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tecnologia Lixo eletrônico O planeta descarta cerca de 50 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos por ano. O que fazer? Por Elba Vieira*
Vamos começar a nossa história assim: na Wikipedia (enciclopédia livre) é possível encontrar a definição de “lixo eletrônico”, como o nome dado ao resíduo resultante da rápida obsolescência de equipamentos eletrônicos (o que inclui televisores, aparelhos celulares, computadores, geladeiras e outros dispositivos). Tais resíduos, descartados em lixões, constituem-se num sério risco para o meio ambiente, pois possuem em sua composição metais pesados altamente tóxicos, tais como: mercúrio, cádmio, berílio e chumbo. Em contato com o solo, estes produtos contaminam o lençol freático; se queimados, poluem o ar. Além disso, causam doenças graves nos catadores que sobrevivem de vender materiais coletados nos lixões. O ato de descartar um produto eletrônico pode ser o resultado de um equipamento que não funciona mais e não pode ser consertado, o conserto é muito caro, não há peças para o conserto, ou simplesmente porque está tecnicamente obsoleto e é substituído por outro mais moderno. Em geral, o estímulo é maior para compra de um novo produto do que para a manutenção de um usado. À primeira vista, já dá pra perceber a gravidade e a dimensão do problema, e como isto pode trazer sérias conseqüências ao planeta. Segundo dados da ONU, o planeta descarta (por ano!) cerca de 50 milhões de toneladas de resíduos tecnológicos. Sete em cada dez desses milhões de toneladas de sucata eletrônica vão parar na China para serem recicladas. Europa e EUA são considerados os maiores produtores de sucata eletrônica do mundo, vendendo a preços simbólicos ou enviando o material gratuitamente para a China. Outros países como Índia e Nigéria também passaram a fazer reciclagem de lixo eletrônico, apesar dos dados alarmantes de contaminação do solo por metais pesados, em função dos processos de desmontagem, derretimento dos equipamentos, incineração, e outros processos, que liberam gases tóxicos no ambiente, deixando resíduos letais no corpo, solo e cursos de água. O descarte de equipamentos eletrônicos causa um desperdício razoável de recursos. Os contatos de microprocessadores (circuitos eletrônicos existentes nos computadores e equipamentos eletrônicos), de memórias e da maioria dos circuitos integrados (chips – dispositivos microeletrônicos) que compõem um equipamento são feitos de ouro. E além do ouro, há também outros metais envolvidos na fabricação de computadores, como: prata, paládio, cobre, estanho, gálio, índio (utilizado também na fabricação de monitores de tela plana e celulares, e atualmente é mais caro que a prata), e mais uma série de outros metais de alto valor. Questão de sobrevivência Com o objetivo de evitar o desperdício, reduzir as agressões à natureza, e dar um destino adequado aos recursos, surgiu há alguns anos a idéia de reciclar produtos e resíduos eletrônicos descartados. Porém, a reciclagem destes produtos exige processos pouco convencionais, como é feito atualmente na China. Segundo matéria veiculada pela Veja Tecnologia 2007, o garimpo do lixo eletrônico é a principal riqueza da cidade de Guiyu (cidade do litoral chinês), onde oito em cada dez habitantes, entre crianças e idosos, passam o dia destroçando carcaças de computadores, aparelhos de fax e outras peças, buscando metais que possam ser recuperados e revendidos, como cobre, aço e ouro. Segundo o Greenpeace, se a quantidade gerada por ano de sucata eletrônica fosse colocada num grande trem, seus vagões carregados dariam uma volta ao redor do mundo. Somente nos EUA, 304 milhões de aparelhos eletrônicos são jogados no lixo a cada ano. Seis em cada dez deles ainda funcionam! E por que, então, são descartados tão depressa? Será que a sociedade do “ter” anda tão ansiosa em ter o melhor, ter o mais novo, ter o mais atual, e descarta tão rapidamente o “velho” amigo? Quem não se lembra do desenho animado Toy Story (1995), quando o garoto Andy ganha um astronauta de brinquedo (Buzz Lightyear), cheio de funções incorporadas, luzes e lasers que piscam e acendem...uau! O garoto então, num rápido reflexo, deixa de lado seu velho amigo boneco cowboy (Woody), passa a brincar com aquele novo brinquedinho eletrônico e a história se desenrola nesta trama. Similarmente, nós, na vida real, somos assim: queremos o mais novo...queremos o melhor! O que ficou para trás, ficou para trás! Possibilidades Algumas iniciativas, no Brasil e no mundo, estão sendo desenvolvidas, com o objetivo de tornar a reciclagem de eletrônicos um processo viável. As Nações Unidas criaram o programa Step (“Solving the e-waste problem” – “resolvendo o problema do e-lixo” ou lixo eletrônico), e já conta com o apoio de fabricantes de equipamentos de informática e telecomunicações. O foco principal desta iniciativa é a criação de padrões mundiais de processos de reciclagem de sucata eletrônica, aumentando a vida útil dos produtos eletrônicos e desenvolvendo mercados para sua reutilização. Na Alemanha existem cerca de 300 companhias de reciclagem que incluem pequenas companhias e instituições especiais. No Brasil, de acordo com o Comitê de Democratização da Informática (CDI), cerca de um milhão de computadores é jogado