Webjornal - Mensal  - Edição 87 - Aracaju, 19 de fevereiro a 26 de março de 2006
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Mundo Digital

Ficção... mas nem tanto

Os e-books ganham cada vez mais força como opção de leitura, assustando editores tradicionais, mas despertando o interesse de leitores afoitos

Por Paulo Marcio Vaz* 

O aluno chega ao colégio portando apenas uma caixinha com alguns CDs. Senta-se em sua carteira, de frente para o computador. A professora da classe dá as ordens: “Vamos inserir agora o livro de matemática. Abram na página 137.” Nosso amiguinho, então, pega um dos CDs, insere no computador, clica em dois ou três botões e...pronto! Lá está a página 137.

A cena descrita acima é uma história de ficção. Mas qualquer relação com fatos, pessoas ou acontecimentos reais não é mera coincidência. Hoje, com o avanço das novas tecnologias é totalmente possível, embora ainda improvável, que estudantes troquem as pesadas mochilas carregadas de livros de papel, por caixinhas de CD-ROMs, onde todos aqueles livros estejam contidos, letra por letra, em formato digital.

Os leitores mais afoitos dizem: “ Que maravilha!”. Já os autores mais antigos, assim como seus editores, alertam: “Que perigo!” E parece que todos estão certos. 

Desde o advento da internet e das mídias digitais, uma nova forma de livro apareceu: o E-Book. Saem papel e tinta. Entram CDs, chips e telas de computador. Os livros digitalizados há alguns anos já são realidade. Assim como acontece com os CDs e as músicas em formato mp3, também há sites onde já se pode fazer “download” de livros inteiros. Obras de domínio público, de autores como Machado de Assis, Castro Alves, Franz Kafka e outros gênios da literatura já podem ser inteiramente carregadas, de graça, para o computador.

Verdadeiras bibliotecas virtuais estão cada vez mais disponíveis na grande rede. Aparelhinhos digitais em formato parecido com o de um livro, porém com uma tela no lugar das páginas, já estão no mercado. Nessa espécie de “tocador de livros mp3”, podemos armazenar páginas e mais páginas virtuais. É prático, leve e cabe em qualquer lugar, como qualquer livro. E com uma vantagem. Quando acabarmos de ler, poderemos deletá-lo. Não vai ocupar espaço nas prateleiras. Ótimo, não é? Depende.

Muitos especialistas discutem se isso seria o fim dos livros de papel e outros vão ainda mais além: se por um lado a facilidade de se ler um livro na internet ou num aparelho de e-book portátil pode gerar uma inédita democratização e facilitar a leitura em nível mundial, por outro, ameaça de forma perigosa o direito autoral e o “ganha pão” de escritores e editores. Sem proteção, suas obras podem ser pirateadas, copiadas e até mesmo adulteradas pelas facilidades com que a mídia eletrônica manipula qualquer documento digital.

A discussão ganhou mais fôlego depois que os gigantes da mídia eletrônica demonstraram interesse em entrar de vez nesse mercado. Já está no ar o Google Print, um serviço que pretende disponibilizar na internet, em 10 anos, 15 milhões de livros das bibliotecas das universidades de Oxford, Harvard, Stanford, Michigan e da biblioteca pública de Nova York. A Amazon promete para 2006 novos serviços como o Pages e o Upgrade, ambos de venda de livros virtuais. A Microsoft, o Yahoo e o Internet Archive anunciam a formação de uma grande sociedade que, assim como a Amazon, também vão oferecer de forma virtual livros das bibliotecas acadêmicas e públicas das universidades de Columbia, Johns Hopkins, Califórnia e Toronto, além dos acervos do Museu Histórico de Londres e do Instituto Smithsonian.

A União Européia também já anunciou que pretende inserir todas as bibliotecas do velho continente na grande rede. Lembrando as antigas corridas armamentistas, essa verdadeira corrida tecnológico-literária  resultará na digitalização e disponibilização, na internet, dos livros de bibliotecas acadêmicas e museus de quase todo o mundo. 

Como resultado, escritores e editores já começam a mover processos na justiça alegando violação de direitos autorais. A Google é a primeira vítima e a situação promete esquentar cada vez mais. Na verdade, a situação da digitalização de livros assume contornos parecidos com o caso da digitalização da música. Ambas as questões precisam ser bastante debatidas para que se chegue a uma conclusão, procurando uma forma de, ao mesmo tempo, democratizar e facilitar a leitura e o acesso aos livros, porém sem sacrificar o sustento de quem os produz. Afinal de contas, a mídia eletrônica, para digitalizar livros precisa, em primeiro lugar, de alguém que os escreva. 

