Edição 106 - Aracaju,  07 de outubro a 11 de novembro de 2007
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  mundo novo
O humano e a tecnologia  
Ambientes virtuais representam uma ameaça ao convívio das pessoas

Por Elba Vieira*

Há alguns dias, presenciei uma cena que, a cada dia que passa, percebo que tem se tornado bastante comum. Refleti a respeito do que vi, e decidi registrar. O assunto envolve o inter-relacionamento entre o mundo tecnológico que vivemos (computador, celular, Internet, dispositivos portáteis, jogos e ambientes virtuais, etc) e o mundo humano (família, trabalho, lazer, educação, etc). A breve história a seguir é o ponto de partida desta abordagem.

Cena: num agradável e aconchegante restaurante de uma grande capital brasileira, lá estava eu degustando uma pizza com minha estimada mãe, trocando experiências, idéias, objetivos, histórias, quando, então, duas famílias se aproximaram – pais, filhos, avós – para degustarem igualmente a apetitosa pizza daquele lugar. Ao escolherem o local para sentar, todos se acomodaram com a ajuda de um garçom, exceto as crianças. Estas, com idades aproximadas de 10, 8 e 6, se acomodaram numa mesa à parte, enfeitiçadas com o “brinquedinho” à sua frente: um computador. Tão logo tinham chegado ao restaurante, a criança mais velha pediu ao seu genitor: “pai, me dá o computador?”. Atendendo ao seu pedido, o pai então sacou seu notebook da mochila e o passou para a filha, que, já bem familiarizada com a máquina, chamou as outras crianças, foram para uma outra mesa mais distante, e lá ficaram o resto da noite: naquele mundo particularmente digital; um mundo recheado de jogos virtuais, cores, luzes, imagens, botões...mas, igualmente isoladas daquele momento de convivência entre pessoas, de conversas, risos, choros, histórias, enfim, daquilo que é parte de um dia comum, numa família comum, num lugar comum.

Refletindo um pouco sobre esta pequena história: até que ponto deixo de ser parte de um mundo real, humano, para ser parte de um mundo virtual? O que ganho? O que perco? É fuga? De quê?

Uma pesquisa do Ibope revelou que em agosto deste ano, o Brasil bateu novamente o recorde no número de internautas residenciais (pessoas que acessam a Internet de casa): 19,3 milhões de usuários ativos.  Ainda de acordo com a pesquisa, durante o mesmo mês, o Brasil continuou a ser o país com maior tempo médio de navegação residencial por internauta, à frente de países como Estados Unidos, Alemanha, Japão e Austrália. Isso significa dizer que nós, brasileiros, somos os campeões na arte de ficar à frente do computador, independente do que fazemos: trabalhando, jogando, se comunicando, pesquisando, se divertindo e tantas outras coisas mais. O computador já é, sem dúvida, uma das cinco maiores tecnologias utilizadas pelos cidadãos brasileiros, juntamente com a televisão, o rádio, o telefone celular e o telefone fixo, segundo dados do Cetic (Centro de Estudos sobre as Tecnologias de Informação). Passamos uma boa parte do dia debruçados nestas engenhocas, ativando e desativando nossos sentidos: vemos, ouvimos, falamos e tocamos (as tecnologias que permitem o uso do olfato ainda não são populares).  

O que houve com o mundo após o advento da tecnologia? Foi transformado. A transformação que impulsiona a vida no mundo, a transformação que opera em todos os níveis da vida em sociedade – familiar, profissional, educacional, afetivo, religioso, etc - em que pessoas se comunicam, descobrem, experimentam realidades virtuais, entretêm-se, pesquisam, aprofundam conhecimento, resolvem problemas, enfim, enfim, enfim, tantas são as possibilidades, tantos são os números!

Mas, como toda a história, há o “lado bom” e há também o “lado mau”, interpretado pelo excessivo, obsessivo, abusivo, o que ultrapassa os limites. E é exatamente este o ponto central da nossa abordagem. Os “nativos digitais” (como são chamados os jovens e crianças que nasceram num mundo, digamos, tecnologicamente pronto: eles vieram depois do advento do computador, e não imaginam a vida sem ele) dedicam bastante tempo de seus dias em sites de relacionamento. Possuem uma rotina virtual altamente frenética. Alguns chegam a passar mais de 8 horas diárias na frente do computador, jogando, acessando, clicando, deixando de lado hábitos necessários, como dormir e alimentar-se, para aproveitar o máximo de tempo possível em seu mundo particular.

Kevin Kelly, escritor de vários livros sobre tecnologia, em sua entrevista a Veja Tecnologia (agosto 2007) comentou: “A resposta correta a uma idéia ruim não é parar de pensar. É uma idéia melhor. A resposta correta a uma tecnologia ruim não é parar a tecnologia. É uma tecnologia melhor. Pelos meus cálculos, a soma total das tecnologias é igual à civilização. Civilização é tecnologia. Tecnologia é a obra cumulativa agregada da imaginação e da invenção humanas”.

Não há dúvida das infinitas possibilidades que a tecnologia pode proporcionar à vida moderna. Não há dúvida dos inúmeros benefícios proporcionados a qualquer indivíduo com o uso da tecnologia. Não há dúvida da realização dos desejos do indivíduo, fruto da sua inquietação de querer mudar, criar uma idéia melhor, uma tecnologia melhor, uma civilização melhor, através da sua própria capacidade de gerar novas engenhocas tecnológicas que aproxima os distantes, salva vidas, provoca emoções, auxilia na descoberta da cura, informa, inclui, transforma.

Mas, sejamos humanos imperfeitamente tecnológicos. Vamos tentar equilibrar nossa vida, meio humana, meio “robô”. Não vamos transformá-la num dia-a-dia essencialmente digitalizado, racionalmente medido e substancialmente mecanizado e envolvido pela sopa tecnológica.  Vale lembrar do essencial da existência: o amor, o toque, o olhar, o cheiro, o gosto, o sentimento, a palavra. Sem querer ser piegas, vamos nos aproximar mais do que é “vivo”, vamos encontrar caminhos para conversar com Deus ou com as divindades que reverenciamos, vamos olhar mais sensivelmente para a pessoa que está ao nosso lado, em casa, no trabalho, na rua, vamos acreditar mais, vamos ter fé.

Talvez assim, aquelas crianças do restaurante, e tantas outras que estão excessivamente envolvidas no mundo digital, cresçam percebendo a importância do diálogo, do ouvir e do compreender, e o planeta talvez se torne um pouco mais humano, menos racional e fanático.

*Graduada e pós-graduada na área de tecnologia da informação. Mora em Salvador. E-mail: elucia00@gmail.com.