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Mundo Digital
Ficção... mas nem
tanto
Os e-books ganham cada vez
mais força como opção de leitura, assustando editores tradicionais, mas
despertando o interesse de leitores afoitos
Por
Paulo Marcio Vaz*

O aluno chega ao colégio portando apenas uma
caixinha com alguns CDs. Senta-se em sua carteira, de frente para o
computador. A professora da classe dá as ordens: “Vamos inserir agora o
livro de matemática. Abram na página 137.” Nosso amiguinho, então, pega um
dos CDs, insere no computador, clica em dois ou três botões e...pronto! Lá
está a página 137.
A cena descrita acima é uma história de ficção. Mas
qualquer relação com fatos, pessoas ou acontecimentos reais não é mera
coincidência. Hoje, com o avanço das novas tecnologias é totalmente
possível, embora ainda improvável, que estudantes troquem as pesadas
mochilas carregadas de livros de papel, por caixinhas de CD-ROMs,
onde todos aqueles livros estejam contidos, letra por letra, em formato
digital.
Os leitores mais afoitos dizem: “ Que maravilha!”. Já os
autores mais antigos, assim como seus editores, alertam: “Que perigo!” E
parece que todos estão certos.
Desde o advento da internet e das mídias digitais,
uma nova forma de livro apareceu: o E-Book. Saem papel e tinta.
Entram CDs, chips e telas de computador. Os livros digitalizados há alguns
anos já são realidade. Assim como acontece com os CDs e as músicas em
formato mp3, também há sites onde já se pode fazer “download” de
livros inteiros. Obras de domínio público, de autores como Machado de
Assis, Castro Alves, Franz Kafka e outros gênios da literatura já podem
ser inteiramente carregadas, de graça, para o computador.
Verdadeiras bibliotecas virtuais estão cada vez mais
disponíveis na grande rede. Aparelhinhos digitais em formato parecido com
o de um livro, porém com uma tela no lugar das páginas, já estão no
mercado. Nessa espécie de “tocador de livros mp3”, podemos armazenar
páginas e mais páginas virtuais. É prático, leve e cabe em qualquer lugar,
como qualquer livro. E com uma vantagem. Quando acabarmos de ler,
poderemos deletá-lo. Não vai ocupar espaço nas prateleiras. Ótimo,
não é? Depende.
Muitos especialistas discutem se isso seria o fim
dos livros de papel e outros vão ainda mais além: se por um lado a
facilidade de se ler um livro na internet ou num aparelho de e-book
portátil pode gerar uma inédita democratização e facilitar a leitura em
nível mundial, por outro, ameaça de forma perigosa o direito autoral e o
“ganha pão” de escritores e editores. Sem proteção, suas obras podem ser
pirateadas, copiadas e até mesmo adulteradas pelas facilidades com que a
mídia eletrônica manipula qualquer documento digital.
A discussão ganhou mais fôlego depois que os gigantes da
mídia eletrônica demonstraram interesse em entrar de vez nesse mercado. Já
está no ar o Google Print, um serviço que pretende disponibilizar
na internet, em 10 anos, 15 milhões de livros das bibliotecas das
universidades de Oxford, Harvard, Stanford, Michigan e da biblioteca
pública de Nova York. A Amazon promete para 2006 novos serviços
como o Pages e o Upgrade, ambos de venda de livros virtuais.
A Microsoft, o Yahoo e o Internet Archive anunciam a
formação de uma grande sociedade que, assim como a Amazon, também
vão oferecer de forma virtual livros das bibliotecas acadêmicas e públicas
das universidades de Columbia, Johns Hopkins, Califórnia e Toronto, além
dos acervos do Museu Histórico de Londres e do Instituto Smithsonian.
A União Européia também já anunciou que pretende inserir
todas as bibliotecas do velho continente na grande rede. Lembrando as
antigas corridas armamentistas, essa verdadeira corrida
tecnológico-literária resultará na digitalização e disponibilização, na
internet, dos livros de bibliotecas acadêmicas e museus de quase todo o
mundo.
Como resultado, escritores e editores já começam a mover
processos na justiça alegando violação de direitos autorais. A Google
é a primeira vítima e a situação promete esquentar cada vez mais. Na
verdade, a situação da digitalização de livros assume contornos parecidos
com o caso da digitalização da música. Ambas as questões precisam ser
bastante debatidas para que se chegue a uma conclusão, procurando uma
forma de, ao mesmo tempo, democratizar e facilitar a leitura e o acesso
aos livros, porém sem sacrificar o sustento de quem os produz. Afinal de
contas, a mídia eletrônica, para digitalizar livros precisa, em primeiro
lugar, de alguém que os escreva.