fora, por ano! Parte destes resíduos é aproveitada, mas muitas peças vão parar nos lixões. O Conselho Nacional do Meio Ambiente, considerando os impactos negativos causados ao meio ambiente pelo descarte inadequado de pilhas e baterias usadas, publicou uma resolução determinando a responsabilidade dos produtores pela coleta, classificação e transporte dos produtos descartados, e seu adequado tratamento. Um projeto de lei em São Paulo coloca computadores, televisores e eletrodomésticos numa lista de reciclagem obrigatória. Se aprovado o projeto, a lei fará com que empresas adotem medidas que assegurem a reciclagem ou reutilização total ou parcial de um material descartado. Há outros projetos de lei tramitando no Governo Federal que têm a missão de atualizar a legislação brasileira neste assunto. Qual é o nosso papel? Somos o retrato do efêmero? As configurações técnicas de nossas máquinas (computadores, celulares e eletrônicos em geral) devem estar no mais alto nível de modernidade. Mais capacidade, mais funções, mais memória, maior velocidade, design moderno, e outras tantas coisas. E depois de adquirir o novo, descartamos a “velha máquina”...aquela que adquirimos há “um minuto atrás”. Pelo ritmo alucinante da obsolescência do hardware (parte física) de equipamentos, há sempre novas possibilidades a serem conquistadas, funções que até pouco tempo desconhecíamos, e quando passamos a conhecê-las, não queremos mais perdê-las. Qual será o destino final do lixo eletrônico, aquela sucata que não tem mais serventia, face à enorme (e crescente!) massa de lixo que a humanidade produz? Jogaremos o lixo embaixo do tapete do mundo? Ou vamos jogá-lo no espaço? Vamos fingir que o problema não é nosso e que já tem um monte de gente pra pensar e cuidar deste assunto? Se criamos, utilizamos, inutilizamos e descartamos, caros amigos, então a responsabilidade é nossa! Cidadãos, empresas, governos, entidades, todos! Apesar da carência de políticas públicas, apesar do problema estar relacionado a fatores culturais e econômicos, apesar das dificuldades encontradas para fazer manutenções em produtos usados, apesar do alto grau de informalidade do setor de reciclagem no Brasil, é possível que algumas ações sejam tomadas, mesmo que em “pequenas gotas”: começando pela separação do lixo comum, que é possível de ser reciclado (uma realidade já em diversas cidades brasileiras), como papel, vidro, plástico e metal. Que tal ampliar nossa consciência ecológica individual ou coletiva, e considerar também o descarte adequado de produtos ou resíduos eletrônicos? Vejamos alguns exemplos: aparelhos celulares obsoletos ou inutilizados podem ser devolvidos às operadoras ou outros locais apropriados; pilhas podem ser colocadas em recipientes de lixo reciclado (algumas empresas recebem este material para descarte adequado). Estes dois produtos chegam a demorar 500 anos para se decompor, caso sejam jogados na natureza. No caso de computadores e outros itens de informática, há no Brasil algumas entidades que recebem equipamentos ou resíduos eletrônicos obsoletos: Agente Cidadão: Tem como princípio a coleta de resíduos excedentes para dar um fim ecologicamente correto. Comitê de Democratização da Informática (CDI): Entidade presente em diversas cidades do país. Possui ações voltadas à inclusão digital, e aceita equipamentos obsoletos para uso em seus programas. Museu do Computador: Aceita doações de equipamentos de informática, mesmo sem funcionar. O museu possui uma oficina eletro-mecânica onde os equipamentos recebidos são revisados e reformados. Associação Brasileira de Redistribuição de Excedentes (ABRE): A associação recebe computadores e outros itens que são doados para instituições. Além disso, há empresas que possuem programas de reaproveitamento de seus equipamentos e produtos, como a Cânon (reaproveitamento de impressoras), a Nokia (reciclagem de baterias), a Dell (reciclagem de notebooks, impressoras, monitores e outros produtos da marca), a Motorola (recebimento de celulares, baterias e acessórios), entre outras. E o futuro? Com a tecnologia cada vez mais presente na vida do ser humano, com o aumento crescente do número de pessoas inseridas no mundo digital, adquirindo mais e mais produtos eletrônicos (computadores, celulares, games, etc.), com a constante redução de preços de produtos, facilidade na aquisição de bens (juros baixos, descontos variados, grande número de parcelas a pagar, etc.), o cenário não é nada promissor sob a ótica ambiental. Ainda há muito a fazer quanto aos cuidados necessários pós-consumo de produtos, quanto ao desperdício de produtos (equipamentos jogados no lixo, mesmo em funcionamento), quanto a falta de opções sobre o que fazer com o lixo eletrônico (principalmente nas localidades mais distantes dos grandes centros urbanos), quanto a forte dependência a pessoas e empresas voluntárias em aderir às causas ecológicas, e quanto à informalidade de todo o processo. Porém, se fizermos o nosso “dever de casa”, certamente melhoraremos o cenário atual e o futuro poderá ser diferente. “No final, nossa sociedade será definida não somente pelo que criamos, mas pelo que nos recusamos a destruir”. (John Sawhill). Pense nisso!
Fontes consultadas: *Trabalha na área de Tecnologia da Informação. Mora em Salvador. E-mail: elucia00@gmail.com |