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entrevista Douglas Duarte As várias faces do mito Che Guevara
Por Paulo Lima Essas variadas reinterpretações do mito do guerrilheiro argentino são o tema do documentário Personal Che. Seus diretores, o brasileiro Douglas Duarte e a colombiana Adriana Mariño, percorreram 12 países e descobriram sete histórias diferentes com um ponto em comum: a veneração à imagem de Che Guevara. Na Bolívia, ele virou um santo milagreiro. Em Cuba, é identificado como herói. Na Alemanha, ídolo de neonazistas. Em Hong-Kong, um rebelde que serve de inspiração a um político. Nos Estados Unidos, um ídolo e produto à venda estampado em camisetas, buttons e chaveiros. E, no Líbano, tema de uma ópera-rock. O filme foi exibido nas últimas mostras de cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo, arrancando reações extremadas da platéia. “Teve gente que me xingou nas exibições, houve quem deixasse o cinema gritando que aquilo não era Che Guevara”, disse Douglas Duarte. O Personal Che repercutiu na imprensa internacional, tendo sido objeto de reportagens da TV Al Jazeera e do jornal sueco Sydsvenskan.
A idéia para o documentário nasceu em 2004, numa viagem que Douglas Duarte fez à Bolívia. “Lá tive contato com adolescentes de esquerda querendo refazer os últimos passos de seu ídolo, com um dos militares bolivianos que comandaram sua captura e com camponeses que atribuíam a Che milagres”. Foi então que surgiu, segundo Douglas, a noção da existência de vários Ches. A narrativa de Personal Che mistura relatos de pessoas comuns com entrevistas de intelectuais como o jornalista Christopher Hitchens, o historiador da arte David Kunzle, o publicitário Oliviero Toscani e o repórter da New Yorker Jon Lee Anderson, autor da biografia definitiva sobre Che Guevara (Che Guevara - uma biografia, Editora Objetiva). Um amplo espectro que só vem comprovar o longo alcance – e a longa vida – de uma das figuras mais polêmicas do século 20. “No começo das filmagens achávamos que Che era um pote vazio onde as pessoas punham o que bem entendessem”, afirmou Douglas. “O que percebemos ao longo do processo é que, sim, as pessoas o reinterpretavam, mas aquele conceito não era absolutamente vazio.” Personal Che é o primeiro filme de Douglas, jornalista de 31 anos com passagens pelas redações de O Globo e Jornal do Brasil, com atuações como produtor na redes de TV BBC e na NHK e colaborador das revistas Piauí, Gatopardo (Colômbia) e Trip. Apesar de suas dimensões, o filme foi realizado num esquema de baixo orçamento. “Eu e Adriana cuidamos de tudo, desde as entrevistas até a filmagem, a compra de passagens e busca dos pulgueiros onde nos hospedamos. Foi um documentário de guerrilha – guerrilha internacionalista, como cabe”. Personal Che está previsto para ser lançado comercialmente em meados de 2008, conforme explica Douglas Duarte na entrevista a seguir concedida por e-mail. *** BN - Como surgiu a idéia do documentário? Douglas Duarte - Em 2004, fui à Bolívia com uma equipe da TV japonesa NHK. Era uma matéria sobre como a área de operações da guerrilha de Che tinha se tornado uma atração turística. Lá tive contato com adolescentes de esquerda querendo refazer os últimos passos de seu ídolo, com um dos militares bolivianos que comandaram sua captura e com camponeses que atribuíam a Che milagres. Ficou claro pra mim que não se podia mais falar de um Che, mas de vários. Cada um tinha seu Che pessoal. BN - O filme demandou vários deslocamentos pelo mundo. Como ocorreu o processo de financiamento do projeto? D.D. - Antes de qualquer financiamento, em 2005, eu e Adriana Mariño, a outra diretora do filme, fomos para a Bolívia e, com dinheiro do nosso bolso, filmamos material que se transformou num curta sobre os devotos de Che. Uma produtora de dois latino-americanos em Miami viu o curta e comprou a idéia. Mas é preciso dizer que apesar de ser um projeto que parece enorme – filmagens em 12 países, etc – Personal Che foi um filme muito barato de se fazer. Eu e Adriana cuidamos de tudo, desde as entrevistas até a filmagem, a compra de passagens e busca dos pulgueiros onde nos hospedamos. Foi um documentário de guerrilha – guerrilha internacionalista, como cabe. BN - Em quanto tempo foi finalizado? E qual a perspectiva de lançá-lo comercialmente? D.D. - Depois de quatro meses de filmagem intermitente, tínhamos 100 horas de material. Material muito selvagem, por sinal. Levamos oito meses e um igual número de edições para descobrir um caminho para contar a história. O mais difícil foi decidir quando saltar de uma das sete histórias para outra, como orquestrar sete narrativas diferentes num todo que fosse mais que a simples justaposição delas. Ainda estamos negociando o lançamento do filme, que deve acontecer no meio de 2008.
