Edição 109 - Aracaju, 20 de janeiro a 17 de fevereiro de 2008
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  tecnologia
Telefonia móvel
O ser humano é fiscal, vítima ou vilão?

Por Elba Vieira*

Comunicação, segundo o dicionário Michaelis, é a “ação, efeito ou meio de comunicar; é o processo pelo qual idéias e sentimentos se transmitem de indivíduo para indivíduo, tornando possível a interação social.” Em outras palavras, é o intercâmbio de informações entre pessoas através de uma infinidade de meios para que a comunicação seja estabelecida: através do diálogo, de sons, símbolos, imagens, mensagens, olhares, gestos, escrita, enfim, o ser humano sempre buscou formas de fazer com que o processo da comunicação fosse concretizado.

Como a tecnologia passou a fazer parte da vida moderna, nada mais óbvio do que criar um mecanismo que proporcionasse ao indivíduo a possibilidade de garantir a comunicação entre ele e o mundo, viável do ponto de vista tecnológico e financeiro. Algo que trouxesse a possibilidade de se comunicar rapidamente para solucionar emergências, fazer contatos de qualquer parte, aproximar pessoas, divulgar opiniões, espargir idéias. Surgiu, então, o telefone celular.

O que se pode dizer do que este “brinquedinho” é capaz de fazer? E no que o ser humano se transformou com ele? Além de proporcionar sua função básica – comunicar – ele também é capaz de outras façanhas. Ele é um meio que proporciona momentos de felicidade, alegria, inquietude, ansiedade, stress, angústia e desespero. A principal característica do telefone celular é a mobilidade. Uma pessoa pode manter uma comunicação telefônica mesmo em deslocamento. Isto é possível através de ondas de radiodifusão, que dispensa o uso de fios. A transmissão é feita por faixas de freqüência, também chamadas de bandas. Por estas facilidades, este serviço é um dos que mais cresce no mundo.

Quem tem mais de 30 anos (ou 40!), lembra-se do desenho “Os Jetsons”, ou do filme “Jornada nas Estrelas”, ambos da década de 60, onde os personagens já se comunicavam através de equipamentos que possibilitavam a comunicação sem fio originada de qualquer lugar. Isso já introduzia no imaginário das pessoas como seria (ou poderia ser) o futuro da humanidade; já demonstrava a necessidade e o desejo do ser humano de se comunicar de maneira cada vez mais rápida e cada vez mais wireless (sem fio, sem dispositivos físicos), sem estar atrelado fisicamente a uma estrutura que lhe prenda; o desejo em fazer com que suas idéias, pensamentos e opiniões alcancem o destino de forma clara, como se ele mesmo estivesse lá para falar. Bill Gates no início deste ano, na maior feira mundial de tecnologia em Las Vegas (Consumer Electronics Show - USA), já previu que o setor está à beira de uma nova “década digital”. Ele disse: “Tudo estará conectado. Será automático. Os usuários não precisarão mais criar pontes entre os aparelhos e lembrar o que está onde”. Isso reforça o que a humanidade sempre quis desde o início dos tempos: comunicação. E o  mundo “todo comunicável” transformou-se na globalização, fenômeno já considerado irreversível.

Muita coisa mudou desde o primeiro “alô” móvel, feito em 1973 por um telefone celular, apesar de só ter chegado ao mercado em 1983. Evoluindo com novos modelos e novos recursos, os celulares de hoje já não são somente meios de comunicação. Hoje eles possuem funções outras com recursos e formas similares a um computador, acesso à Internet, e-mail, agenda, câmera, etc. Com o uso do celular, os indivíduos se comunicam através da voz, de textos (os famosos torpedos), e de imagens, que é possível com o uso de aparelhos que possuem câmeras embutidas...tecnologia já de fácil acesso, e largamente utilizada, em virtude do seu baixo valor aquisitivo.

Segundo Pesquisa Nacional do Ibope Mídia (2007), “1/4 dos domicílios brasileiros têm pelo menos duas linhas de telefone móvel”. [...] “O brasileiro está acompanhando a tendência mundial de ficar cada vez mais antenado com o mundo. Ou seja, de uma forma ou de outra, os diversos meios de comunicação disponíveis no mercado vêm sendo incorporados ao cotidiano do consumidor brasileiro, independente de sua classe social ou região”.

Já segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), o número de celulares cresceu 21,07% em 2007, fechando o ano em 120,98 milhões de aparelhos. Ao todo foram vendidos mais de 21 milhões de aparelhos no ano passado (4,6 milhões somente em dezembro)...um recorde! Considerando que já há uma preferência natural pela escolha e compra de aparelhos com câmeras, então pode-se concluir que existem milhões de pequeninas câmeras espalhadas por aí, nas mãos de crianças, jovens, adultos e idosos, pertencentes às mais variadas classes sociais, nos mais diferentes lugares e nas mais diferentes regiões, registrando uma infinidade de imagens que depois serão compartilhadas com outras tantas pessoas. Dá pra imaginar a quantidade de cenas filmadas a todo momento? Apesar do pouco tempo de gravação que estas câmeras são capazes de armazenar, flagra-se uma visão do mundo, o cotidiano, o inusitado, o espontâneo, o imperdível. É o sopro da vida evidenciado em imagens pela própria mão do homem.  

Com essa tecnologia que cabe na palma da mão, o ser humano se descobriu fiscal da sociedade, vilão e vítima. Ele registra a vida (nascimentos, uniões, celebrações, festas, etc.) e registra o horror e a morte (acidentes, tragédias, cenas de violência, etc.). Quando a coincidência coloca uma pessoa no lugar e hora exata da ocorrência de determinado fato, os registros são feitos de forma natural e espontânea, e depois podem ser compartilhados com qualquer pessoa e com o mundo. Neste sentido, o ser humano quer colaborar. Quer opinar. Quer participar. Quer divulgar ao mundo aquilo que ele mesmo foi capaz de registrar.

O homem é o fiscal do mundo. Ele testemunha o erro, a incompetência, o absurdo; situações não condizentes com a realidade humana; fatos que a sociedade expurga; crises políticas, sociais, enfim...e depois, como num ato jornalístico, ele publica o conteúdo para o mundo, para a sociedade, para um grupo seleto de pessoas, para um indivíduo, ou, simplesmente, guarda para si mesmo.

O homem é o vilão do mundo. Ele invade a privacidade alheia, filma o improvável e estampa o que quer pelas mais variadas redes de comunicação. É capaz também de subornar com as imagens que faz. Negociar vidas. Blefar. Desestruturar.

O homem é a vítima do mundo. Vidas devassadas, empresas espionadas, segredos divulgados. Algumas empresas já proíbem o uso de celular em suas instalações, com o objetivo de reduzir as estatísticas de problemas relacionados à espionagem.

Então, fique atento... será que neste momento você está sendo filmado?

*Graduada e pós-graduada na área de tecnologia da informação. Mora em Salvador. E-mail: elucia00@gmail.com.