensagens urgentes e ultra-secretas o gentil
povo da Bahia é obrigado a participar!...E os perigosos espiões que lotam as
pousadas do bairro de Santo Antônio, não são uma festa para eles? Imagino os
relatórios que mandam ás embaixadas inimigas em Brasília, sempre em
alambicados códigos. A guerra fria, comparada, foi fichinha!
Viremos a página, senão vão me taxar de antimilitarista.
Mesmo que houvesse falta de energia no quartel d´Abrantes, aqui
está a cadela do vizinho que começa a latir – de
70 a 75 decibéis - desesperadamente antes das 6 da matina, chova ou
faça sol.
Após o despertar intempestivo, quando chegam fins de semana e
feriados, lá pelas 7 e se o tempo se mostrar amigo, outro vizinho vai
instalando suas caixas de som. Nem sempre no mesmo lugar. Às vezes do lado
da rua, outras na porta do quintal. Durante horas e horas, exacerbando os
infelizes moradores da área com um mínimo de 80 alegres decibéis, teremos
direito ao sucesso mais brega, mais débil, repetido até a loucura geral.
Quem não se lembra da obsessiva canção “Lily Marlene” no filme de Fassbinder,
que levando a cantora à loucura? Pois é, música, mesmo boa, também pode ser
tortura, quanto mais ruim.
Ah! Quem me dera o profundo, incomparável prazer de um dia de
silêncio, uns 60 decibéis?!...
V - Sua mão
A memória através do tato
Sou de uma geração educada com rigor militar. Não me lembro do colo
de minha mãe nem de passeio guiado pela mão paterna, e de minhas avós pouco
mais que um rápido beijo de boa-noite. Nasci pouco antes da Segunda Guerra.
Menino tinha que cedo ser preparado para enfrentar as agruras da vida,
incluindo alguma hipotética guerra. Cresci e amadureci com tais estranhos
princípios, sem adivinhar quanto eram absurdos, pois mesmo a leoa lambe seus
filhotes e o jacaré carrega, na terrível boca, sua prole, com a mais extrema
delicadeza.
Chegando ao Brasil, de repente, entrei numa cultura comportamental
radicalmente oposta. A cultura do abraço, do beijo, do toque amistoso. Você
ainda nem cumprimentou a moça recém apresentada e ela lhe permite beijar a
bochecha. Encontrou o sujeito na semana passada, conversou por dez minutos e
hoje lá vem ele com imenso sorriso e aquele abraço. Alguém pretende passar
na multidão? É só um leve toque com a mão, no braço ou no ombro alheio, e a
muralha se abre com um pois-não. Beijou a mão da senhora? Ela também beijará
a sua.
Quantas pessoas terei tocado no trabalho, na quitanda, no ônibus ou
na saída do cinema, durante um dia qualquer na Bahia? O efeito psicológico
pode ser detalhado sem hesitação. Tocar alguém é desarmá-lo de qualquer
eventual desconfiança. É mais que um contrato de não-agressão: é uma
promessa de amizade, por efêmero que seja o momento.
Tocar seu semelhante é lembrar que somos humanos e gregários,
frágeis e inseguros.
Carentes também. Ô quanto carentes!...Carentes de afeto, de
compreensão, perdão, cumplicidade. Existirá sempre dentro de nós a criança
que pede colo para dormir no braço protetor.
Mas tocar é muito mais que romper barreiras, é a prova maior de que
somos vivos.
Acompanhei os últimos instantes da vida de minha mãe, durante uma
longa noite de agonia. Interminável silêncio, carregado de tantas coisas que
se atropelavam na minha tristeza, coisas que teria gostado de, enfim,
confessar. Mas era tarde demais. O único cordão, tão tênue, que ainda nos
unia, era o calor de minha mão cobrindo a sua, pássaro ferido e mudo, quase
frio, sem mais força nem para mover um dedo. Restava apenas a lenta pulsação
das salientes veias azuis.
Nunca saberei se ela tinha então consciência de nossa proximidade
física.
Nunca estivera tão perto dela como naquela hora em que ela se
afastava para muito longe, para sempre...
* Marchand e colecionador franco-marroquino. Mora em Salvador.
E-mail:
dimitri.bahia@gmail.com
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