Diante da ameaça do fim do livro de papel, escritores e
leitores mas antigos e apaixonados pelo velho e tradicional formato são
quase unânimes em afirmar: o fim do livro de papel é praticamente
impossível. É bem verdade que já se foi o tempo em que enciclopédias eram
vendidas de porta em porta e pagas à prestação e com dificuldade.
Hoje, a informação contida em todos aqueles volumes, além
de gratuita, está disponível em qualquer tela de computador. Além disso,
o espaço físico que uma enciclopédia virtual completa ocupa hoje é
irrisório, se levarmos em conta os grandes e pesados volumes que
antigamente repousavam nas prateleiras de nossas casas. Os estudantes
também não podiam simplesmente recortar a ilustração de uma enciclopédia e
levá-la pra a aula. Na enciclopédia virtual, podem.
Mas há certos aspectos em que o livro de papel é imbatível:
a praticidade é um deles. Um livro não precisa de eletricidade. Millôr
Fernandes, um dos maiores cronistas brasileiros, acrescenta: “Livro não
enguiça”. José Saramago, prêmio Nobel de literatura, é mais poético em seus
argumentos: “É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não
se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido.” Parece que nosso velho
companheiro de papel ainda conta com admiradores de peso.
Especialistas do mercado também não acreditam que o
livro de papel se entregue assim tão facilmente. Eles apostam que as novas
tecnologias devem ser encaradas não apenas como adversárias, mas também
como aliadas do livro tradicional. Hoje em dia, o trabalho de produção de
um livro, da escrita até a impressão, é extremamente simples do ponto de
vista técnico. Ferramentas como Word e Page Maker tornam o
trabalho de editoração quase uma brincadeira de criança diante das antigas
técnicas e as gráficas mais modernas já dispensam até o velho e caro
fotolito na hora da impressão.
Os escritores, antigamente escravos do pergaminho,
do mata-borrão e posteriormente das “modernas” máquinas de escrever, hoje
dispõem de todas as facilidades para uma escrita rápida. Além disso, as
facilidades antes impensáveis permitem a visualização da obra antes mesmo
de editada. Também economizam papel, árvores, tempo e, conseqüentemente,
dinheiro. Antes de Gutenberg, por exemplo, uma Bíblia levava 10 meses para
ser copiada à mão e um exemplar custava 400 mil dólares. Não foi à toa
que o inventor da imprensa no ocidente imprimiu, logo de início, 180
exemplares do livro sagrado.
Voltando à historinha do nosso aluno que chega na escola
com seus livros em uma caixinha, segundo adeptos das novidades
tecno-literárias, é preciso encarar a realidade e reconhecer que a
evolução tecnológica chegou. Ela é inevitável. Por isso, cabe aos governos
e órgãos responsáveis pela fiscalização e controle da circulação, e do
respeito aos direitos autorais, a criação de mecanismos de proteção tão
avançados quanto as tecnologias que os ameaçam. Iniciativas pioneiras
tentam inovar também o conceito de direito autoral e copyright, como é o
caso do Creative Commons e do Copyleft , projetos ainda
embrionários que procuram aumentar a flexibilidade das regras de proteção,
possibilitando a cópia e até a alteração do conteúdo das obras, sem que
qualquer lei seja desrespeitada.
Diante de tanta polêmica e discussão, de tantas ameaças e
dúvidas, parece que nem tudo está perdido. É preciso lembrar que, seja
o livro virtual ou de papel, ele ainda é escrito por seres humanos que
pensam, raciocinam, se emocionam, choram e sorriem. Mesmo na frieza de uma
tela de computador, podemos encontrar a emoção de um personagem quente e
as idéias, brilhantes ou não, de um pensador.
A voracidade dos avanços tecnológicos, que muitas vezes não
respeita leis e direitos, felizmente ainda tem limites. Nem tudo ainda é
possível no mundo virtual. Por enquanto, o ser humano ainda é quem aperta
os botões. Na verdade, preocupante mesmo, será o dia em que não só os
livros, mas também os escritores forem simplesmente máquinas. Aí, será o
fim do mundo.
*Estudante
de jornalismo da FACHA/RJ
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