BN - Em que termos se estabeleceu sua parceria com Adriana Mariño? D.D. - Nos conhecemos num fórum de documentaristas na internet. Ambos éramos latinos (Adriana é colombiana) e queríamos produzir documentários menos jornalísticos sobre essa realidade em que vivemos – Che é parte importantíssima dela. Cada um trouxe uma bagagem. Adriana (foto acima, com Douglas) tem muita experiência em documentários para TV, mais estruturados e decupados, enquanto eu tendo a deixar as coisas acontecerem de forma mais solta, ainda que interagindo muito com as personagens. Não foi uma colaboração sem sobressaltos. Talvez exatamente por isso, muito rica. BN - Como vocês chegaram aos personagens mostrados no filme, como o político de Hong Kong, o ator no Líbano etc.? Como é que se deu esse trabalho de produção? D.D. - A investigação foi feita de várias formas. Encontramos alguns na internet, caso de Líbano e Hong Kong. Amigos sugeriram outras histórias. Houve gente – principalmente no interior da Bolívia – que encontramos depois de horas de conversa e andança na feira da cidade. E por fim o acaso também teve sua mão, como acontece muito em documentários: nosso personagem cubano, um taxista, caiu no nosso colo por pura sorte. BN - O filme é econômico em termos de recursos técnicos: utiliza uma única trilha sonora e dispensa qualquer tipo de narração. Você tentou estabelecer um roteiro ou tudo foi definido no momento da edição? D.D. - Sabíamos que não queríamos nenhuma narração e que tínhamos tais e tais histórias. Como íamos ligá-las foi algo descoberto durante a edição. Coisas que pareciam fantásticas nas filmagens ficaram de fora, coisas a que não demos valor na hora foram fundamentais para o filme na edição. BN - O historiador da arte David Kunzle afirma no documentário que Che Guevara é a figura mais popular do mundo. Você concorda com ele? D.D. - Acho que ele foi mais específico: Che provavelmente tem o rosto mais reproduzido da Terra. Levando em conta que a China tem um bilhão de habitantes, Mao pode vir em segundo. Cristo não conta: ele não era aquele alemão cabeludo que geralmente vemos. Os americanos, que adoram fazer esses cálculos pouco razoáveis, já afirmaram que, na média, uma pessoa em qualquer parte do globo vê Che pelo menos uma vez a cada dois dias. Muitas pessoas têm apenas uma idéia vaga do que o dono daquele rosto fez. Mas a maioria sabe bem o que ele significa. BN - Um dos momentos fortes do documentário é um filme do Che morto na lavanderia dum hospital na Bolívia, exposto à visitação. Como conseguiram chegar a esse arquivo? D.D. - Uma caçada que envolveu golpes baixos, golpes de sorte, muita conversa, tentativas de chantagem e meses de pesquisa. Um pequeno grupo de pessoas conhecia a imagem. Saber quem tinha o material e direitos para negociá-lo foi outra história. Quase ficou de fora – era cara – mas era a única imagem de arquivo que cabia no filme. BN - O contato com visões tão distintas de Che Guevara contribuiu para modificar sua própria visão sobre ele? E de que forma? D.D. - Cresci numa casa esquerdista. Gostava muito de Che na minha adolescência, mas depois me afastei um pouco desse imaginário revolucionário todo. Ou seja, Che já era uma figura com que eu tinha abertura o bastante para ser irreverente – tenho admiração, mas não reverência. No começo das filmagens achávamos que Che era um pote vazio onde as pessoas punham o que bem entendessem. O que percebemos ao longo do processo é que, sim, as pessoas o reinterpretavam, mas aquele conceito não era absolutamente vazio. Bush nunca vai poder usar Che. A situação nunca vai poder usar Che. Che é pro índio, não pro caubói. BN - A história de Ernesto Che Guevara foi explorada em vários documentários - a maior parte, de caráter laudatório -, e de forma ficcional, como em Diários de motocicleta, de Walter Salles. Como vocês situam o seu esforço com o Personal Che? D.D. - Nosso ponto de partida é que o filme não teria o que filmes sobre Che, tanto contra quanto a favor, em geral têm: Carlos Puebla cantando “Comandante Che Guevara”, músicas