Diante da ameaça do fim do livro de papel, escritores e leitores mas antigos e apaixonados pelo velho e tradicional formato são quase unânimes em afirmar: o fim do livro de papel é praticamente impossível. É bem verdade que já se foi o tempo em que enciclopédias eram vendidas de porta em porta e pagas à prestação e com dificuldade. 

Hoje, a informação contida em todos aqueles volumes, além de gratuita,  está disponível em qualquer tela de computador. Além disso, o espaço físico que uma enciclopédia virtual completa ocupa hoje é irrisório, se levarmos em conta os grandes e pesados volumes que antigamente repousavam nas prateleiras de nossas casas. Os estudantes também não podiam simplesmente recortar a ilustração de uma enciclopédia e levá-la pra a aula. Na enciclopédia virtual, podem.

Mas há certos aspectos em que o livro de papel é imbatível: a praticidade é um deles. Um livro não precisa de eletricidade. Millôr Fernandes, um dos maiores cronistas brasileiros, acrescenta: “Livro não enguiça”. José Saramago, prêmio Nobel de literatura, é mais poético em seus argumentos: “É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido.” Parece que nosso velho companheiro de papel ainda conta com admiradores de peso. 

Especialistas do mercado também não acreditam que o livro de papel se entregue assim tão facilmente. Eles apostam que as novas tecnologias devem ser encaradas não apenas como adversárias, mas também como aliadas do livro tradicional. Hoje em dia, o trabalho de produção de um livro, da escrita até a impressão, é extremamente simples do ponto de vista técnico. Ferramentas como Word e Page Maker tornam o trabalho de editoração quase uma brincadeira de criança diante das antigas técnicas e as gráficas mais modernas já dispensam até o velho e caro fotolito na hora da impressão.

Os escritores, antigamente escravos do pergaminho, do mata-borrão e posteriormente das “modernas” máquinas de escrever, hoje dispõem de todas as facilidades para uma escrita rápida. Além disso, as facilidades antes impensáveis permitem a visualização da obra antes mesmo de editada. Também economizam papel, árvores, tempo e, conseqüentemente, dinheiro. Antes de Gutenberg, por exemplo, uma Bíblia levava 10 meses para ser copiada à mão e um  exemplar custava 400 mil dólares. Não foi à toa que o inventor da imprensa no ocidente imprimiu, logo de início, 180 exemplares do livro sagrado. 

Voltando à historinha do nosso aluno que chega na escola com seus livros em uma caixinha, segundo adeptos das novidades tecno-literárias, é preciso encarar a realidade e reconhecer que a evolução tecnológica chegou. Ela é inevitável. Por isso, cabe aos governos e órgãos responsáveis pela fiscalização e controle da circulação, e do respeito aos direitos autorais, a  criação de mecanismos de proteção tão avançados quanto as tecnologias que os ameaçam. Iniciativas pioneiras tentam inovar também o conceito de direito autoral e copyright, como é o caso do Creative Commons e do Copyleft , projetos ainda embrionários que procuram aumentar a flexibilidade das regras de proteção, possibilitando a cópia e até a alteração do conteúdo das obras, sem que qualquer lei seja desrespeitada. 

Diante de tanta polêmica e discussão, de tantas ameaças e dúvidas, parece que nem tudo está perdido. É preciso lembrar que, seja o livro virtual ou de papel, ele ainda é escrito por seres humanos que pensam, raciocinam, se emocionam, choram e sorriem. Mesmo na frieza de uma tela de computador, podemos encontrar a emoção de um personagem quente e as idéias, brilhantes ou não, de um pensador.  

A voracidade dos avanços tecnológicos, que muitas vezes não respeita leis e direitos, felizmente ainda tem limites. Nem tudo ainda é possível no mundo virtual. Por enquanto, o ser humano ainda é quem aperta os botões. Na verdade, preocupante mesmo, será o dia em que não só os livros, mas também os escritores forem simplesmente máquinas. Aí, será o fim do mundo.

*Estudante de jornalismo da FACHA/RJ

                                 

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