pungentes, fotos filmadas, imagens dos discursos dele, um narrador sóbrio explicando coisas. Fomos radicalizando nossas decisões ao longo do caminho. Terminamos não usando sequer uma entrevista de alguém que o conhecesse pessoalmente. Queríamos o print the legend, que nos parecia muito mais interessante. O mito que se impõe sobre o homem, e não o homem por trás do mito. Para saber quem foi o homem há ótimos livros e (poucos) filmes bons. BN - O documentário em si não estaria contribuindo, de alguma maneira, para a perpetuação do mito? D.D. - Talvez. Mas pelo menos as pessoas vão ter um cardápio de Ches para escolher – sete diferentes. Mas o impulso não era desmistificar ou mitificar nada. Era simplesmente observar que o mito é plural. Não sei. A construção de mitos como esse, na minha cabeça, pressupõe um pensamento meio dogmático – “só o meu é verdadeiro, o outro é mentira”. Mitos não devem ter bastidores. Personal Che é sobre os bastidores de um. Teve gente que me xingou nas exibições, houve quem deixasse o cinema gritando que aquilo não era Che Guevara. BN - O Personal Che repercutiu até na Suécia, foi objeto de matéria da TV Al Jazeera, e foi escolhido para mostras em Nova York, Bogotá, Rio de Janeiro e São Paulo. Essa acolhida surpreendeu vocês? D.D. - Até agora estou boquiaberto. Ponho tudo na conta do nosso protagonista. O melhor ainda é o encontro com o público. Foi pra cutucá-lo que o filme foi feito. E até aqui cumpriu a tarefa bem, apesar dos vários defeitos que tem. BN - Che Guevara morreu há 40 anos, e desde então o mito em torno de sua figura só fez aumentar. As prováveis transformações que deverão acontecer em Cuba, após a morte de Fidel Castro, poderão enfraquecer ou pôr fim à longa vida desse mito? D.D. - Essa é a opinião de algumas pessoas entrevistadas – Christopher Hitchens, por exemplo. Não concordo. A maioria das pessoas já não associa Che a Cuba faz muito tempo. Acho que ele se tornou maior que isso. E quem sabe as mudanças não levarão Cuba mais pra perto do que Che acreditava? É fácil ouvir piadas sobre Fidel na ilha, mas não sobre Che. É um senhor mito fundador o que eles têm. Bonito, corajoso, íntegro, desapegado do poder… Pode muito bem acontecer de Cuba se tornar uma república guevarista, seja lá o que decidam que isso significa: socialista e libertária, talvez? As pessoas precisam de justiceiros. BN - O que você achou da opinião de Oliviero Toscani de que a única coisa boa que Che Guevara fez foi servir de modelo para a famosa foto de Alberto Korda? Você inclusive sorri ao ouvir Toscani... D.D. - Sorrio não, rio mesmo. Me pareceu uma proposição interessantíssima ver a Che como um modelo fotográfico. Toscani é cheio delas. É uma pena que o público não tenha visto sua entrevista completa. Inicialmente, pode parecer que Toscani aponta para uma desideologização de Che: é um rostinho bonito e nada mais. Mas vejo uma outra camada de sentido ali – e é preciso ter vivido com essa frase por oito meses para entendê-la assim: o que Che fez na Revolução Cubana pertence a Cuba e a um momento histórico definido. Ter se tornado um estandarte útil para quase qualquer revolução popular, em qualquer contexto, em qualquer fuso, é muito mais poderoso. BN - Que personal Che, que história revelada no filme mais o impressionou? Por quê? D.D. - O Che santo dos bolivianos, talvez por ser o inaugural, ainda me impressiona muito. É de uma imaginação fantástica! O Che dos nazistas também me surpreende até agora, mostra o quanto um mito pode ser moldado e instrumentalizado para os mais diversos fins. Na verdade, há um discurso subterrâneo sobre o poder em Personal Che e todas as histórias remetem a ele. Não está absolutamente claro no filme, mas entendendo Che se entende um pouco de Bush, de Hitler, de Jesus, de Lula, de Chávez. Porque gente assim lidera? Che, seja pelo carisma, pela beleza, pela violência, pelo messianismo, tem elementos de todos eles. Entendê-lo ajuda a ver líderes de forma mais sóbria – líderes são sempre uma cachaça, não? BN - E, afinal, qual é o seu personal Che? D.D. - É o do filme. |